Mestre Damasceno: guardião do carimbó e do Búfalo-Bumbá do Marajó se encanta e deixa legado

Damasceno Gregório dos Santos, filho da Comunidade Quilombola do Salvá, no Marajó,  partiu nesta terça-feira (26), aos 71 anos, deixando um legado tecido por mais de cinco décadas de cantorias, versos e invenções.

O mestre vinha enfrentando uma longa batalha pela vida. Desde junho, estava internado em Belém, inicialmente no Hospital Jean Bittar e depois transferido para o Ophir Loyola, onde permaneceu na UTI tratando pneumonia e insuficiência renal.

O diagnóstico de câncer em metástase , atingindo pulmão, fígado e rins, havia sido confirmado neste mesmo período, tornando sua despedida uma luta dolorosa, acompanhada de perto por familiares, amigos e admiradores.

Cego desde os 19 anos, após um acidente de trabalho, Damasceno reinventou a vida pela arte. Tornou-se voz de resistência e símbolo da cultura marajoara, criador do Búfalo-Bumbá de Salvaterra, mestre do carimbó pau e corda, poeta popular e compositor de mais de 400 canções, algumas eternizadas em seis discos gravados e até no carnaval carioca, quando a Grande Rio cantou, em 2025, seu samba-enredo “A mina é cocoriô!”.

Neste ano, o mestre foi homenageado em vida: recebeu a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria do Ministério da Cultura, e teve sua história contada no livro Mestre Damasceno e as Cantorias do Marajó, lançado durante a 28ª Feira Pan-Amazônica do Livro.

“Trago comigo tudo o que aprendi com meus pais e avós, ancestrais quilombolas. São mais de 50 anos dedicados às tradições culturais marajoaras”, disse na ocasião.

Damasceno também foi reconhecido pelo IPHAN como mestre de carimbó, recebeu o Prêmio SEIVA da Fundação Cultural do Pará e acumulou distinções nacionais ao longo da trajetória. Mas sua maior consagração sempre esteve nas ruas, no batuque dos Nativos Marajoara, no cortejo Carimbúfalo ou no Festival de Boi-Bumbá de Salvaterra, que ele idealizou em 2023 para fortalecer os grupos quilombolas.

A data da despedida é simbólica. Mestre Damasceno parte no mesmo dia em que nasceu Verequete, outro pilar dessa linhagem. E assim, vida e morte se entrelaçam na cultura Popular. Ficam a obra, a memória e o canto que seguirão atravessando gerações no Marajó, em Belém, e em todo o Pará.

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