Estrela de São Benedito transforma obra de Salomão Larêdo em tema de quadrilha em Cametá

A tradicional quadrilha Estrela de São Benedito, da Vila Moiraba, distrito de Cametá, decidiu transformar a obra do escritor paraense Salomão Larêdo em tema de seu espetáculo.

A estreia será neste sábado, 23 de maio, na comunidade, e depois chega a Belém, no dia 23 de junho, no Arraial de Todos os Santos, no Centur, espaço onde o grupo já conquistou reconhecimento em diversas edições dos festivais juninos do Pará.

“Salomão Larêdo é um escritor paraense com obra focada na narrativa amazônica e na cultura do povo do Pará. Homenageá-lo é reconhecer um autor que conta a Amazônia com a voz de dentro, da mesma forma que fazemos com a dança”, afirma o presidente da entidade, Rodrigo Barreto Fiel.

“Salomão Larêdo é daqui de Cametá, do Pará, e escreve a Amazônia com cheiro de rio, de mata e de gente”, diz Everaldo Rodrigues, um dos coordenadores da associação e ex-secretário de cultura de Cametá.

A homenagem, também emocionou o escritor, que falou sobre o impacto de ver sua trajetória transformada em tema de um espetáculo junino popular justamente em sua terra natal.

“Receber essa homenagem da Estrela de São Benedito mexe profundamente comigo, porque nasce do povo, da juventude e da comunidade. É uma emoção difícil de traduzir”, escreveu o autor que em abril de 2025, anunciou que voltaria a morar na Vila do Carmo, onde nasceu, às margens do rio Tocantins.

Salomão Larêdo construiu uma obra marcada pelas narrativas amazônicas, pelos personagens populares, pelos conflitos sociais e pelos modos de vida do Norte do Brasil.  Hoje, morando em Cametá, o jornalista, escritor e pesquisador, segue como uma referência da literatura produzida na região.

“Fico muito feliz com o reconhecimento ao meu trabalho literário pelas comunidades do interior do Pará, aqui no Baixo Tocantins, descentralizando de Belém essas atividades culturais, dando chance e oportunidade para que mais gente aprecie as artes, a cultura e haja incentivo à leitura”, escreveu o autor.

Foto do acervo da associação

Pesquisa e criação

Rodrigo observa que a escolha do tema foi recebida com entusiasmo pela comunidade justamente por aproximar a juventude de uma referência cultural local. “Isso quebra a ideia de que cultura boa vem de fora. Ver um paraense retratado no tema faz o jovem se enxergar como protagonista, não só como espectador”, diz.

A pesquisa para adaptar a literatura à dinâmica da quadrilha exigiu escolhas difíceis diante da extensa produção do escritor. “Não dá para colocar um livro inteiro na quadra, então escolhemos cenas e personagens que mais marcaram a trajetória de Salomão”, conta Tico.

Na quadra, o espetáculo promete transformar personagens, atmosferas e conflitos presentes na obra de Salomão em linguagem visual e coreográfica. A proposta mistura tradição junina, músicas autorais, figurinos inspirados em páginas de livros e encenações construídas a partir de personagens amazônicos retratados pelo escritor.

“Vamos trazer os personagens a quem ele dá voz em suas obras: as pessoas marginalizadas socialmente, os encantados, a luta do povo da Amazônia e a periferia de Belém. O marcador vai narrar trechos como se fosse o próprio Salomão contando suas histórias”, explica Tico.

Foto do acervo da associação

Incentivo e circulação

A homenagem dialoga com um novo momento vivido pela Associação Estrela de São Benedito, que vem ampliando suas ações para além da quadrilha junina. A proposta de homenagear Salomão acompanha o desejo de fortalecer outras linguagens artísticas dentro da comunidade.

Inspirada pela iniciativa, a associação já criou um grupo de literatura infantil que funciona semanalmente no Centro Cultural Estrela e realizou sua primeira festa literária comunitária. “Esse tema nos coloca no lugar de quem produz cultura e reflexão, não só de quem reproduz”, resume Tico. “Quadrilha do quilombo não é só espetáculo bonito, é pensamento.”

A associação comunitária responsável pela quadrilha vê no projeto um passo importante de amadurecimento artístico e também político. Não apenas pela escolha de um escritor amazônida como tema, mas pela decisão de colocar a literatura paraense no centro da cena junina, em diálogo com jovens, crianças e moradores da comunidade.

Foto do acervo da associação

“Faz 23 anos que a Estrela Junina conta histórias no arraial, e sentimos que era hora de homenagear quem conta a nossa história no papel. Queríamos um tema que mostrasse que quadrilha também é literatura, e que literatura também é povo”, afirma Tico.

Além da quadrilha Estrela Junina, a associação mantém ainda grupos de carimbó, dança da melhor idade, realiza oficinas, atividades esportivas e ações sociais voltadas à comunidade. E durante o período junino, diz Rodrigo, o impacto também é econômico.

Há ensaios, mutirões e apresentações que mobilizam costureiras, bordadeiras, marceneiros, aderecistas e vendedores locais, além de atrair visitantes de outros municípios. “A quadrilha é a vitrine, mas o trabalho de base é contínuo”, conclui.

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