Carregador na Serra-Pelada. Foto: Sebastião Salgado

Profissões retratadas há mais de 30 anos por Sebastião Salgado em “Trabalhadores” ainda existem?

A exposição “Trabalhadores” é um convite à reflexão sobre o valor do trabalho e sobre quem sustenta, muitas vezes longe dos olhos, as estruturas econômicas do mundo. Em cartaz na Galeria 1 do Centro Cultural Banco da Amazônia, a mostra estará aberta nesta sexta-feira, 30 durante a programação Uma Noite no Museu, das 10h às 22h, e no sábado e domingo, 1o e 2 de maio, recebe o público das 10h às 14h.

Em um conjunto de 150 fotografias em preto e branco, realizadas entre as décadas de 1980 e 1990, Sebastião Salgado registrou territórios diversos do trabalho, indo do campo às indústrias, das minas às plataformas de petróleo.

Em sua narrativa visual, estão representadas formas de trabalho marcadas por esforço extremo, repetição e, muitas vezes, invisibilidade. As imagens percorrem uma geografia ampla. No Brasil, o percurso de Sebastião Salgado atravessa diferentes territórios e momentos históricos, concentrando-se especialmente entre meados dos anos 1980 e início dos anos 1990.

As fotografias feitas há mais de 35 anos, permanecem extremamente pertinentes nos dias de hoje, quando enfrentamos novas mudanças no mundo do trabalho.  Lélia está à frente do estúdio Sebastião Salgado, em Paris, onde as demandas se acentuaram, principalmente após a morte de Salgado, em 2025, e é também a curadora da exposição.

“Trabalhadores fala do mundo do trabalho, de quando ele mudou de um trabalho manual para industrial”, disse ela, que foi parceira de trabalho fundamental ao longo da jornada de Sebastião Salgado como fotógrafo.

“Muitos desses tipos de trabalho continuam existindo. Com toda tecnologia, o mundo ainda tem uma condição muito desigual. A gente vê isso no Brasil, cotidianamente, onde situações de trabalho análogo à escravidão ainda aparecem o tempo todo”, destaca Álvaro Razuk, produtor da exposição.

A exposição Trabalhadores é apresentada pelo Centro Cultural Banco da Amazônia, com patrocínio do Banco da Amazônia. Tem patrocínio, tem Governo do Brasil. Realização da Maré Produções.  Para acompanhar as novidades, acesse: @expotrabalhadores.

Cortadores de cana , em SP. Foto: Sebastião Salgado

Registros no Brasil

Em 1987, em Pradópolis (SP), o fotógrafo registra o trabalho nos canaviais paulistas, onde cortadores atuam após as queimadas da cana, prática comum à época, evidenciando jornadas intensas no campo e sua conexão direta com a indústria, como a produção de álcool combustível na refinaria São Martinho.

Já em 1990, em Itabuna (BA), o cultivo do cacau revela outra dimensão do trabalho agrícola brasileiro, acompanhando etapas como a colheita e o processo de fermentação dos grãos em tulhas de madeira, fundamentais para a cadeia produtiva do chocolate.

É, no entanto, em 1986, na Serra Pelada, no Pará, que se concentra um dos núcleos mais emblemáticos da presença brasileira na exposição. Ali, Salgado documenta o auge do garimpo de ouro a céu aberto, marcado por condições extremas: milhares de trabalhadores organizados em uma impressionante cadeia humana, subindo e descendo encostas íngremes com cargas que podiam ultrapassar 60 quilos.

Montagem na Galeria 1 – Trabalhadores. Foto: Ana Dias

As imagens mostram desde vistas gerais da cratera, tomada por corpos em movimento, até retratos individuais, revelando tanto a dimensão coletiva quanto a exaustão física e a tensão cotidiana desse trabalho.

Em outros lugares surgem operários têxteis em Bangladesh, metalúrgicos, trabalhadores de estaleiros, montadoras e siderúrgicas, muitos deles submetidos a ambientes extremos ou substituídos progressivamente por processos automatizados .

Já em atividades de extração, o trabalho ganha contornos ainda mais duros, como os mineiros de carvão na Índia, os trabalhadores do enxofre na Indonésia, expostos a vapores tóxicos, os operários do petróleo em áreas de risco e carregadores de minério e garimpeiros em condições precárias.

Serviço

Exposição Trabalhadores – de Sebastião Salgado – Centro Cultural Banco da Amazônia – Av. Presidente Vargas, 800. Até dia 16 de agosto. De terça a sexta, das 10h às 16h e sábados, domingos e feriados, de 10h às 14h. Entrada: Gratuita.

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