Eloi correa

Solo de Marajó e o teatro que devolve Dalcídio Jurandir ao corpo, ao território e à memória amazônica

Há obras que parecem não se erguer sobre o palco.  Brotam dele, como raízes aéreas de um manguezal. Não se apresentam e sim, abrem-se diante dos nossos olhos como uma flor noturna para poucos.

‘Solo de Marajó’ pertence a essa linhagem rara em que teatro, literatura, corpo e território deixam de ser categorias separadas e se tornam uma mesma matéria sensível. O espetáculo não adapta um romance — ele o reincorpora.

Não traduz Dalcídio Jurandir — devolve-o ao chão, ao rio, ao silêncio, à carne. Mistura-se a uma paisagem amazônica que às vezes nos soa clandestina, contrabandeada de nós mesmos por diminuição de afetos ao que nos é inteiramente nosso, mas também do mundo

Há dezessete anos, Claudio Barros e Alberto Silva Neto mergulharam em Marajó como quem desce a um poço sem fundo, não para buscar respostas, mas para aprender a respirar dentro da escuridão. Esse tempo dilatado não é dado biográfico, importante dizer. É método. É ética. É uma recusa à pressa.

A obra nasce de um gesto arcaico, o de  ficar. Ficar tempo suficiente para que o livro deixe de ser livro e se torne organismo vivo internamente. Ficar é contemplar. Admirar. Nutrir. E lembro Antônio Cícero nessa comparação miúda: guardar. Esse verbo aqui não se traduz como esconder algo para si, mas ao contrário, ofertar. Guardar a essência para a outrem entregar.

Cláudio Barros – Foto: Elói Corrêa

Claudio Barros não “representa” personagens. Ele se deixa atravessar por modos de existir. Seu corpo não é suporte, é paisagem. Nele passam rios, passam ventos, passam fomes antigas, passam esperas sem nome. A Amazônia ancestral e contemporânea passa por ele, navega nele, escorre pelo suor do corpo totalmente exposto a nós.

O que vemos não é um ator em cena, mas um território que lembra de si mesmo. Um corpo-arquivo. Um corpo-chão. Um corpo-água. Um corpo-barro. Barros.

Existe algo de profundamente filosófico nesse gesto: a recusa da psicologia como centro organizador das ideias e a afirmação da materialidade como pensamento. O pensamento aqui não se organiza em conceitos, mas em tensões musculares, em pausas respiratórias, em deslocamentos mínimos. O corpo pensa. O corpo lembra. O corpo até denuncia. Ele deseja. Ele renega. Ele foge. Destrói, constrói, esmaga, nutre.

Solo de Marajó constrói uma ética do pequeno. Não há grandes heróis, não há arcos épicos, não há transcendências fáceis. O que existe são vidas miúdas esmagadas por estruturas maiores, forjadas por um destino que tudo exige e pouco dá em troca. E é justamente aí que o espetáculo se torna imenso.

As narrativas que emergem — sobre expropriação, trabalho precarizado, tráfico de crianças, racismo, violência contra a mulher — não surgem como temas explícitos, escancarados. Surgem como consequências.

Como resultados inevitáveis de um sistema patriarcal e monopolizador que naturalizou a desigualdade a ponto de fazê-la parecer paisagem. As personagens narradas por Cláudio são paisagens humanas em constante deslocamento. Seja interno ou externo. Fugir de si às vezes é o caminho mais pedregoso e escorregadio.

Foto: Eloi Corrêa

E talvez essa seja uma das operações mais radicais do espetáculo: transformar aquilo que a história oficial costuma tratar como “contexto” em centro. O que estava na margem assume a condição de núcleo. O que era invisível passa a sustentar o olhar.

O trabalho de direção de Alberto Silva Neto age como uma arquitetura do silêncio. Nada sobra. Nada grita. A luz não ilustra: escava. A sombra não esconde: revela. Cada variação luminosa parece obedecer a uma lógica interna das histórias, como se os relatos emitissem sua própria frequência e a luz apenas a captasse. Aqui menos pode ser mais. A vida pulsa nos detalhes.

Há momentos em que o palco parece respirar. Em outros, parece conter o ar, como se qualquer movimento a mais pudesse ferir algo sagrado. Essa contenção gera uma forma particular de atenção. Não a atenção ansiosa,  de celulares na mão, mas a atenção ritual. O público não assiste.

O público participa de um estado. É difícil definir isso, mas é como se os poros e as veias de Cláudio Barros guiassem o público a um outro lugar. Um não-lugar onírico, mas ao mesmo tempo, um lugar total.

O monólogo narrativo de Claudio Barros é, na verdade, uma polifonia. Ele é um e é muitos. Muitas. Mas não no sentido exibicionista da metamorfose virtuosa. Ele é plural porque carrega. Porque suporta. Porque aceita ser atravessado por histórias que não pedem protagonismo, apenas existência.

Nesse sentido, Solo de Marajó se aproxima mais de um rito do que de um espetáculo. Um rito sem misticismo explícito, mas profundamente espiritual. Um rito laico de restituição da dignidade narrativa. Das histórias primordiais em volta da fogueira sob a lua cheia.

Há algo de dolorosamente belo na forma como o espetáculo constrói imagens sem mostrar nada. Tudo nasce da imaginação convocada. O teatro volta à sua condição essencial, em uma tecnologia da presença. Um acordo frágil entre corpos num espaço.

E nesse acordo, algo antigo se reativa: a escuta. Escutar aqui não é apenas ouvir sons. É sustentar o peso do que é dito. É aceitar que certas histórias não estão em buscas de solução. Elas pedem memória. A que todos nós, amazônidas, carregamos até mesmo sem sentir.

Foto: Eloi Corrêa

Dalcídio Jurandir escreveu Marajó nos anos 1940 como quem inscreve um mapa de feridas, ele que sob a ética comunista sabia de nossas mazelas. Solo de Marajó transforma esse mapa que ainda é atual, infelizmente, em pulsação. O romance deixa de ser página e vira fluxo. O fluxo vira carne. A carne vira tempo. E o tempo nos molda, um barro que clama por vida.

Há uma dimensão ontológica nesse processo. O espetáculo pergunta, sem nunca formular, quem tem direito de existir plenamente dentro da narrativa do país. Quem é lembrado. Quem é esquecido. Quem é transformado em estatística. Quem permanece nome próprio.

O teatro, aqui, não quer convencer. Não quer ensinar. Não quer redimir. Quer permanecer. E permanecer, em um país estruturado sobre apagamentos, é um gesto político radical.

Ao final, não saímos com respostas. Saímos com uma espécie de peso luminoso no peito. Uma sensação de que algo nos foi confiado. Não como missão grandiosa, mas como responsabilidade íntima.

Talvez Solo de Marajó seja isso, um pacto silencioso entre obra e espectador. Um pacto que diz algo como ‘agora você sabe que essas vidas existem’. E saber transforma.

O espetáculo não fecha. Ele fica aberto dentro da gente, como um rio que não pede margens. E, nesse estado, entendemos que certas obras não querem ser simplesmente aplaudidas.

Querem ser guardadas. Querem ser carregadas. Querem continuar caminhando, discretas, dentro do corpo de quem as viu.

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