Antes mesmo das luzes se apagarem para a primeira exibição, a inauguração do Cinema Alexandrino Moreira, na Casa das Artes, já se desenhava como um momento de memória e reconhecimento.
Além da entrega de uma nova sala de cinema, a cerimônia foi marcada por falas que resgataram a história de um homem que fez do amor pelo audiovisual um projeto de vida, e que agora dá nome ao espaço.
De acordo com a diretora da Casa das Artes, Lana Machado, o cinema nasce com a proposta de ser um lugar de encontro e circulação de histórias, ampliando o acesso ao audiovisual e fortalecendo a presença de uma programação permanente. A inauguração também destacou o caráter coletivo da realização, com reconhecimento a profissionais e gestores que contribuíram para sua concretização, como a arquiteta Lia Bastos, responsável pelo projeto, além de Úrsula Vidal e Tiago Miranda, citados como figuras importantes em etapas anteriores.
Mas foi quando ouvimos a fala de Marco Antônio Moreira, professor, presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará e filho de Alexandrino, que a noite encontrou seu tom mais sensível.
“É impossível falar desse momento sem atravessar a história do meu pai”, afirmou, visivelmente emocionado. “Eu carrego isso com muito amor e com a dignidade de manter vivo esse legado.”
Marco Antônio relembrou a trajetória do pai desde a infância, marcada por uma relação quase obstinada com o cinema. “Ele começou muito jovem, sem dinheiro para frequentar as salas. Engraxava sapatos para conseguir os centavos e poder assistir aos filmes”, contou. “Depois, já adolescente, essa paixão cresceu a ponto de ele criar um programa de rádio sobre cinema, a ‘Atualidade Cinematográfica’.”

A mudança para Belém consolidou essa relação. Aqui, Alexandrino encontrou parceiros fundamentais, como Pedro Veriano e José Álvares, com quem compartilhou o entusiasmo pelo cinema. “Ninguém faz nada sozinho. Ele encontrou pessoas que amavam o cinema tanto quanto ele”, destacou o filho.
Nos anos 1970, veio o passo decisivo: a criação de salas de cinema. “Foi uma ideia ao mesmo tempo maluca e genial. Ao longo do tempo, foram sete salas. Eu entrei nessa história ainda adolescente, com 14, 15 anos”, lembrou Marco Antônio. “E durou o tempo que tinha que durar. O mercado mudou, mas o legado ficou.”
A emoção se intensificou ao falar da homenagem que agora eterniza o nome do pai. “Quando me disseram que o cinema levaria o nome dele, eu chorei profundamente. É um reconhecimento que ultrapassa a nossa família. É um reconhecimento de uma trajetória inteira dedicada ao cinema.”
Ele também fez questão de lembrar da mãe, Maria de Lourdes, como figura essencial nessa caminhada, e agradeceu aos parceiros institucionais que tornaram o projeto possível. “Fica aqui a nossa eterna gratidão. Viva o cinema.”
A fala de Marco Antônio dialogou com o tom das demais autoridades presentes, que reforçaram a importância do equipamento como política pública de acesso à cultura. O novo cinema passa a integrar o circuito estadual, ampliando as possibilidades de exibição e contribuindo para a formação de público em um cenário ainda marcado pela escassez de salas, especialmente fora do circuito comercial.

Audiovisual paraense x incentivos
Se a primeira parte da noite foi marcada pela memória e pela emoção em torno da trajetória de Alexandrino Moreira, a segunda revelou, na prática, o que o novo espaço representa. Com 64 lugares e estrutura modernizada, o Cinema Alexandrino Moreira é também espaço de resistência e valorização do audiovisual paraense.
O público pôde experimentar a sala recém-inaugurada, equipada em padrão técnico comparável ao da tradicional Sala Libero Luxardo, com a exibição do curta-metragem Cabana, dirigido por Adriana de Farias. Com 14 minutos de duração, o filme mergulha no episódio histórico da Cabanagem, mas a partir de uma abordagem sensível e potente: o ponto de vista das mulheres, e o silêncio imposto a elas ao longo da história.
A diretora não pôde estar presente, mas foi representada pela atriz Rose Wedge e pelo montador Lucas Domires, que trouxe ao público não apenas o percurso do filme, mas também um diagnóstico direto sobre os desafios estruturais do audiovisual no estado.
“Cabana surgiu do desejo da Adriana de falar sobre a Cabanagem, um tema ainda pouco explorado no cinema, especialmente sob a perspectiva das mulheres que participaram dessa luta e seguem invisibilizadas”, destacou. Segundo ele, a escolha por uma narrativa concentrada, em uma única locação e com poucas atrizes, foi também uma estratégia para viabilizar a produção.
O resultado, no entanto, ultrapassou as limitações orçamentárias. O curta foi consagrado como Melhor Curta-Metragem no Festival do Rio, circulou por mais de 40 festivais nacionais e hoje está licenciado para televisão aberta, TV por assinatura e plataformas de streaming. “O nosso sucesso é a prova da força e do potencial do cinema feito no Pará”, afirmou Domires.

Ao mesmo tempo, sua fala trouxe à tona um ponto crucial: a fragilidade das políticas de fomento. “Para que esse filme existisse, foi necessário um prêmio de R$ 25 mil, coprodução com a Marahu Filmes e investimento pessoal da diretora. Ainda assim, estamos falando de um valor muito abaixo do ideal. Hoje, um curta precisa de pelo menos R$ 100 mil para ser realizado com dignidade profissional”, pontuou.
Ele reforçou a necessidade de continuidade dos editais e ampliação das políticas públicas, incluindo não apenas a produção, mas também a exibição e distribuição. “Queremos ver as obras paraenses ocupando constantemente essas telas.”
É importante lembrar também que o Pará tem uma Lei Audiovisual chamada Lei Milton Mendonça, mas que está engavetada. Foram inúmeras as tentativas entre 2018 e 2025. Foi aprovada na Alepa, o Governador sancionou, mas não sem regulamentação e sem o fundo do audiovisual não há politica pública de fomento.
Ano passado, após reunião de realizadores e representante do audiovisual no conselho estadual de cultura, com a secretária de cultura Ursula Vidal, uma segunda comissão foi montada para buscar a regulamentação da Lei, houve até publicação no Diário Oficial do Estado com a lista dos realizadores na comissão, mas nada avançou.
O circuito não comercial em Belém
Por outro lado, se não há lei implementada, há mais espaços para exibir filmes produzidos com apoio de editais nacionais. A abertura do Cinema Alexandrino Moreira se insere, em um contexto mais amplo de fortalecimento da infraestrutura cultural da cidade.
Outras salas também estão em processo de implantação ou reabertura, como a Sala Pedro Veriano, na Casa da Linguagem, espaço historicamente ligado ao cineclubismo paraense, e o Cine Olympia, cinema de rua mais antigo em funcionamento no país, que passa por restauro e tem reabertura prevista para os próximos meses, sob gestão municipal.
Além disso, Belém conta com outros espaços que, ainda que não sejam exclusivamente salas de cinema, cumprem papel importante na difusão audiovisual, como o auditório Eneida de Moraes, no Museu da Imagem e do Som e o Cine Sesc.

