Não é querer ser saudosista mas folhear uma publicação é outra coisa. E essa sencação foi experimentada por quem esteve no lançamento da Revista Circular impressa, em um dos eventos que marcaram o final de 2025, no Mercedários UFPA, no centro histórico de Belém, no dia 18 de dezembro.
Criada em 2016, a Revista Circular vai completar 10 anos em junho deste novo ano. Desde o início, a publicação se propôs a algo que fosse além, mas não se desconectasse, das edições festivas de domingo, realizadas em domingos bimestrais, a partir de abril de cada ano.
Atenta às pessoas, às casas, aos afetos, às disputas e às reinvenções que atravessam os bairros da Campina e da Cidade Velha, a 10ª edição, após 9 digitais, chega agora em versão impressa, marcando um ponto de inflexão nessa trajetória, a materialização de um desejo gestado ao longo de quase uma década.
O evento, realizado poucos dias antes de a cidade completar 410 anos, neste próximo 12 de janeiro de 2026, reuniu moradores, artistas e gestores que há doze anos fortalecem essa rede do projeto Circular Campina Cidade Velha, uma das mais persistentes articulações culturais da sociedade civil na Amazônia urbana.

Documentários abrem a programação
A noite começou com a exibição de três curtas-documentários produzidos pelo Circular, cujo braço audiovisual é também uma estratégia que se une aos domingos de edição, à revista e ao fórum, e ainda o Circuitinho e o CIrcular Apresenta, formando um ecosistema de funcionabilidade no projeto.
“Experiência Circular” abriu a sessão. O filme reúne depoimentos da galerista Luana Chaves, da livreira Cristina Pessoa, do chef Rubão, de Alberto, do restaurante Dona Joana, e do historiador Michel Pinho, além da participação da Marujada de Bragança. A direção é de Mário Costa.
Já “Ser Circular”, de Felipe Cortez, apostou na memória coletiva de moradores e produtores independentes, destacando ações educativas, práticas artísticas e o bordado como ferramentas para discutir patrimônio, sustentabilidade e cidadania. O documentário traz depoimentos da fotógrafa Tâmara Saré, do Coletivo Aparelho, de feirantes e moradores do centro.

Encerrando a mostra, “Histórias da Campina”, de Larissa Ribeiro, acompanhou o amanhecer nos bairros da Cidade Velha e Campina, revelando modos de vida e resistências cotidianas, com personagens como a fotógrafa Paula Sampaio, o Centro Cultural Bienal das Amazônias, a fábrica da Orion Perfumaria e o Bazar Brechó Tapioka.
Após as exibições, a coordenadora do Projeto Circular Campina Cidade Velha, Adelaide Oliveira, destacou a importância do patrocínio das lojas Renner para a concretização da edição impressa e celebrou o simbolismo do retorno ao papel.
“É emocionante lançar essa revista aqui nos Mercedários, um lugar tão importante para a cidade e para o Circular. Ver as pessoas folheando, tocando a revista, levando para casa, mostra a força dessa materialidade”, afirmou.
Adelaide ressaltou ainda que o impresso amplia a circulação do projeto no território, fortalecendo uma rede de economia criativa e afetiva no centro histórico. “A revista física é um convite ao encontro. Ela fica nos espaços, passa de mão em mão, apresenta o Circular a novos públicos.”
O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, parabenizou a iniciativa, destacando a revista como síntese dos processos culturais desenvolvidos no centro histórico e como instrumento de valorização da memória urbana.

Do digital ao papel: uma trajetória editorial
Makiko Akao, uma das idealizadoras da revista e do projeto Circular, agradeceu à equipe envolvida na construção do projeto editorial, enquanto Luci Azevedo, coordenadora do Circuitinho Campina Cidade Velha, destacou o método educativo voltado às crianças, que propõe novas formas de olhar o centro por meio de intervenções lúdicas, música e visitas aos casarões históricos.
Também idealizadora e editora da publicação, Luciana Medeiros, celebrou o lançamento como resistência cultural.
“Lançar essa revista é celebrar um modo de estar na cidade, de contar histórias e de pensar futuros possíveis. O impresso, em tempos de excesso, velocidade e esquecimento, convida à pausa e à permanência.”
Luciana apresentou o percurso das 9 edições digitais anteriores, iniciadas em 2016, com temas que atravessam patrimônio, memória, território, pandemia, políticas públicas e o conceito de Ser Circular, culminando agora na primeira edição impressa.
Foi assim que a revista construiu um corpo consistente de narrativas que ajudam a compreender o centro histórico como território vivo, habitado por memórias individuais e coletivas, por práticas culturais que resistem ao apagamento, por iniciativas que operam na fronteira entre patrimônio, criação, economia criativa e direito à cidade.

Em vez de olhar para esses bairros como cenário, a Revista Circular escolheu tratá-los como protagonistas. A edição impressa, com tiragem de 1.000 exemplares, distribuição gratuita e formato bilíngue, passou a ser tratada ali como parte do próprio acervo do Circular. Nas falas, o papel aparece menos como nostalgia e mais como tecnologia de encontro.
“Ver as pessoas tocando a revista, levando para casa, mostra a força dessa materialidade”, disse a coordenadora do Circular, a jornalista Adelaide Oliveira, lembrando que o sonho editorial começou com Makiko Akao e Luciana Medeiros.
Para o músico Renato Torres, o impresso reconecta o projeto à materialidade e ao tempo do encontro.
“A revista traz essa coisa tátil, do arquivo que não depende da internet. É muito própria do Circular: andar pela cidade, olhar no olho, viver o tempo real. A música dessa noite também traduz isso — uma música amazônica com os pés no futuro, que dialoga com o mundo.”

A jornalista Erika Morhy, colaboradora da edição impressa, destacou o valor simbólico e emocional do retorno ao papel. “O impresso oferece uma experiência que não pode ser substituída. Ele circula de forma orgânica, coletiva, cria memória. Para quem produz e para quem lê, é algo muito especial.”
O arquiteto e urbanista Lucas Nassar definiu o Circular como um dos projetos culturais de base mais relevantes produzidos por Belém nas últimas décadas.
“A revista coroa esse processo e registra uma riqueza que é patrimônio coletivo. A edição impressa marca um novo estágio de maturidade do projeto e da articulação entre sociedade civil, moradores, comerciantes e poder público.”
E a presença de Mãe Márcia, coordenadora do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém, reforçou o compromisso da revista com a diversidade de vozes e territórios.
“Estar nessa revista é muito significativo para nós, mulheres afro-indígenas, ribeirinhas e de movimento. Esse espaço é valorização, é visibilidade, é reconhecimento de um trabalho que muitas vezes não chega às políticas públicas.”

Música e clima amazônico no jardim
Em seguida, teve coquetel com Música no Jardim e a noite foi contemplada com a apresentação musical Sotaques da Amazônia.
O show reuniu Ricardo Smith (violão), Rafael Guerreiro (violão e guitarra), Carlos Canhão Brito (bateria), Sonyra Bandeira (flauta) e Tâmara Almeida (percussão), em uma celebração sonora que dialogou com a proposta da revista: afirmar Belém como território múltiplo, vivo e em constante circulação.
Com o lançamento da edição impressa, a Revista Circular reafirma o papel das publicações culturais na preservação da memória, na construção de narrativas locais e na valorização da experiência sensível da leitura, consolidando-se como um documento essencial da cultura amazônica contemporânea.
Entre telas de TV desligadas e celulares erguidos para registrar o jardim, a revista saiu dos Mercedários como um mapa sensível das caminhadas já feitas e das que Belém ainda ensaiava entrar em 2026.
Para saberes mais sobre o projeto, acessa: www.projetocircular.org


