Foto: Vanessa Ataíde

Agora é oficial: obra de Sebastião Tapajós é reconhecida como manifestação da cultura nacional

O violão amazônico de Sebastião Tapajós agora é, oficialmente, patrimônio do Brasil. A obra do músico paraense foi reconhecida como manifestação da cultura nacional com a sanção da Lei nº 15.319/2025, publicada no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (29). A medida consolida, em âmbito federal, um legado que há muito tempo já atravessava gerações, territórios e fronteiras.

Natural de Alenquer (PA), Sebastião Tapajós (1942–2021) construiu uma carreira singular, transitando entre a música erudita e a popular, com forte projeção internacional, sobretudo na Europa. Seu violão levou ao mundo sonoridades amazônicas como o carimbó, o lundu e o baião, traduzidas em uma linguagem própria, reconhecida pela delicadeza técnica e pela força poética.

Relator do projeto no Senado, o senador Humberto Costa (PT-PE) destacou que Tapajós foi mais do que um virtuose: atuou como educador e formador, participando de projetos sociais voltados à juventude amazônica e ajudando a construir uma pedagogia musical conectada ao território.

Para a produtora cultural Carmen Ribas, especialista em Gestão com Responsabilidade Social, o reconhecimento oficial apenas confirma o alcance da obra.

“Ele traduziu nossa geografia, nossas águas e nossa sonoridade, fazendo do violão uma extensão da própria floresta. Criou uma linguagem amazônica universal, capaz de emocionar do ribeirinho ao público europeu. Ele colocou o estado do Pará no mapa da música instrumental mundial com delicadeza, virtuosismo e verdade.”

Sebastião Tapajós por Vanessa Ataíde

 

Reconhecimento que atravessa o tempo

A trajetória de Tapajós já havia sido reconhecida no Pará: em 2022, sua obra foi declarada Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado. Agora, com o reconhecimento nacional, a discussão se amplia para outro campo fundamental: a preservação do acervo do músico.

“Mais do que arquivar, é preciso manter viva a dessa obra”, afirma Carmen Ribas, que produziu vários shows e projetos com o artista. “Garantir acesso às partituras, registros, manuscritos, gravações e memórias é assegurar que futuras gerações compreendam como ele pensava, sentia e criava.”

O risco da perda de acervos musicais no Brasil é lembrado pelo cantor e compositor Nilson Chaves, parceiro de Tapajós: “Um acervo sempre corre riscos. Já perdemos a memória de grandes músicos brasileiros. Que Sebastião Tapajós entre para a lista da imortalidade, pela grandeza da obra e pela qualidade extraordinária de sua música.”

Para Tânia Marcião, pesquisadora, guardiã do legado e viúva do músico, o reconhecimento tem dimensão afetiva e histórica: “É como se a voz e o coração dele continuassem atravessando gerações. Mais do que homenagem, esse reconhecimento é também um gesto de justiça, memória e de carinho.”

Ela cita composições como “Anacã”, frequentemente apontada por críticos como uma obra de alcance universal. O próprio Sebastião dizia ter colocado nela a própria alma, que é uma música que fala de Amazônia, ancestralidade e humanidade.

A obra de Sebastião Tapajós segue circulando. Violonistas e músicos de diferentes gerações vêm reinterpretando suas composições, mantendo-as vivas fora do museu e dentro do palco, da sala de aula e da pesquisa.

O jovem contrabaixista Wesley Jardim lembra a convivência desde a infância: “Sebastião não separava o erudito do popular. Ia do carimbó à música clássica, da guitarrada ao Chopin. Isso abriu minha cabeça para o mundo.”

Entre as composições que, segundo ele, podem ser tocadas em qualquer lugar do mundo estão “Luá Joá”, “Brinquedo pro Bruno” e “Igapó”. “O músico que eu sou hoje devo muito a ele. Um grande professor, um compositor do mundo.”, diz Wesley que teve oportunidade de acompanhar também a relação musical de seu pai Márcio Jardim com o violonista.

Foto: Divulgação

Novos caminhos para 2026

Dar continuidade ao legado de Sebastião Tapajós sempre significou, para quem conviveu com ele, garantir que sua música não fosse apenas preservada, mas posta em circulação. É com esse princípio que uma série de projetos previstos para 2026 busca ativar a obra do violonista, ampliando seu alcance junto a novas gerações de músicos, pesquisadores e ouvintes.

Entre as iniciativas está o álbum de afetos “Sebastião de todo Tapajós”, concebido como um trabalho de memória e celebração. O projeto reúne documentos pessoais, fotografias, partituras, cartas, recortes de jornais, depoimentos e histórias compartilhadas por parceiros e amigos ao longo de décadas de trajetória artística.

A produção é assinada pela CRibas Soluções, com curadoria da fotógrafa e produtora cultural Maria Christina, e acompanhamento direto da pesquisadora Tânia Marcião, viúva do músico, que disponibilizou o acervo pessoal de Sebastião Tapajós para a realização do trabalho.

Paralelamente, está em produção o álbum “Por entre as árvores”, que reunirá canções inéditas compostas por Sebastião Tapajós nos últimos anos de vida. A coordenação musical é do pianista, arranjador e compositor Andreson Dourado, parceiro artístico do violonista por cerca de oito anos.

As composições nasceram de um processo contínuo de criação e foram registradas de forma informal, em gravações caseiras feitas em gravador portátil ou telefone celular. Parte desse repertório chegou a ser apresentada em shows, mas nunca foi registrada em estúdio, preservando uma fase final da obra ainda pouco conhecida do público.

O projeto prevê a gravação de dez músicas inéditas,  algumas já executadas ao vivo, outras ainda inéditas, consolidando um registro definitivo desse período criativo. Com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026, o álbum está em fase de captação de patrocínio para viabilizar custos de estúdio, participações especiais e a produção do registro físico.

“O título Por entre as árvores se refere ao lugar onde ensaiávamos e onde ele compunha, na casa à beira do rio Tapajós, cercada por um bosque”, explica Andreson Dourado. “Era ali que as ideias surgiam, num ambiente muito ligado à natureza e ao ritmo do lugar.”

Foto: Divulgação

Instituto e museu para acesso ao legado

As iniciativas dialogam diretamente com os objetivos do Instituto Sebastião Tapajós (IST), que atua na preservação, organização e difusão do acervo do músico. Mais do que proteger documentos, os projetos apostam na ativação da memória como prática viva, capaz de inspirar novos talentos e manter em movimento uma obra que, como o próprio Sebastião Tapajós defendia, só cumpre seu papel quando circula, ensina e cria pontes entre gerações.

Entre as ações recentes, destaca-se a realização do 1º Festival de Violão Amazônico Sebastião Tapajós, em 2023, que reuniu músicos de diferentes regiões do país e marcou a estreia da Orquestra de Violões Sebastião Tapajós. A proposta é consolidar o festival como evento anual, com projeção internacional, aproveitando a forte presença da obra do músico na Europa e a infraestrutura turística de Santarém.

O Instituto também avança na área editorial com a criação da Editora IST e o lançamento do livro “Sebastião Tapajós: Sheet Music Catalog – Original Compositions”, que reúne 105 partituras organizadas por Ricardo Queiroz. A publicação amplia o acesso técnico e pedagógico à obra do compositor, reforçando seu papel como referência para estudantes e pesquisadores.

O próximo passo é transformar a antiga residência de Sebastião Tapajós, no bairro do Pajuçara, em um Museu Sebastião Tapajós. O projeto prevê salas de aula, áreas expositivas, café, loja e espaços para concertos, integrando o local ao circuito cultural e turístico da cidade e garantindo a preservação permanente do legado do artista. “Sebastião Tapajós deixou um legado que não cabe apenas na história do violão. Cabe na história cultural da Amazônia e do país.”, conclui Ricardo.

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