A Guitarrada, gênero musical criado por Mestre Vieira no interior do Pará, acaba de dar mais um passo decisivo para ser reconhecida oficialmente como manifestação da cultura nacional. O projeto de lei, de autoria do deputado federal Airton Faleiro (PT-PA), foi aprovado em votação final no Senado nesta terça-feira (15) e agora segue para sanção do presidente Lula.
A notícia foi recebida com entusiasmo por artistas, produtores e admiradores da cultura amazônica, especialmente em Belém, onde a Guitarrada é celebrada como símbolo da criatividade e da mistura de ritmos regionais, traduzindo, por meio da guitarra elétrica, a alma festiva e híbrida brasileira.
E é impossível celebrar esse reconhecimento sem falar dele: Mestre Vieira, o criador do gênero. Natural de Barcarena (PA), Vieira lançou seus primeiros LPs com o grupo Vieira e Seu Conjunto, que nos anos 1980 estouraram no Norte e no Nordeste, ditando tendências e influenciando inclusive a explosão da lambada. Com seu jeito único de tocar, criou uma sonoridade própria, dançante e carregada de identidade, um sotaque nosso!

E para entender porque a Guitarrada agora chega neste nível, é importante também saber que isso não ocorre do nada! Nos anos 2000, o guitarrista paraense Pio Lobato reposiciona o mestre como o criador da Guitarrada, levando a obra de Vieira a um novo público e a um novo momento.
Em vida, o artista foi homenageado com a Medalha da Ordem ao Mérito Cultural, após a projeção nacional com o projeto Mestres da Guitarrada que, impulsionado pela Funtelpa, então sob a direção de Ney Messias, também traz à cena dois outros mestres Curica e Aldo Sena. Festivais como o Terruá Pará e produções audiovisuais e documentais surgem, fortalecendo o reconhecimento do gênero como parte essencial da cultura brasileira.
Em 2008, Vieira assume de vez o protagonismo do gênero e lança o disco solo Guitarrada Magnética. É quando nos aproximamos com objetivo de fortalecer novamente sua carreira solo, após Mestres da Guitarrada.
Três anos depois, em 2011, o deputado estadual Carlos Bordalo, também do PT, apresenta e aprova o projeto de lei que reconhece a Guitarrada como Patrimônio Cultural Imaterial do Pará – iniciativa fundamentada em sua trajetória pioneira.

Após sua partida em 2018, aos 83 anos, o legado do Mestre não parou de crescer. Em Barcarena a data de seu aniversário é reconehcida como Dia Municipal da guitarrada. Embora o poder publico local passe a margem dessa valorização, apopulação local reconehce em Vieira o grande artista da cidade.
Naquele ano Vieira foi homenageado, in memoriam, pela Funarte e pela Universidade Federal Fluminense, no Festival Territórios da Arte – com uma placa de reconhecimento póstumo, por suas contribuições à cultura brasileira. Foi o segundo reconhecimento nacional.
Minha jornada com Mestre Vieira começou em 2011, dando inicio a uma longa jornada de projetos que ampliam o alcance de sua obra. Produzimos o DVD 50 Anos de Guitarrada, gravado no Theatro da Paz, lançado em 2013, depois o álbum Guitarreiro do Mundo, lançado em 2015, com shows em Recife (Porto MUsical), Rio de Janeiro (Caixa Cultural) e Brasilia (Festival Ágora da Música Brasileira).
Em 2016, demos inicio à produção da série de animação Os Dinâmicos (2018) e do Inventário Mestre Vieira, songbook Mestre Vieira (2022), entre outras ações que buscam salvaguardar e difundir sua criação musical.

Sigo mergulhada na guitarrada, agora trabalhando com os músicos pioneiros que tocaram com ele no Vieira e Seu Conjunto, Lauro Honório, Luis Poça e Dejacir Magno. Estamos na estrada com o projeto Baile da Guitarrada – Lab Música, premiado pelo edital Rouanet Norte.
Celebrando o gênero em sua essência popular e dançante, o projeto Baile da Guitarrada – Lab Música é um combo que leva consigo os projetos que já desenvolvi com o legado de Vieira, em workshops e ações para crianças.
Em 2025, seu nome e sua história também estarão nas telas com o documentário longa-metragem Coisa Maravilha – A Invenção da Guitarrada, que será exibido gratuitamente em quatro cidades paraenses por meio do projeto Circuito Maravilha – Guitarrada, Pesquisa e Memória, aprovado pela PNAB.

E além disso, é uma felicidade ver que a guitarrada vive momentos de renovação criativa com rodas abertas no Clube da Guitarrada, festas de Guitarrada e Lambada, como a Quintarrada e Lambateria, que reinseriram o ritmo em vida noturna e produção cultural, com artistas como Félix Robatto, e atualmente o Lambada Social Clube, com Eduardo Barbosa e seu grupo, além de pesquisas constantes de Bruno Rabelo, André Macleuri, Givaldo Pastana e tantos outros.
Esse reconhecimento pelo Congresso Nacional agora, só reforça a importância de políticas públicas que protejam e valorizem as manifestações culturais genuinamente brasileiras, especialmente aquelas que nascem longe dos grandes centros e resistem por força da oralidade, da memória coletiva e da paixão de seus criadores.
Viva Mestre Vieira! Viva a Guitarrada! Patrimônio do Pará, agora prestes a se tornar Patrimônio do Brasil.

