Quando durante a pandemia recebi as primeiras mensagens do Ronaldo Silva pelo WhatsApp, elas chegavam como um chamado: “vamos compor?” As frases soltas, uma a uma, começaram a chegar, sem parar, como um transbordo. Rapidamente transcrevia as frases soltas, organizando na forma estrófica e as imprimia ainda sem título.
Na terceira fiz um pedido: “não queres me mandar as letras já prontas, num arquivo, pra não precisar ficar montando uma a uma?”. A resposta não poderia ser mais Ronaldo Silva: “como tu queres que eu mande as letras se estou escrevendo direto no celular?”. Parei um segundo e me perguntei, como isso é possível?
Entre as mais de uma dúzia de letras que recebi, sem exceção, todas chegavam com a métrica perfeita, bastava listar as frases e imprimir, nunca mexi em um verso sequer.
A palavra já chegava prenhe de música, meu papel era quase mediúnico, mas trabalhei com afinco. Passados alguns anos, as canções que nasceram dessa maneira chegam às plataformas como um álbum, nosso primeiro trabalho em duo, “Além do Cais: Henry Burnett interpreta Ronaldo Silva”.
Difícil expressar o que esse projeto significa para mim. Quando nos conhecemos, eu era um adolescente sonhador e ele era o Ronaldo Silva; hoje sou um adulto sonhador e ele é o Ronaldo Silva, um dos compositores mais impressionantes que conheço, para mim o mais importante compositor vivo do Pará e da Amazônia e um dos maiores do Brasil, com uma obra que já se projeta mundo afora, ainda que não de forma justa.
Este projeto é uma dessas realizações da vida que nunca prevemos, que não parecem possíveis quando pensamos nelas antes de tentar realizar e fazer acontecer.
Na minha memória real e inventada, vi nascer na calçada da nossa casa na Cidade Nova, em Ananindeua/Pará, algumas canções dele que gravei agora, como “Porto dos apaixonados”; mas tem um elemento fantasioso, ficcional e literário nessa rememoração. É verdade que vi nascer muitas, disso não tenho dúvida, mas talvez tenham acontecido diante de mim e desaparecido, como centenas de canções que ele compôs em minutos, sem registro, sem que tenham permanecido nem na memória dele.

Canções entre memória e parceria
A canção que abre o álbum, “Ponto de Santana”, é um exemplo. Em algum momento alguém mandou um vídeo caseiro para mim, daqueles “muito encaminhado”; nele, Ronaldo estava sentado com o tambor entre os joelhos e cantava este ponto, que deve ter sido composto minutos antes da gravação.
Imediatamente me apaixonei, peguei o violão, tirei os acordes e não parei mais de cantar. Quando mostrei a ele a gravação, veio a pergunta, “de quem é esta?”. Ele não lembrava da própria composição. Pensando bem, alguém que pode compor cinco, dez músicas por dia, não seria capaz de lembrar de todas.
Das 13 canções do álbum, 9 são parcerias inéditas e 4 são canções do Ronaldo que marcaram minha formação – tirando o ponto citado, regravei “Além do cais”, “Porto dos apaixonados” e “Maída”. Será outra fantasia lembrar de estar no estúdio quando esta última foi gravada no disco Via Norte (1987) e ter sido arrolado para o coro junto com Rui Baldez e um grande elenco de cantores?
Allan Carvalho riu quando contei, não botou fé. Ele é um dos convidados do álbum, gravou a que talvez seja a mais “etérea” das canções, “Navio lá fora”, que desde o lançamento em formato ‘single’ nunca me agradou totalmente; logo descobri: ela precisava ser cantada por ele, com sua voz potente e seu timbre único.
Considero Allan o herdeiro musical do Ronaldo, não um mero discípulo, um seguidor que leva adiante um legado musical. A outra convidada do álbum é minha filha Julia Burnett, que gravou “A volta do mundo”, uma toada, em duo com o próprio Ronaldo, já que minha voz embargaria com certeza.

Arthur Kunz e os encontros musicais do álbum
Com as bases gravadas no estúdio de Demétrio Mussi, outro paraense desterrado, como eu, este álbum não existiria sem a presença e a colaboração de Arthur Kunz, que coproduziu e gravou diversos instrumentos sobre a minha guitarra-base e minha voz em seu estúdio, Devaneio: bateria, baixo, guitarra, percussões etc.
Kunz saiu de Belém para São Paulo munido de uma imensa coragem. Tornou-se mais conhecido no circuito musical com o duo Strobo, junto com Leo Chermont, mas se fixou na pauliceia, começou a tocar e produzir diversos artistas, tendo a cantora Marina Lima como a principal referência hoje, embora não se reduza ao trabalho dela, pelo contrário, Kunz é uma usina de criatividade e energia juvenil.
Nossa parceria começou ainda em Belém, na gravação do álbum Retruque/Retoque e em shows inesquecíveis. Devo a ele um agradecimento público porque ao longo da pré-produção todos os apoios prometidos foram caindo, mas ele abraçou o projeto até o fim, com profunda dedicação, por amizade e por ter encontrado nas canções outras formas de desenvolver suas infinitas ideias.
As gravações adicionais – as vozes do Allan e do Ronaldo e as percussões – foram realizadas em Belém no Z Estúdio, por Thiago Albuquerque.

Interpretar Ronaldo – duplo sentido
Ao utilizar a palavra “interpreta” no título, dois sentidos merecem ser destacados. Não se trata apenas de interpretar as canções, isto é, de cantá-las a meu modo, mas também de tornar compreensível aos novos ouvintes uma faceta da obra do Ronaldo que tende a ser menos conhecida diante dos sucessos populares do Arraial do Pavulagem, um lado lírico e poético sem os quais eu não seria o compositor que sou.
Por isso, arriscando estragar o elemento surpresa talvez mais interessante do projeto, revelo aos ouvintes que minha intenção era mimetizar a forma de compor do Ronaldo. Como assim?
Compus as canções “como se fosse ele”, emulando suas harmonias e melodias, prestando assim, dentro dos meus limites, uma homenagem a este compositor que minha geração aprendeu a chamar de mestre antes que os órgãos públicos tornassem isso oficial ao lhe atribuir o título de “Mestre de Cultura do Pará”.
Gostaria de registrar que por trás dessa intenção autoral/composicional, havia outro, estritamente musical. Queria aproximar o universo poético amazônico do Ronaldo com um universo sonoro que, mais recentemente, me arrebatou com a mesma intensidade que, na adolescência, alguns dos grandes compositores brasileiros haviam me cooptado para a canção; me refiro às obras dos guitarristas Bill Frisell e Jacob Bro, um estadunidense e outro dinamarquês.
Este é o motivo das bases do álbum terem sido gravadas – pela primeira vez, no meu caso – somente usando uma guitarra telecaster com alguns pedais de efeito específicos. Embora muitas vezes meu parceiro Arthur Kunz considerasse minhas observações musicais “subjetivas demais”, se consegui realizar essa dupla e ambiciosa ideia, ele também tem um papel decisivo nesse processo.

Alex Flemming assina a obra da capa
Por fim, mas não menos importante, gostaria de dizer algo sobre a capa. Trata-se da obra “O advogado”, de Alex Flemming, de 2009. Nos conhecemos em Berlim bem antes do seu retorno recente para São Paulo.
Quando concebi a ideia descrita acima, esse duplo movimento entre a Amazônia e a música do mundo, não foi difícil imaginar que uma obra do Flemming poderia expressar plasticamente o que eu idealizava como um lance puramente musical.
Para minha imensa surpresa, não me deu uma, mas diversas obras; ele, um dos artistas brasileiros mais renomados da atualidade. Não é uma generosidade de pouca monta. Jamais poderei agradecer devidamente sua gentileza.
Depois de um processo difícil de escolha, optei por esta, com as duas figuras lado a lado, como uma imagem do futuro projetada no passado, quando me sentava diante do Ronaldo na calçada de uma velha casa num conjunto habitacional da COHAB imaginando que a música poderia me levar para o mundo, de onde nunca mais retornei.
Anote!
O lançamento será dia 28 de agosto nas plataformas
Faça o pré-save: aqui
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Sobre Henry Burnett:
É músico, compositor, cantor, violonista, pesquisador e professor. Natural de Belém, construiu uma trajetória que articula criação musical, pesquisa e reflexão sobre a canção brasileira. Radicado em São Paulo, mantém forte vínculo com a produção musical amazônica e paraense, presente em diferentes momentos de sua obra.
Graduado em Filosofia pela UFPA (1997), mestre e doutor em Filosofia pela Unicamp (2000 e 2004), com estágio de pesquisa na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Fez pós-doutorado na USP, na Universidade Nova de Lisboa e novamente na Universidade de Leipzig. Atualmente é professor titular livre-docente do Departamento de Filosofia da Unifesp, com atuação especialmente em Estética, História Cultural e crítica das artes

