Em uma carreira marcada por coragem, humor afiado e pioneirismo, Nany People construiu seu espaço no cenário artístico brasileiro abrindo portas onde antes quase não havia passagem.
Mulher trans, mineira de Machado, atriz, humorista e cantora, ela se tornou referência não apenas pela irreverência no palco, mas pela maneira como transformou sua vida em exemplo de resistência e reinvenção. Prestes a completar seis décadas de vida, Nany comemora também 50 anos de carreira, 40 da chegada a São Paulo e 30 de TV.
Para celebrar esse marco, apresenta em Belém o espetáculo “Ser Mulher Não é Para Qualquer Um”, em sessão única no dia 26 de setembro, às 20h, no Theatro da Paz. Inspirada em sua nova biografia, a montagem reúne causos, lembranças, passagens hilárias e reflexões sobre envelhecer, amar e continuar criando.
O texto é de Flávio Queiroz, com direção de Marcos Guimarães, e passeia por capítulos íntimos da vida da artista que, entre novelas, programas de TV e palcos lotados, nunca perdeu a essência: a entrega ao teatro e a determinação de viver fiel ao propósito de ser atriz.
“É um grande tributo à minha trajetória. ‘Ser mulher não é pra qualquer um’ é um mergulho divertido, emocionante e verdadeiro nas histórias que me transformaram na mulher que sou hoje”, resume Nany.

- Foto: Moizés Pazianotto
Entrevista
Você está celebrando marcos impressionantes. Ao olhar para trás, qual foi o momento mais desafiador e qual você guarda como o mais luminoso dessa trajetória?
Nany People: O momento mais desafiador foi me manter no propósito. Isso é sempre o mais difícil em qualquer área da vida. Eu me mantive fiel ao meu destino e ao meu ideal de ser atriz, mesmo diante de tantas possibilidades de desvio. O teatro foi meu trampolim para a TV, para o rádio, para o cinema, para tudo. O mais luminoso foi justamente perceber que essa fidelidade valeu a pena.
O espetáculo nasce da sua nova biografia. Como foi o processo de transformar lembranças pessoais e capítulos tão íntimos em cena, diante de um público diverso?
Nany People: É simples, porque o show tem um formato stand-up. Eu conto coisas que aconteceram comigo e que, de certa forma, acontecem com todo mundo. Essa fase dos 50, 60 anos é muito significativa: perdemos amigos, encerramos ciclos, lidamos com despedidas. Quando eu compartilho essas histórias, o público se identifica, porque são experiências comuns. A catarse acontece naturalmente.
Você é referência no humor brasileiro e também pioneira como mulher trans na TV. O humor continua sendo sua ferramenta de resistência?
Nany People: Minha forma de resistência sempre foi trabalhar. Não me deixo levar por provocações que tiram do eixo. O ato político está no trabalho e até no cotidiano. Ser uma mulher trans no Brasil já é um ato político. Até comprar um pão na padaria pode ser. O humor me permitiu resistir e transformar, mostrando que estou aqui e que tenho algo a dizer.
Em sua carreira você defende que idade não limita a criatividade. Como você enxerga o etarismo no meio artístico e quais estratégias encontrou para se reinventar e continuar conquistando novos públicos?
Nany People: Trabalhando, sem esperar que o mercado me absorvesse. Eu crio meu próprio mercado. Nesta última década, trabalhei como nunca antes, viajando com três, quatro solos paralelos. Hoje já são seis espetáculos. O segredo é não parar e não me prender a uma só questão: é seguir fazendo, produzindo, acontecendo.
Quais as maneiras de se reinventar, na carreira?
Nany People: Apostando em mim mesma. Me auto produzo, invisto nos meus próprios projetos. Como dizia Paulo Autran, o teatro é a arte do ator. E foi no palco que me casei – meu verdadeiro companheiro é o teatro. Por isso nunca parei: cada novo espetáculo é uma nova forma de me reinventar.
O que significa para você trazer esse show para o público paraense, num palco histórico e tão simbólico?
Nany People: É uma honra e uma gratidão enormes. Pisar no Theatro da Paz, esse templo da cultura, pela terceira vez, me deixa emocionada. Como dizia Fernanda Montenegro, uma civilização é lembrada pelos seus monumentos culturais. E Belém tem esse orgulho. Além disso, adoro o público paraense, que sempre me acolheu com carinho. O lugar se torna inesquecível pelas pessoas que nele vivem.
Serviço
Ser Mulher Não é Pra Qualquer Um – O Espetáculo. Única apresentação: dia 26 de setembro, sexta-feira, às 20h. No Theatro da Paz (Rua da Paz, s/n, Praça da República – Centro – Belém do Pará). Valores: a partir de R$50 (meia-entrada e promocional).


