Foto de reprodução/Internet -Montagem

Mestre Curica chega a ilha de Santiago para o festival Master Cordas em Cabo Verde

Nesta semana, o paraense Raimundo Leão Ferreira Filho, o nosso Mestre Curica, desembarcou em Cabo Verde, para participar da terceira edição do festival Master Cordas, evento que ocorre nesta sexta, 27, e  sábado, 28 de junho, no Auditório Nacional Jorge Barbosa, na Cidade de Praia, integrando a programação oficial dos 50 anos de independência do país africano e celebrando a guitarra como fio condutor de identidades.

A participação de Mestre Curica em Cabo Verde é histórica, consagrando um ciclo de diálogo iniciado em 2018 entre músicos, artistas e produtores paraenses e cabo-verdianos que acreditam na arte como linguagem capaz de sustentar pontes duradouras.

Aos 75 anos, o artista leva à cena internacional um repertório autoral do nosso carimbó e guitarrada, com músicas como Beleza da Noite e Caribenha, acompanhado por cerca de 15 músicos. A presença paraense entre nomes consagrados da cena das cordas cabo-verdianas, como Manuel di Candinho, Bau, Voginha, Palinho Vieira e Kaku Alves, reafirma a força da guitarrada como linguagem que ultrapassa fronteiras.

O convite recebido por Curica é também fruto de um processo de intercâmbio cultural que iniciou em 2018, com o projeto de Extensão “Intercâmbio Turístico-Cultural entre Belém – Pará – Brasil e Cabo Verde”, da UFPA, se consolidando na música em 2019, por meio do projeto de lançamento do álbum “Sem chumbo nos pés”, idealizado pelo músico e produtor paraibano à época residindo em Belém, Naldinho Freire.

Mestre Curica e Manuel di Candinho, com o Clube da Guitarrada (Fotos: Holofote Virtual/Luciana Medeiros)

Na ocasião, por meio da programação do lançamento do álbum assistimos um espetáculo homônimo, com a presença de artistas de Cabo Verde, entre eles o próprio Manuel di Candinho e Mário Lúcio, músico, escritor e ex-ministro da Cultura cabo-verdiano. Naquele momento, nasceu uma ponte mais do que artística, eu diria afetiva, entre Belém e Cabo Verde.

Antes do palco do Master Cordas, portanto, essa troca já se materializava em Belém, no palco do Teatro Margarida Schivasappa, e principalmente no Encontro da Guitarrada com o Funaná realizado no espaço Ná Figueredo, em que Curica, Manuel di Candinho e Mário Lúcio, entre outros guitarristas do Clube da Guitarrada se conectaram pela primeira vez.

Em uma conversa que tive em Belém com Manuel di Candinho, um dos curadores do festival, ele expressou sua crença na cultura e, mais especificamente na música, como política pública voltada à qualidade de vida, incentivo a um turismo cultural e econômico.

E também sobre esta proximidade fortalecedora entre as culturas e a música de Cabo Verde e do Pará. Parte desta conversa está num dos capítulos do livro “Turismo, Gastronomia e Música – Elos entre Belém do Pará e Cabo Verde”, editado e publicado pela editora do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA.

Naldinho Freira abrindo a programação. (Foto: Holofote Virtual/Luciana Medeiros)

Agora, por meio desta (re)conexão ou desfecho da jornada que se iniciou em 2019,  em Belém, fica ainda mais evidente a importância da construção de uma irmandade sonora entre os dois territórios. Embora estejamos separados por um oceano, compartilhamos muitas coisas em comum, temos raízes mestiças, somos resistência cultural e temos uma profunda relação com a oralidade e a memória.

O Master Cordas nasceu com a proposta de valorizar os instrumentos de cordas, como violão e guitarra, sendo uma identidade cabo-verdiana. O festival também é uma estratégia de política cultural do país, que há décadas reconhece o potencial transformador da arte na construção de sua imagem internacional e no fortalecimento do turismo cultural.

Ao incluir Curica em sua programação, Cabo Verde acolhe toda uma tradição amazônica que tem na guitarrada uma expressão singular e popular. Nascido em Marituba (PA), Curica iniciou sua trajetória como percussionista ainda na juventude. Na década de 70 integrou o grupo Uirapuru de carimbó liderado por Mestre Verequete e décadas depois ingressou no projeto Mestres da Guitarrada, fazendo história ao lado do criador do gênero, Mestre Vieira, e de Aldo Sena.

Todos reunidos. Foto final do encontro de 2019, no na Figueredo. (Foto: Holofote Virtual/Luciana Medeiros)

Foi um dos criadores da chamada “guitarrada cabocla”, mistura de carimbó, merengue e outros ritmos caribenhos. Com mais de seis décadas de atuação, é hoje um dos maiores nomes vivos da música instrumental do Pará, reconhecido como instrumentista e como mestre formador. São inúmeros seus discípulos.

“Eu vou mostrar meu trabalho, como eu toco sempre aqui, com muita dedicação”, disse Curica à imprensa paraense, antes de partir. “Pretendo agradar muito.” Sua fala simples revela a grandeza do gesto: levar à África, neste momento simbólico dos 50 anos da independência cabo-verdiana, a sonoridade ribeirinha do Pará. E é com os tambores do carimbó e os acordes solados da guitarrada, que Mestre Curica se conecta às cordas da morna e da coladeira, revelando novas possibilidades de criação.

Parabéns a todos os envolvidos. O festival Master Cordas valoriza a memória cultural de Cabo Verde, um traço que aproxima a experiência cabo-verdiana da paraense, onde música não é só o entretenimento, mas é também prática de pertencimento que desenvolve uma sociedade.

FÓRUM CIRCULAR

compartilhe

Categorias

mais lidas

newsletter

Cadastre-se para receber novidades sobre comunicação, arte e mídia em Belém/PA.

Ao se cadastrar, você concorda com nossa política de privacidade.

Acessar o conteúdo