A sexta-feira acordou com notícia triste. O som do curimbó e das maracas silenciaram nesta quinta-feira, 7 de agosto de 2025. Lourival Monteiro Barros, o Mestre Lourival Igarapé, partiu aos 74 anos, deixando um legado no batuque, no canto, na artesania de instrumentos e na memória afetiva de Icoaraci, onde se tornou referência do carimbó tradicional.
Em 2025, ele esteve na linha de frente do projeto Rodando com Carimbó, uma caravana cultural que percorreu cidades do nordeste paraense, entre elas Cachoeira do Piriá, Bragança, Santarém Novo, Igarapé-Açu e Marapanim, levando apresentações e promovendo diálogos com comunidades locais.
O objetivo foi ouvir, mapear e fortalecer práticas culturais ameaçadas pelo apagamento, contribuindo para a construção de políticas públicas voltadas à cultura popular.
“O carimbó representa tudo na vida para mim, é uma forma de viver”, disse o mestre, que também confeccionava seus próprios instrumentos. “O que me sustenta é essa energia que eu recebo de trabalhar com cultura popular”, afirmou, em entrevista no início do ano.
Sua partida encerra uma trajetória marcada pelo compromisso com a memória e a continuidade das tradições, mas seu som, seu ritmo e sua voz seguem ecoando nas rodas de carimbó, onde a vida se encontra com a dança e o tambor.
Com a COP30 prevista para novembro, Lourival via nesse movimento uma oportunidade de dar visibilidade internacional ao carimbó em diálogo com o turismo cultural do estado.

Nascido na comunidade do Caripí, em Igarapé-Açu, Lourival chegou a Belém na década de 1970 e fixou morada no Paracuri, distrito de Icoaraci, nos anos 1980.
Foi apenas na maturidade, já aos 40 anos, que a música se tornou presença definitiva em sua vida, e aos 55 começou a compor. Desde então, construiu uma obra marcada pela preservação das tradições e pelo compromisso com a natureza.
Não apenas tocava e cantava: também fabricava com as próprias mãos curimbós, reco-recos e maracas, utilizando sementes, ouriços e bambu, reafirmando a ligação indissociável entre a cultura popular e os recursos da floresta.
Fundador da Escola de Carimbó Mestre Lourival Igarapé, formou gerações de crianças e jovens, transmitindo saberes, toques e histórias que fazem do carimbó um território de pertencimento.

Em 2021 lançou seu primeiro EP autoral, Queimadas, um manifesto em defesa da Amazônia que reuniu 32 carimbozeiros e ganhou a voz de Nazaré Pereira em sua faixa-título. Canções como “Gaiola” traduziram, em melodia, seu desejo de liberdade e de harmonia com a natureza.
Durante mais de três décadas, Lourival foi presença marcante em rodas, festivais e projetos como o “Rodando com Carimbó”, levando a força do batuque de Icoaraci para além das fronteiras da cidade. Em julho, poucos dias antes de se internado, lá estava ele montado em seu curimbó com o grupo Bem Acompanhado.
Sua partida entristece a cultura popular paraense, mas seu legado seguirá vivo no compasso dos tambores, nas festas de bairro e na lembrança de quem dançou, aprendeu e se emocionou ao seu lado. Por isso é que em cada curimbó tocado em Icoaraci, haverá sempre um pouco de Lourival Igarapé. O nosso muito obrigado, mestre!


