Lançamentos de 2025 revelam diversidade estética, política e cultural na produção literária da região amazônica

Em 2025, a literatura produzida na Amazônia ganhou visibilidade com lançamentos que atravessam gêneros, linguagens e territórios. Da literatura infantil à poesia contemporânea, teve ensaios acadêmicos, romances e narrativas diversas, obras que apontam a escrita como ferramenta de memória e crítica social.

Belém surge como um dos pólos de circulação dessas produções, mas os livros extrapolam a capital e dialogam com diferentes realidades. Entre os destaques do ano, a relação profunda entre identidade e comida é discutida em “Das Mesas aos Jornais: A Identidade Alimentar de Belém do Pará”, da jornalista e pesquisadora Taynah Meira.

Adaptado de sua dissertação de mestrado na Universidade de Coimbra, o livro investiga como pratos, ingredientes e rituais culinários foram narrados pela mídia ao longo das décadas, e como se transformaram em símbolos culturais. Taynah cruza jornalismo, arte e literatura para revelar como as comidas “típicas” de Belém se moldaram no imaginário coletivo, especialmente na era das “comidas instagramáveis”.

No universo infantil, dezembro trouxe o encanto de “Vida de Camarão”, lançado pela Editora Paka-Tatu. No novo livro de Jussara Moretto Martinelli Lemos, uma criança adormece e mergulha em um mundo aquático amazônico, onde dois camarões, um de origem marinha, outro da água doce, descobrem diferenças, afinidades e laços familiares. A história tem múltiplos finais, decididos pelo leitor, e revela a delicadeza pulsante dos manguezais, onde tudo vive em constante transformação.

Na ficção, “A Visagem do Brinquedo de Miriti”, de Beatriz Ferreira da Costa, recorre a um realismo mágico contido, usando o sobrenatural como lente para iluminar tensões reais, como a mineração predatória, violência crescente e a vulnerabilidade das comunidades amazônicas. O romance ressalta o papel do imaginário amazônico como território de crítica e reinvenção.

Já em “Terra Amazon-is”, Jeniffer Yara reúne vozes historicamente silenciadas — da “menina marajoara” à criança que vende bombons no sinal. A obra, descrita como sensível e combativa, denuncia colonizações, destruições ambientais e violências sociais. Para Jeniffer, que é escritora, professora e pesquisadora, escrever é resistência, uma forma de preservar memórias e reparar feridas simbólicas.

Outra reinvenção do imaginário aparece em Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém, do professor, jornalista e pesquisador Fábio Horácio-Castro. Reconhecido no meio acadêmico, Fábio revela aqui sua face ficcional: ele pega referências históricas, geográficas e culturais da capital paraense e dobra esse mapa real em um tecido de fantasia, criando uma Belém onírica e provocadora.

O livro de onze contos “A mãe troglodita” , de Clarissa Vicente, deixa intensidade por onde é lido. O livro, lançado em maio deste ano, por mais breve que seja a leitura aborda assuntos como luto, relações pessoais e passagem do tempo de uma maneira que evitam simplificações e exploram territórios de dúvida e questionamentos com uma linguagem que foge do óbvio.

A autora da obra, Clarissa Vicente, que atua nas áreas do Direito e da Psicanálise, desenvolve uma escrita aparentemente cotidiana, mas carregada de nuances sensíveis, tensões e inquietações da vida humana. A orelha da obra é assinada por Luciana Brandão Carreira, poeta, psicanalista e pesquisadora.

A vastidão amazônica está em “Marajós: Vozes, Caminhos da Grande Ilha”, organizado por Edgar Monteiro Chagas Junior, Paulo Nunes e Vânia Torres. Reunindo relatos, estudos e narrativas de pesquisadores e moradores, o livro desafia estereótipos e oferece uma visão viva e múltipla do cotidiano marajoara, uma obra ancorada na escuta, na pesquisa e no respeito aos modos de existir que compõem a Grande Ilha.

Para os amantes da poesia, “O Eixo Ausente”, de Vasco Cavalcante, confirma a maturidade de sua voz literária. Com prefácio de Jorge Henrique Bastos e posfácio de Amarilis Tupiassu, o livro se coloca no centro da discussão contemporânea sobre a poesia paraense, evidenciando a precisão estética e emocional do autor.

Já “Por isso as papoulas”, de Andreev Veiga, publicado pela Editora Fósforo, se destaca como uma obra de impacto político e social. Seus 39 poemas atravessam guerras, fome, desigualdade, trabalho, refúgio e violência — trazendo à tona figuras anônimas que refletem as fraturas do presente. Para o autor, o elo entre todos os textos é a própria condição humana, intrinsecamente política.

Misturando literatura, música e poesia visual, a escritora Danielle Fonseca lançou o seu segundo livro “Disco-Poema”. Em entrevista ao holofote virtual no início do ano, em fevereiro, a artista revela como suas referências emergem tanto do universo musical quanto da tradição poética. Suas influências transitam entre o rap, a cultura pop, a filosofia e as batalhas de rimas, incorporando diferentes cadências à sua escrita.

Fechando a lista, Disco-poema é um livro que pode ser lido, ouvido e visto. O livro representa a continuidade de uma trajetória artística marcada pela fusão entre palavra, imagem e som. Danielle Fonseca é uma artista visual e escritora cuja poética transita entre a literatura, a filosofia, a música e a paisagem, explorando diferentes formas de expressão para dar corpo às suas ideias.

Ao longo de 2025, esses lançamentos mostram que a literatura produzida por aqui segue diversa, crítica e profundamente conectada aos territórios e às experiências que moldam a Amazônia contemporânea.

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