Nesta manhã tropical de terça-feira, 12 de agosto, o auditório do Polo Mercedários, da Universidade Federal do Pará, respirou literatura. Estudantes, professores e leitores receberam a escritora e jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro.
Ela chegou a Belém após passar por São Paulo, Rio e Salvador, em turnê de lançamento de seu primeiro romance, O Quarto do Bebê (Bazar do Tempo, 2025).
O encontro foi conduzido pelo reitor Gilmar Pereira, que destacou a relevância da visita: “É a primeira universidade que ela visita no Brasil com este livro. Para nós, é uma honra enorme recebê-la”.
Gilmar costurou a apresentação com elogios à trajetória da convidada e à ponte cultural que a UFPA busca fortalecer com Portugal, especialmente no campo literário. Anabela agradeceu a recepção calorosa.

“Estou muito honrada e muito emocionada por estar aqui convosco”, disse Anabela. Sua fala, por vezes pausada e reflexiva, mesclou memória pessoal, referências literárias e políticas.
A escritora lembrou o percurso de vida que a levou da infância no interior de Portugal até a escrita deste primeiro romance, um trajeto que ela associa à força transformadora da educação. “Sem educação, provavelmente nós não somos nada, ou somos muito pouco”, afirmou.
A autora revelou que O Quarto do Bebê nasceu durante a pandemia, atravessado por um diálogo íntimo com Machado de Assis. Fascinada por Dom Casmurro e Brás Cuba, ela quis reproduzir, à sua maneira, o jogo machadiano entre título, narrativa e digressão.
“Machado apresentou-se como uma presença ‘fantasmática’. Eu estava em casa, doente, com câncer de mama, e a escrita se tornou uma forma de sobreviver e compreender o corpo”, disse.
O romance, que aborda maternidade, feminismo, transmissão de legado e a relação com o corpo, também carrega um viés político: “Não podemos continuar a silenciar as experiências corporais das mulheres, como menstruação, menopausa, aborto, doença. É preciso falar disso com clareza”.

A mediação de Gilmar não se limitou à abertura. Ao final, ele destacou o caráter ousado da obra e a importância de trazer questões de gênero e humanidade para o debate acadêmico: “Leituras como a sua são fundamentais, porque tratam dessas perspectivas com coragem”.
Entre perguntas do público, houve partilhas emocionadas de professoras e alunas, que reconheceram no texto de Anabela um espelho e um gesto de libertação. A escritora acolheu cada fala com atenção e devolveu com encorajamento. “Continue a trabalhar. Vai ser preciso força, mas não desista. E não perca a luz nem a vontade de aprender”.
A sessão terminou com fila para autógrafos e conversas demoradas. Nos corredores, era possível ouvir comentários sobre a densidade e a delicadeza de uma autora que, mesmo no primeiro romance, já conquistou leitores pela capacidade de entrelaçar literatura, filosofia e vida e por fazer de Machado de Assis não apenas uma referência, mas um interlocutor íntimo.

- Anabela com reitor e demais membros da UFPA. Foto: Holofote VIrtual
Sobre a autora
Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971, no interior norte de Portugal. Neta de mulheres e filha de pais com estudos médios, construiu um percurso marcado pela força transformadora da educação. Licenciada em Filosofia e doutoranda com pesquisa dedicada a Machado de Assis, é escritora, jornalista, apresentadora de televisão e programadora cultural.
Há mais de duas décadas, atua como jornalista, transitando com sensibilidade entre diferentes áreas do conhecimento. Desde 2019 apresenta, na televisão pública portuguesa (RTP), um programa de entrevistas com pessoas que nasceram após a Revolução dos Cravos, explorando as mudanças sociais no país.
Publicou livros de entrevistas, um ensaio sobre Machado de Assis e obras sobre nomes como Paula Rego, Maria Velho da Costa e José Saramago. Foi membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, valorizando sempre a interdisciplinaridade e o diálogo entre autores consagrados e vozes emergentes.



