O cinema paraense viveu mais um momento histórico. O curta-metragem “Boiuna”, dirigido por Adriana de Faria, conquistou três Kikitos — Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Atriz — no 53º Festival de Cinema de Gramado, um dos mais importantes do Brasil.
Filmado em Benevides, Benfica e na Ilha do Combu, com equipe majoritariamente nortista, o curta é inspirado na narrativa da Cobra-Grande e reafirma o potencial do cinema feito na Amazônia, com linguagem, estética e pulsão locais.
Mas a consagração em Gramado não veio apenas com os prêmios. O discurso emocionado de Adriana no palco do festival ressoou como resposta direta a falas recentes que tentam reduzir o Norte a cenário.

Sobre os olhares externos que continuam a exotizar a Amazônia, Adriana é direta: “A fala do Fernando Meirelles foi infeliz”, referindo-se à declaração do cineasta em meio às divulgações da série “Pssica”, da Netflix, filmada no Estado.
Para Adriana, o problema é mais profundo: “Dizer que o Pará está na moda ou que isso tem relação com a COP30 é ainda ter um pensamento colonialista, de que só a partir do olhar do outro é que a gente passa a existir”.
Em “Boiuna”, ao contrário, o território é sujeito. “Nos meus trabalhos eu parto dos sujeitos. Me interesso por quem são essas pessoas, seus desejos, seus sonhos. Quem vem de fora muitas vezes não tem esse interesse. Reproduz o que já conhece”.
A cineasta acredita que só quando as narrativas amazônicas forem avaliadas e legitimadas também por quem vive nelas, haverá mudança real: “Precisamos estar nos jûris, nas curadorias, nos espaços de decisão.”
“O filme é inspirado na narrativa da Cobra-Grande, mas não adaptei uma história específica. Criei uma nova: a de uma menina que se encanta e vira uma cobra-grande”. E esse encantamento é também metáfora de amadurecimento. “Ela é mundiada, encantada pela floresta. Isso faz parte do processo dela crescer”.
Mais de 60 profissionais do Norte e Nordeste participaram da realização do filme, que seguirá circulando pelo país com exibições marcadas no Teatro Amazonas, em Manaus, em ilhas de Belém, no sul e sudeste do Pará e em uma mostra durante a COP 30.
“Tenho um plano meio maluco, que agora, dizendo aqui, me compromete: quero levar o Boiuna aos 144 municípios do Pará. Sei que é difícil, mas vou tentar. Cinema é pra circular.”

É também para afirmar existências. Adriana é uma das vozes mais fortes da nova geração do cinema paraense e amazônico. Roteirista de formação, com passagem pela Escola Internacional de Cinema e TV (EICTV), em Cuba, constrói uma obra em que o território é central não apenas como paisagem, mas como motivação e urgência.
“O que me move é muito simples: fazer cinema aqui. Eu só fui pra Cuba porque aqui eu não tinha acesso. Fiz ‘Cabana’ porque a guerra da Cabanagem aconteceu aqui. E ‘Boiuna’ nasceu de uma amizade com uma mulher ribeirinha. Tudo vem da minha relação com esse lugar.”
Ao mesmo tempo em que celebra, Adriana também denuncia: o curta premiado é fruto direto da Lei Paulo Gustavo, mas o estado do Pará segue sem regulamentar a Lei Milton Mendonça, e não tem sequer uma Film Commission para receber produções externas.
“Já passou da hora do nosso Estado entender o poder do audiovisual. Existe uma indústria crescendo aqui e o Estado ainda não percebeu? Está perdendo muito, inclusive economicamente.”
Enquanto pensa nos próximos passos, ela desenvolve dois projetos de longa-metragem, um de ficção e um documental, e segue trabalhando como roteirista e diretora em colaborações. “Estou numa fase de entender por que fazer cinema, por que aqui, por que agora. Tô nessa viagem mais filosófica também.”


