Muita lambada na festa da lambateria

A lambada chega aos 50 anos em 2026? Depende de onde se começa a contar essa história

O Festival Lambateria está comemorando os dez anos da festa que deu origem ao festival, e celebrando também os 50 anos da lambada, além de homenagear Daniel Benitez, personagem fundamental dessa conexão latino-amazônica. Nesta sexta-feira, 9 de outubro, em total clima de Círio de Nazaré.

Mas afinal de contas, de onde e como surge a lambada? O marco escolhido pelo Festival Lambateria está em 1976. Naquele ano, Pinduca lançou, no LP No Embalo do Carimbó e Sirimbó – Vol. 5, a faixa instrumental “Lambada (Sambão)”, que traz Mário Gonçalves, irmão do músico, executando na guitarra elétrica o tema principal da música. Um clássico contagiante e digno da festa.

A história de 50 anos da Lambada também pode ser contada, em 2028, a partir do LP Lambadas das Quebradas Vol. 1, o primeiro LP de Mestre Vieira, um clássico e que pode ter sido gravado também em 1976. A ficha técnica do LP registra outubro de 1978, mas depoimentos de músicos e pesquisas posteriores situam a gravação cerca de dois anos antes.

A divergência entre as datas surge nos depoimentos dos músicos de Vieira e Seu Conjunto – Dejacir Magno, Lauro Honório e Luís Poça -, no documentário Coisa Maravilha – A Invenção da Guitarrada, concedidos para mim, originalmente, nas gravações que realizamos em 2011 para o filme, e também, alguns anos depois, numa pesquisa de Saulo Christ Caraveo e Sonia Chada sobre a gênese da lambada e a trajetória de Mestre Vieira.

Antes de virar ritmo ou gênero, a palavra “lambada” já estava no nosso vocabulário paraense e era usada para expressar algo quente, fosse uma surra ou um gole de cachaça, mas também se conectou à música quando nas rádios, era usada pelo radialista Haroldo Caracciolo para anunciar músicas muito dançantes: essa música é uma lambada.

No documentário Coisa Maravilha, Mestre Vieira conta que tomou emprestada a palavra “lambada” para batizar o tipo de música autoral que vinha compondo, uma sonoridade construída com a mistura e execução na guitarra, do choro, carimbó, jovem guarda e ritmos que chegavam de países da América Latina, entre eles merengue, cúmbia, bolero e mambo.

A Lambateria 2026, portanto, celebra os 50 anos de um marco fonográfico: 1976, quando Aurino Quirino Gonçalves, o nosso Pinduca, colocou a palavra “lambada” no título de uma faixa, um sucesso enorme, que o levaria a ser reconhecido como um artista da Lambada, embora o carimbó eletrizado tenha se tornado sua marca.

Lambada e Guitarrada
Félix Robatto e Lia Sophia. Foto: Bruno Carachesti

A festa da lambada é nossa

Criada por Félix Robatto e Sonia Ferro Robatto em 2016, a Lambateria focou na lambada como território, reunindo em noites memoráveis, guitarrada, carimbó, merengue, cúmbia, brega e outras sonoridades que colocam há anos, os paraenses e os turistas numa pista latino-amazônica.

Na edição celebrativa, o festival traz referências do gênero, estreias e homenagens, reunindo artistas que ajudaram a construir essa trajetória, como Rossy War, Lia Sophia, Warilou e Félix Robatto, ao lado de Adilson Ramos, Companhia do Calypso e novas gerações da música paraense, na sexta-feira que antecede o Círio.

O uruguaio Daniel Benitez, músico que fez do Pará sua morada e deixou sua marca em projetos como Mundo Mambo e Warilou, será homenageado em show comandado pelo filho, Bruno Benitez, com participação de Fernando Belém, parceiro de Daniel em gravações e conhecido como Rei do Merengue.

Félix Robatto, idealizador da festa, assume o show que costura os dois aniversários e a homenagem. No repertório estarão músicas que marcaram esses dez anos, com Lia Sophia e a peruana Rossy War entre as convidadas.

Lia acompanha a Lambateria praticamente desde o início e se tornou presença recorrente em suas edições. Rossy War, por sua vez, protagonizou um dos momentos que ampliaram o alcance internacional do Festival quando veio pela primeira vez ao Pará, em 2022. A cantora, conhecida como Rainha da Tecnocumbia peruana, volta acompanhada pelo guitarrista Tito Mauri.

“E a presença da Rossy War no Festival em 2022 foi um marco: ela gravou uma música em parceria comigo e com o Bruno Benitez em homenagem a Belém e é uma artista que o pessoal sempre pede pra voltar”, lembra Félix. A parceria resultou depois em “Amor que Sentí”, gravada pela cantora com Félix e Bruno Benitez.

A relação da Lambateria com essa cartografia musical latino-amazônica, aliás, foi se ampliando ao longo dos anos. O Festival trouxe ao Pará nomes como Les Aiglons, de Guadalupe, em 2023; Los Mirlos, do Peru, em 2024; e os argentinos do Mister Gato, em 2025.

Lambada dá o tom da festa
Foto: Bruno Carachesti

Muita lambada e calypso

Adilson Ramos, cantor pernambucano conhecido como Rei da Seresta, vai trazer o clima dos bailes da saudade. “A Chuva me Lembrou Você”, “Fim de Festa” e outros sucessos de sua carreira estarão no repertório.

Outra estreia no Festival é a Companhia do Calypso, criada em Belém no início dos anos 2000 e atualmente comandada pelas cantoras Fênix Ribeiro e Paulinha Miranda. Já a Warilou volta para uma festa onde viveu outros encontros. Com 35 anos de trajetória, a banda pertence a uma geração fundamental da lambada paraense e segue em atividade com Joba, Nicinha e Suelene.

De Icoaraci vem a Batucada Misteriosa, grupo formado a partir das rodas de carimbó do Espaço Cultural Coisas de Negro e que apresenta o álbum Até Quase Morrer. Do Quilombo do Abacatal, em Ananindeua, o Toró Açu leva Mandinga do Meu Avô, trabalho atravessado pela vivência quilombola e pela transmissão de histórias por meio do carimbó.

Jeff Moraes apresenta Laje Tropical, novo EP gravado no Pupuña Estúdio, enquanto Naré se junta à aparelhagem Mega Príncipe Negro, uma das presenças tradicionais do Festival.

Na pista, os DJs Zek Picoteiro, de Santarém, e Estamyna, de Belém, completam essa circulação entre tempos, territórios e repertórios. Os dois também comandam mais uma edição do Concurso de Dança Seu Godô, criado em 2022 e que premia a dupla vencedora.

Muito carimbó e guitarrada
Noites dançantes. Foto: Bruno Carachesti

Anote!

Festival Lambateria 2026

Quando: sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Onde: NaBêra, Belém

Atrações: Félix Robatto, Lia Sophia, Rossy War, Adilson Ramos, Companhia do Calypso, Warilou, Bruno Benitez, Fernando Belém, Batucada Misteriosa, Toró Açu, Jeff Moraes, Mega Príncipe Negro, Naré, DJ Zek Picoteiro e DJ Estamyna.

O Festival Lambateria 2026 tem patrocínio da Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e realização da Lambada Produções, Funarte e Governo do Brasil.

Ingressos à venda:
WhatsApp (91) 98025-1028, com pagamento por Pix
Sympla — Festival Lambateria 2026

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