Alessandra Munduruku, com as jornalistas Rita e Adelaide, do podcast Armarinho

Povos Indígenas e canais independentes furam bolha e mostram manifestação pela educação nas redes sociais

A ocupação da Secretaria de Estado de Educação do Pará (Seduc) por várias etnias indígenas, que ultrapassa 20 dias, se consolida como um dos mais significativos atos de resistência indígena dos últimos tempos. Desde o dia 14 de janeiro, em Belém, eles buscam a revogação oficial da Lei 10.820/2024.

A lei ameaça substituir a educação presencial por ensino a distância nas aldeias, representando um ataque direto ao direito à educação escolar de qualidade e à preservação de seus modos de vida. O movimento representa um marco na luta contra políticas que historicamente se utilizaram da mídia para apoiar narrativas oficiais.

O podcast Armarinho, apresentado pelas jornalistas Adelaide Oliveira e Rita Soares, gravou dois episódios especiais, no dia 2 de fevereiro, durante uma evento cultural na ocupação da Seduc. Os programas trazem conversas fundamentais com duas das lideranças femininas mais ativas da ocupação e na luta contra a nova legislação: Auricelia Arapium e Alessandra Korap Munduruku, ambas originárias do Tapajós.

Os episódios trazem depoimentos sobre uma resistência coletiva, que que vai além da ocupação e se insere em um contexto de luta pelo território. Além das falas contundentes, ambas tecem uma análise crítica sobre o impacto das decisões governamentais, e expõem na entrevista os desafios enfrentados por suas comunidades e a urgência da luta.

A resistência e atuação dos indígenas, agregou apoios e unificou a luta com os professores da rede estadual igualmente afetados. A imprensa local, comprometida com a narrativa do governador, se contrapõe à nacional que chegou a divulgar a situação, mas só depois que a mídia indígena e a comunicadores de veículos independentes ampliaram as vozes, documentando os acontecimentos e contextualizando a luta dentro de um histórico maior, de violações de direitos. Esses agentes fazem história, enquanto outros preferiram o silêncio.

Auricélia Arapium: Educação e território indígena

Auricélia Arapium (Imagem reproduzida do Youtube)

Auricélia Arapium emerge como uma das vozes mais fortes dessa resistência. No episódio do Armarinho, ela destaca como a Lei 10.820/2024 ameaça diretamente o direito dos povos indígenas à educação. Segundo ela, a educação indígena não pode ser reduzida a uma tela de computador ou celular.

O povo Arapium faz parte do complexo mosaico de povos indígenas do Baixo Tapajós. Com uma história marcada pelo contato intenso com colonizadores e missionários desde o período colonial, os Arapium resistiram às tentativas de apagamento cultural e mantiveram viva sua identidade.

Hoje, muitas de suas aldeias estão situadas na região da Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, onde lutam para garantir seu território e fortalecer suas tradições. Os arapiuns fazem parte do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA), que foi fundado em 2000, para que os povos indígenas da região tenham acesso a políticas de saúde e educação, e para que os seus territórios sejam defendidos.

A líder Arapium também denunciou na entrevista a estratégia do governo de criminalizar a ocupação da Seduc, destacando que a mobilização dos povos indígenas não é partidária, mas sim uma resposta legítima aos ataques aos seus direitos.

O ensino nas aldeias vai além do currículo formal: é uma prática coletiva, que se constrói no contato direto entre gerações, na troca de conhecimentos sobre a floresta, a terra e a história do povo. E isso está, segundo Auricélia, diretamente ligada à luta pelo território, pois é nele que os povos constroem sua identidade e fortalecem sua cultura.

Alessandra Korap: luta coletiva e resistência na Amazônia

Alessandra Munduruku (Imagem reproduzida do Youtube)

Os Munduruku são um dos maiores povos indígenas da Amazônia, com uma população de aproximadamente 14 mil pessoas espalhadas pelo Pará, Amazonas e Mato Grosso.

Historicamente guerreiros, os Munduruku têm sido protagonistas na resistência contra a mineração ilegal e a destruição ambiental no médio e alto Tapajós. A defesa de seu território se intensificou nos últimos anos devido ao avanço de garimpeiros, hidrelétricas e projetos de infraestrutura que ameaçam suas terras.

Dentro desse contexto, Alessandra Korap Munduruku se tornou uma das lideranças indígenas mais reconhecidas internacionalmente. Em 2023, ela recebeu o Prêmio Goldman Environmental Prize, considerado o “Nobel” do ambientalismo.

Sua atuação tem sido marcada pela denúncia da invasão dos territórios Munduruku por mineradoras e pela articulação política para garantir a consulta prévia às comunidades indígenas antes da implementação de projetos que impactem suas terras, como prevê a Convenção 169 da OIT.

No episódio do Armarinho, Alessandra fala sobre a ocupação da Seduc e os impactos da nova lei para a educação indígena. Assim como Araceli, ela critica o ensino a distância como um mecanismo que ignora a realidade das aldeias, onde a internet é precária e a dinâmica educacional depende do contato direto com os professores e a comunidade. Ela enfatiza que essa política não foi discutida com os povos indígenas, o que configura uma violação de seus direitos.

A liderança também reforça a relação entre educação e território, explicando que um ensino indígena de qualidade deve respeitar as especificidades culturais e linguísticas de cada povo. Para os Munduruku, a aprendizagem se dá não apenas na escola, mas também na convivência com os mais velhos, na oralidade e na transmissão de saberes sobre a floresta e os rios.

Ao longo da entrevista, a liderança reforça a necessidade de mobilização contínua e do apoio da sociedade para impedir retrocessos nos direitos indígenas. Para ela, a resistência precisa ser constante, pois as ameaças ao modo de vida dos povos originários são diárias – seja pela imposição de políticas que ignoram suas realidades, seja pela destruição ambiental promovida pelo próprio governo e empresas privadas.

Veja as entrevistas

Para quem quiser entender melhor o contexto dessa mobilização e ouvir diretamente as lideranças envolvidas, os episódios estão disponíveis no YouTube. Não deixem de conferir, são registros históricos de uma resistência que segue firme e inabalável.

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