Festa de 409 anos de Belém e luta das comunidades ribeirinhas contra a extinção da Funbosque

A canção “A Força que vem de Belém”, composta por Toni Soares, em 1993, é um dos hinos da cidade, exaltando suas belezas e a força da cultura popular, mas também instiga reflexão. Belém, Belém, Belém, será que tá tudo bem? Tudo bem, tudo bem?

A capital paraense completa neste domingo, 12 de janeiro, 409 anos, em estado de euforia e tristeza. E enquanto Zé Vaqueiro atrai multidões e ocupa um espaço que não é seu na cultura popular paraense, as vozes das comunidades das ilhas lutam para serem ouvidas.

O prefeito Igor Normando, que acaba de assumir a gestão da cidade, anunciou uma grande celebração para hoje, no Portal da Amazônia, no intuito de atrair a população, mas as medidas que ele deseja implantar em sua administração, anunciadas ainda em 2024, estão deixando de fora dessa festa uma grande parte da população que vive na região das ilhas.

No Projeto de Lei de reforma administrativa que pode ser enviado no próximo dia 15 de janeiro à Câmara, mesmo em recesso, numa sessão extraordinária, o prefeito pede aos vereadores e vereadoras que concordem com suas aspirações em realizar a fusão de várias secretarias e em extinguir de fundações, entre elas, a Fundação Escola Bosque – Funbosque, criada pelos moradores, há 30 anos, e hoje uma referência em educação ambiental.

Situada na Ilha de Caratateua, mas com núcleos espalhados nas diversas comunidades da região das Ilhas, suas ações além de trazerem resultados que beneficiam toda a capital, também contribuem para a luta mundial de combate à crise climática. Dentre tantas instituições na estrutura municipal, a fundação é uma das que mais se alinha ao discurso ambiental da COP 30.

“É um projeto real e que funciona de verdade”, disse Laurene Ataíde, Guardiã do Pássaro Junino Colibri de Outeiro. “Quando foi elaborado, o projeto pensou em cada árvore, mantendo a floresta em pé”, complementa.

Medidas de extinção geram vídeos nas redes sociais

Ângela Mendes. Foto: Ramon Aquim (Reprodução da Internet)

Desde que as medidas foram anunciadas, um grande movimento teve inicio, com inúmeros manifestos pelas redes sociais. A tentativa de extinguir a Funbosque ocorre justamente no ano em que Belém se prepara para sediar a COP-30, evento internacional sobre mudanças climáticas. Para muitos, isso contraria o discurso de sustentabilidade exaltado pelo governo.

“Em vez de fortalecer a educação ambiental, querem desmantelar um modelo de sucesso. Isso é uma contradição”, criticou em seu Instagram, Angela Mendes, a filha do ambientalista Chico Mendes. Segundo ela, a Funbosque “é um exemplo de educação transformadora, que forma jovens com consciência crítica e compromisso social”.

Lucicléia, moradora da Ilha de Caratateua há 31 anos, também fez vídeo somando com a mobilização. “Tenho dois filhos que estudaram na Fundação Fumbosque, inclusive começaram lá com 3, 4 anos de idade. Ambos fizeram o curso técnico, concluíram o ensino médio através da Fumbosque. E assim, hoje em dia, tenho dois filhos profissionais também na área da educação física, um e outro ator da terapeuta”, conta.

Ecomuseu, projeto da Funbosque

Para ela, extinguir a Funbosque é extinguir a sua autonomia. “É um prejuízo muito grande para a nossa comunidade, porque as escolas estatuais daqui não ofertam o suficientemente vagas para o ensino médio, por exemplo”.

A moradora segue explicando que ao extinguir a Funbosque, “você extingue o ensino médio, o ensino técnico e o Ecomuseu. Então, existem vários projetos dentro da Fumbosque que são de grande valia, e ela com a sua total autonomia, os projetos tendem cada vez mais a se fortificar”.

Eleitora de Igor Normando, Lucidéa o alerta: “… você terá muito mais a ganhar com a nossa instituição, mantendo sua autonomia, certo? … queremos a nossa fundação ativa, como sempre foi, porque é pra nós também um ponto turístico e, assim, uma coisa muito maravilhosa pra dentro da ilha. É o que nós ainda temos de melhor. Não faça isso comigo. Mantenha a autonomia da nossa fundação”, conclui.

Também se manifestou nas redes sociais, Rosilda Santana, moradora da Rua Pique Arana, onde é desenvolvido um trabalho com relação ao meio ambiente. “Nós tivemos vários projetos, como o projeto Ruas Ecológicas, o projeto Ecotroca que visavam a melhoria do meio ambiente”, explica.

Entre as ações o projeto possibilitou a retirada de materiais recicláveis do lixo. “Apoiados pela Escola Bosque, nós fizemos um grande trabalho dentro da comunidade. Então, por isso é que nós reforçamos que é necessário que a Fundação Escola Bosque continue a desenvolver esse trabalho bonito junto com a comunidade. Nós estamos aqui dando esse apoio nesse sentido”, concluiu.

Meio ambiente, educação e cultura como investimento

A Funbosque tem uma equipe multidisciplinar de profissionais, projetos voltados à inclusão de alunos com necessidades especiais, parcerias com instituições de pesquisa e programas que estimulam a participação comunitária. Atendendo, diretamente, cerca de 2 mil alunos, desde a educação infantil até o ensino médio integrado e cursos técnicos, a Funbosque foi criada com o objetivo de formar jovens conscientes do seu papel no território e no mercado de trabalho, sem que precisassem abandonar suas ilhas.

Igor Normando defende que a reforma administrativa é necessária para evitar sobreposições de funções e aumentar a eficiência da máquina pública. Ele assegura que os direitos dos servidores efetivos serão preservados e que os cortes se concentrarão em cargos comissionados, visando uma economia significativa aos cofres municipais. A justificativa econômica é a questão central colocada na mesa pela prefeitura, sem levar em consideração os compromissos com a educação ambiental e a valorização dessas comunidades.

“A escola promove uma compreensão crítica sobre os desafios socioambientais, capacitando alunos a propor soluções sustentáveis e não destrutivas para a Amazônia, mas tudo isso pode desaparecer”, alerta o professor Ricardo Torres, que leciona Filosofia na instituição. “Educação não é despesa, é investimento. O que querem economizar ao extinguir a Funbosque? Estamos falando de uma região que já sofre com a falta de saneamento, saúde, transporte e lazer. A escola é um farol em meio às mazelas das ilhas”.

Ele destaca que, mesmo enfrentando dificuldades, a Funbosque tem sido um espaço de pertencimento para a comunidade. “O maior patrimônio da escola são os estudantes e as pessoas que se sentem parte dela. A fundação garante que isso seja possível”.

Projeto surge da consciência ambiental riberiinha

Ricardo Torres, professor da Fundação Escola Bosque

A história da Funbosque remonta aos anos 1990, quando a comunidade local, preocupada com a degradação ambiental e a falta de políticas públicas, se mobilizou para preservar uma área verde ameaçada por invasões.

A ideia de criar uma escola que integrasse educação e preservação nasceu desse movimento. “A Escola Bosque foi pensada como uma resposta às necessidades da população insular, que carecia de infraestrutura educacional e vivia à margem das políticas públicas”, afirma Torres. Hoje, a instituição é reconhecida por seus projetos de reflorestamento, turismo de base comunitária e formação de agentes ambientais, além de parcerias com universidades e instituições como o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Embrapa.

A extinção tem como proposta integrar a Escola Bosque à Secretaria Municipal de Educação (Semec), mas de acordo com Torres, isso poderia comprometer a continuidade dos projetos pedagógicos e ambientais e levantar ainda outras preocupações. Segundo o professor, a perda da autonomia da fundação comprometeria sua capacidade de captar recursos e manter projetos pedagógicos inovadores.

Os desafios enfrentados pelas comunidades insulares de Belém são imensos, diz Torres. “Faltam creches, vagas no ensino médio, e a maioria das escolas, atendidas pela Semec, está sucateada. Transformar a Escola Bosque em uma escola comum seria nivelar por baixo, em vez de buscar equiparar as demais escolas ao nível de infraestrutura e qualidade da Funbosque”, alerta.

Além disso, as escolas regulares não têm estrutura para absorver todas as atividades que a Funbosque realiza. “Estamos falando de uma instituição que é referência em educação ambiental, e isso não pode ser tratado como algo secundário”, alerta.

Mobilização pede apoio para evitar a medida

Reunião com o promotor Júlio Costa, do MP de Icoaraci, distrito próximo à Caratateua, e outras autoridades.

A comunidade  tem se articulado para barrar a proposta de extinção. Com o apoio de organizações sociais, professores e ex-alunos, mobilizações têm sido realizadas tanto presencialmente quanto nas redes sociais.

Uma comissão representativa já se reuniu com vereadores e enviou documentos ao Ministério Público pedindo mais transparência e diálogo por parte da gestão municipal. “Não estamos pedindo privilégios, estamos lutando por direitos. A Funbosque é da comunidade, não de grupos políticos”, enfatiza Torres.

O que está em jogo é mais do que a continuidade de uma fundação. Trata-se de preservar um modelo de educação que alia compromisso social, sustentabilidade e resistência em uma das regiões mais vulneráveis do país.

“Manter a Funbosque é lutar por um futuro melhor para Belém, para a Amazônia e para o mundo. Não podemos tratar a educação como mercadoria. Ela é o alicerce de uma sociedade mais justa e consciente”. Os servidores denunciam ainda, a falta de transparência no processo. “Não tivemos acesso à minuta do projeto de lei, e nossos pedidos de reunião com o prefeito e a Secretaria de Educação foram ignorados”, relata Torres.

Apesar das dificuldades, a comunidade e os educadores seguem mobilizados. “A escola é da comunidade, não do prefeito ou dos vereadores. Vamos lutar para que ela continue sendo um espaço de educação, resistência e transformação”, afirma. Caso a extinção seja aprovada, as perdas para a educação ambiental e social em Belém serão significativas.

Acompanhe a repercussão dê sua opinião: @funbosquefica

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