Foto: Holofote Virtual

Rota das Tradições foca o barro do Paracuri entre a memória, a urgência e o futuro

A Rota das Tradições costura um século e meio de fazeres em barro, da peça utilitária à releitura contemporânea, e testa um caminho para reaquecer a cena cultural e turística num território que já foi sinônimo de exportação e referência nacional.

“A ideia é viajar pela linha do tempo desses 150 anos”, explicou Maynara Sant’Ana, ao apresentar o percurso .

No último sábado (9), entre fornos, prateleiras e histórias de família, percorri o bairro do Paracuri, coração ceramista de Icoaraci, que reabriu a conversa com sua própria trajetória.

Tudo começou no Liceu Escola Mestre Raimundo Cardoso (1996), criado para unir educação formal, memória e o saber-fazer do barro, um eixo que vai das oficinas e galerias à formação cidadã, com acessibilidade e vocação para educação patrimonial.

Em seguida chegamos à tradição utilitária na Olaria do Espanhol (1903), hoje dirigida por Ciro Croelhas, ceramista que mantém um ecomuseu familiar e a produção manual de filtros, panelas e vasos.

Tradição que passa de pai para filho, na Olaria do Espanhol. Foto: Holofote VIrtual.

A rota segue para a pesquisa da cerâmica arqueológica com Marivaldo Costa, referência em réplicas marajoaras e tapajônicas e parceiro do Museu Goeldi em projetos de reprodução fiel.

Depois chega-se à loja de Doca Leite, mestre com mais de 45 anos de percurso reconhecido e que brinca com cor e grafismos tradicionais. A rota culmina na Cerâmica Família Sant’Ana, onde tradição, design e educação patrimonial se encontram e onde a diversidade também pauta o trabalho e o ambiente do ateliê.

Ainda que em busca de expandir e divulgar essa arte, movimentando a economia criativa da cerâmica, Maynara orgulha-se em dizer que “nosso público principal é o local. Trabalhar com quem é daqui movimenta a economia circular e reforça identidade, autoestima e reconhecimento”.

Energia, formação, infraestrutura

Em uma outra frente coletiva, mas também no campo das urgências, o artista visual e gestor do espaço Na Casa do Artista, Werne Souza afirma que há um conflito energético e um vazio de formação nesta jornada da cerâmica.

“A queima à lenha virou problema com a vizinhança e leva os artesãos a trabalhar com gás ou fornos elétricos, soluções mais caras. Nem todos têm condições de investir nessa transição”, diz.

Por isso, ele vem reunindo ceramistas para discutir alternativas limpas e viáveis, inclusive a instalação de fornos coletivos em equipamentos existentes, como o próprio Liceu. O segundo nó é a formação de novos oleiros: “Sem formação, a profissão corre risco. É preciso cursos e prática que atraiam a juventude e dar protagonismo aos jovens que já atuam em olarias como a Família Sant’Ana”.

A síntese de Werne aponta um norte: “Se não olharmos para a cerâmica como ecossistema, com utilização de energia limpa, formação e mercado, fica muito difícil manter viva essa tradição”.

Maynara Santana. Design e contemporaneidade da cerâmica. Foto: Holofote Virtual.

Políticas públicas, comunicação e educação

Infraestrutura e divulgação aparecem com força mas agora na fala de Ciro Croelhas. “Precisamos de divulgação, que a gestão publica também faça sinalização, indicando ao público como chegar nas olarias. Tem gente de Icoaraci que não sabe que a Olaria do Espanhol está aqui há 122 anos. Com mais divulgação, o público vem, gosta, indica”, afirma.

Ele aponta ainda que há um diálogo com o poder público para a estruturação do Ecomuseu de Belém, com ações de curto, médio e longo prazo: “Hoje já estamos melhor do que há cinco anos, mas há muito a melhorar”.

Para Simone Jares, frequentadora de vivências culturais, o ponto de virada depende de políticas públicas permanentes, especialmente educacionais. “Como as novas gerações vão criar pertencimento e aprender a continuar as tradições sem investimento em educação? É preciso política continuada para o saber tradicional”.

Diversidade no Marivaldo Arte. Foto: Holofote Virtual.

Um técnico do IPHAN reforçou o horizonte de reconhecimento: ao lado de bens como o Carimbó e o modo de fazer cuia do Baixo Amazonas, ele manifestou o desejo de ver, em breve, o ofício de ceramista do Paracuri inscrito como patrimônio imaterial: “Espero estar aqui um dia com o livrinho do ofício de ceramista do Paracurí”.

Na parada final, Sebastian, que integra a equipe da Cerâmica Família Sant’Ana dá o tom: “O barro é uma possibilidade infinita: criar, curar, expressar. A gente respeita a diversidade entre nós. Sou uma pessoa trans, temos pessoas LGBTs, religiosas e não-religiosas e isso se traduz numa cerâmica tradicional e inovadora”.

O ateliê funciona também como espaço formativo, “o barro transforma a vida”, que incentiva ceramistas e projeta o encontro de gerações em novas coleções e oficinas.

O que a Rota deixa claro

  1. Há memória e valor simbólico, além de um público local decisivo capazes de sustentar uma retomada econômica e turística com pertencimento.
  2. Os gargalos estão nomeados: energia limpa, formação prática e infraestrutura/divulgação, com propostas em curso (fornos coletivos; articulação com Ecomuseu/prefeitura).
  3. É hora de política pública continuada e de reconhecimento institucional do ofício como patrimônio vivo do Pará.
  4. A Rota das Tradições mostra que o Paracuri segue presente em nossas vidas como uma obra aberta.
  5. Entre a peça utilitária e o design, entre o grafismo ancestral e a invenção de hoje, a cerâmica segue ditando ritmo e sentido.
  6. Falta alinhar as engrenagens e isso, como lembram os ceramistas, ninguém faz sozinho.

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