Neste sábado, 21 de dezembro, às 16h, o espaço cultural Na Figueiredo, em Belém, será palco do lançamento do livro MulheRios e Capoeiragens: Encruzilhadas na Amazônia. Organizada por Carmem Virgolino, a obra surge como uma confluência potente de vozes femininas, conectadas pela capoeira e pela luta em territórios de resistência na região amazônica. O livro foi contemplado pelo Edital de Livro e Leitura da Secretaria de Cultura do Estado do Pará e financiado pela Lei Paulo Gustavo.
A obra é resultado do Projeto Capoeira e Amazônia Negra – Encruzilhadas, trazendo textos de dez mulheres que compartilham suas trajetórias na capoeira e como esta prática atua como um espaço de organização coletiva, educação e afirmação identitária. A proposta é dar visibilidade às mulheres capoeiristas e resgatar narrativas femininas, muitas vezes apagadas da história.
Entre as autoras estão nomes como Cristina Nascimento, Dandara Baldez, Joana Carneiro Vasconcelos, Carla Alves Yahn, Maria Zeneide da Silva, Anna Beatriz Freitas, Jucimeire Rabelo, Luisa Cecilia Oscar e Daelem Maria Pinheiro. A obra também conta com prefácio de Mariana Bracks Fonseca, posfácio de Luiz Augusto Leal, apresentação de Carmem Virgolino e orelha assinada por Joana Carmem Machado. A capa traz uma gravura de Sagita, inspirada na fotografia de Ingrid Gomes, em um projeto coordenado por Carmem, com produção de Otavia Feio e publicado pela editora Mar-ahu Edições.
A gênese do projeto

Em entrevista ao Holofote Virtual, Carmem Virgolino relembra as origens do livro. Sua trajetória como pesquisadora começou em 2010, com uma dissertação de mestrado que abordava rituais e performances da capoeira angola em Belém.
“Naquela época, eu tinha apenas cinco anos de capoeira e acabei recuando diante de temas mais delicados, como as violências de gênero”, conta Carmem. “Hoje, com mais experiência, percebo que voltar a essas questões era fundamental. Inspirada no Sankofa, retorno ao que não pude escrever em 2010, mas agora não estou mais sozinha.”
O livro é fruto de um processo de curadoria sensível e intergeracional, dando espaço a mulheres capoeiristas de diferentes gerações e territórios, com ênfase na identidade amazônica. “A ideia foi convidar mulheres que tivessem o desejo de escrever, exercitando a escrita como um direito. O livro é, antes de tudo, um aquilombamento literário”, explica a organizadora.
Capoeira: um espaço de resistência feminina

Embora historicamente marcada por uma forte presença masculina, a capoeira tem sido ocupada e transformada pelas mulheres capoeiristas. Carmem acredita que este protagonismo traz à tona debates essenciais sobre violências de gênero e a busca por relações mais justas dentro da roda.
“A capoeira é amorosa e acolhedora, mas também é um espaço de disputa de poder. As mulheres sempre estiveram nela, mesmo que invisibilizadas. O registro mais antigo que temos é de Jerônima Cafuza, no século XIX. Hoje, nós questionamos e colocamos em debate essas violências, buscando relações mais equânimes.”
Para Carmem, a capoeira carrega elementos de ancestralidade que celebram a presença feminina. “A ginga, por exemplo, o movimento principal da capoeira, é uma homenagem a Nzinga, a rainha africana que inspirou nossa luta”, destaca.
A participação de nomes como Mariana Bracks, Luiz Augusto Leal e Joana Carmem Machado fortalece a narrativa do livro, conectando a obra às histórias de resistência negra na Amazônia e ao diálogo com pesquisadoras que resgatam memórias silenciadas. “Mariana nos traz as rotas dos africanos sequestrados, Luiz Augusto resgata registros históricos de mulheres capoeiristas, e Joana coloca a obra em diálogo com o legado quilombola de nossa região”, explica Carmem.
Celebração e inclusão no lançamento

O lançamento de MulheRios e Capoeiragens vai promover uma roda de conversa com convidadas especiais, com a presença ancestral dos berimbaus, acessibilidade e recursos de autodescrição, garantindo que todos possam participar dessa experiência.
“O lançamento não é apenas sobre o livro. É um encontro de mulheres, de resistências e de futuro. Queremos que todos se sintam acolhidos e parte dessa história”, convida Carmem. Estarão presentes nomes como Marinor Brito, Zeneide Gomes, Joana Carmem Machado e Denilce Rabelo, reforçando o diálogo coletivo que a obra propõe.
Carmem finaliza com um desejo: “Espero que o livro inspire as pessoas a conhecerem mais sobre a capoeira, essa prática que conecta e educa, e que tem na região amazônica um berço de resistência e potência cultural.”
Serviço
O quê: Lançamento do livro MulheRios e Capoeiragens: Encruzilhadas na Amazônia
Quando: 21 de dezembro, às 16h
Onde: Espaço Na Figueiredo, Av. Gentil Bittencourt, 449, Nazaré – Belém-Pa
Entrada: Gratuita
Por quê: Para celebrar a força das mulheres na capoeira e na cultura amazônica.
(Foto de capa/matéria: Ingrid Gomes)


