O longa-metragem “Solanas Explicado às Crianças”, dirigido pelo cineasta André Queiroz, foi o grande vencedor do X Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA 2025), na categoria Melhor Longa-Metragem de Ficção, dentro da mostra Cinema de Guerrilhas.
Produzido no Brasil, no estado do Rio de Janeiro, com base em Niterói, o filme reafirma o vigor do cinema independente brasileiro e sua articulação com temas sociais, políticos e pedagógicos.
A 10ª edição do FICCA foi realizada nos municípios de Bragança, Augusto Corrêa e Ajuruteua nos dias 8, 9 e 10 de dezembro. André Queiroz soube do prêmio no próprio dia da divulgação oficial dos resultados, enquanto participava das atividades do festival. Segundo o cineasta, a premiação tem um significado especial por se tratar de um festival itinerante, comprometido com práticas contínuas de formação audiovisual.
“É uma honra vencer o FICCA, pelo que ele representa. Trata-se de um festival de cinema de guerrilha, de cinema independente, que não se limita ao momento da exibição, mas desenvolve atividades orgânicas, como oficinas, cineclubes e ações pedagógicas em escolas da região do Caeté”, afirma.
Segundo Queiroz, a experiência de acompanhar de perto essas ações reforçou a potência social, pedagógica e política do fazer cinematográfico, colocando o cinema a serviço das comunidades, especialmente das crianças e dos professores das escolas públicas.

Uma homenagem a Fernando “Pino” Solanas
O filme vencedor nasce como uma homenagem ao cineasta e pensador argentino Fernando ‘Pino’ Solanas, um dos principais nomes do cinema latino-americano. André explica que a obra dialoga diretamente com sua trajetória acadêmica, com pesquisas de pós-doutorado sobre Solanas na Universidade de Buenos Aires e um livro publicado em 2022.
A narrativa do filme se constrói como uma fábula ambientada em uma comunidade de pescadores, que teria recebido a visita simbólica de Solanas. A partir desse encontro, a história acompanha a formação política de um jovem chamado Pino, filho de um pescador da comunidade. A personagem Ana, mãe do Pino, é a narradora do filme.
“O filme funciona como um romance de formação, tratando da construção da consciência política desse personagem e da luta coletiva contra a mineração ilegal e a pesca industrial predatória”, explica o diretor.
O elenco reúne nomes como André Ramiro, Dani Câmara e Paulo Guidelli, além de atores da própria região de Niterói. Apesar do orçamento reduzido, o diretor destaca o cuidado estético da produção para a construção de um filme sensível, com uma linguagem poética, abordando questões centrais para comunidades tradicionais.
A trilha sonora é inteiramente autoral e composta por músicos brasileiros. Luiz Pardal e o Jacinto Kawage criaram o “Tango para Pino”, enquanto Gaspar Paz assina a trilha ‘Confluências’”.

Diálogo com a Amazônia e o cinema contemporâneo
Filmado em Itaipu (Niterói), o longa dialoga diretamente com temas amazônicos, com pautas que se conectam de forma direta com os debates centrais sobre território, cultura e soberania.
O diretor ressalta sua relação histórica com o Pará, onde viveu por cerca de dez anos e iniciou sua carreira acadêmica na Universidade Federal do Pará, desenvolvendo projetos culturais na música e a publicação do livro sobre cinema em Belém.
“O audiovisual amazônico vive um momento de ampliação, impulsionado por políticas públicas, transformações tecnológicas e novos espaços de formação. Hoje, há um holofote voltado para produções realizadas fora do eixo tradicional e a Amazônia é uma região estratégica, com temas absolutamente centrais, tanto do ponto de vista cultural quanto geopolítico”, analisa.
Com a vitória no FICCA, “Solanas Explicado às Crianças” soma agora seis prêmios, incluindo cinco conquistados no Festival de Cinema de Santo André, entre eles melhor filme, direção, ator atriz. O longa também foi selecionado para eventos internacionais, como o Festival Internacional de Cinema de Puno, no Peru.
O reconhecimento internacional legitima e impulsiona o próximo passo, que será a comercialização do filme, na busca de janelas de exibição e circulação. Além do filme, André Queiroz também aproveita o momento de visibilidade para divulgar o livro de ensaios “Cinema e luta de classes na América Latina (Editora Insular, 2024), ampliando sua atuação como pesquisador comprometido com o cinema latino-americano e suas dimensões sociais.
Vencedores
A 10ª edição do FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté, reuniu obras brasileiras e internacionais que dialogam com questões urgentes da contemporaneidade amazônica e global, reafirmando o compromisso do FICCA com estéticas insurgentes, narrativas críticas e experiências cinematográficas de invenção.
LONGA-METRAGEM — FICÇÃO
Solanas Explicado às Crianças
Direção: André Queiróz
Origem: Niterói (RJ)
LONGA-METRAGEM — DOCUMENTAL
Corpos Invisíveis
Direção: Quézia Lopes
Origem: Niterói (RJ)
MÉDIA-METRAGEM — FICÇÃO
A Ilusão da Abundância
Direção: Matthieu Lietaert & Erika Gonzalez
Origem: Colômbia / Bélgica
MÉDIA-METRAGEM — DOCUMENTAL
Ritmos de Juaba
Direção: André Santos & Arthur Árias
Origem: Cametá (PA)
CURTA-METRAGEM — FICÇÃO
Silenciados
Direção: Daniel Malvido
Origem: Guadalajara, Jalisco — México
Mandicueira – A Tradição do Silêncio
Direção: Ed Vulkão
Origem: Bragança (PA)
CURTA-METRAGEM — DOCUMENTAL
Benzô
Direção: Letícia Andra
Origem: São Sebastião (SP)
ANIMAÇÃO
A Travessia
Direção: Sérgio Martinelli
Origem: São Paulo (SP)
EXPERIMENTAL
Dar à Luz Sem Luz: Parteiras e a Insegurança Energética em Breves
Direção: Valma Lucilena P. Teles
Origem: Marajó (PA)


