Zahy Tentehar, artista indígena multipremiada, sobe ao palco do Theatro da Paz nos dias 21 e 22 de outubro, com o solo autobiográfico Azira’i, um musical de memórias, espetáculo que transcende o teatro e se instala como rito, memória e voz. A peça é uma travessia afetiva por memórias de dor, cura e pertencimento.
Escrito por Zahy em parceria com Duda Rios, e com direção assinada por Denise Stutz e o próprio Duda, o espetáculo homenageia a mãe da atriz, Azira’i, a primeira mulher pajé da reserva de Cana Brava (MA), pertencente ao povo Tentehar.
Azira’i conquistou os principais prêmios do teatro brasileiro, incluindo o de Melhor Atriz, recebido por Zahy, a primeira artista indígena a ser agraciada com esse reconhecimento na história do teatro nacional. A montagem também venceu na categoria Melhor Iluminação, e desde sua estreia, vem emocionando plateias em uma trajetória que já cruzou fronteiras.
Recentemente, o espetáculo integrou a programação do Festival de Avignon OFF, na França, o maior festival de teatro do mundo, e recebeu elogios de jornais como Le Monde, Libération e Le Figaro. Antes de chegar a Belém, passou por palcos em Chicago, Bogotá, Santiago, e segue ainda este ano para Córdoba e Montevidéu.

Uma mulher, uma mãe, um legado
Azira’i, a mulher que dá nome ao espetáculo, era detentora de um saber ancestral profundo. Como pajé suprema, curava com as mãos, as plantas e o canto. Ao gerar Zahy, passou-lhe não apenas a vida, mas também um legado espiritual, uma linhagem de conexão com os Maíras, os seres sagrados da cosmologia Tentehar.
Zahy canta no palco os lamentos que aprendeu da mãe. Também compõe, junto de Duda Rios, músicas originais que ganham direção musical de Elísio Freitas, o mesmo por trás do premiado disco Nordeste Ficção, de Juliana Linhares. Ao longo de 90 minutos, Zahy entrelaça português e Ze’eng eté, sua língua materna, em uma costura sonora e narrativa que toca fundo.
A encenação aposta na simplicidade cênica: uma cadeira, uma cortina de cordas cruas, projeções do multiartista Batman Zavareze, figurinos de Carol Lobato e a luz precisa de Ana Luzia Molinari de Simoni. Tudo para que o essencial se destaque, o corpo, a voz e a memória.
Nas palavras de Zahy, “quando pensei em trazê-la ao teatro, não foi para falar apenas dos meus sentimentos, foi para dialogarmos com nossos reflexos enquanto sujeitos coletivos. Gosto de nos ver, humanos, como espelhos.”

Uma narrativa que nos atravessa
Azira’i nasceu em 2019, quando Zahy e Duda Rios se conheceram nos bastidores da montagem de Macunaíma, dirigida por Bia Lessa. Dali, veio o desejo de construir uma dramaturgia a partir das histórias de Zahy, e não qualquer história: histórias reais, não romantizadas, que falam do ser indígena fora dos estereótipos. De uma mulher que saiu da aldeia, foi para a cidade, aprendeu outra língua, e viveu uma relação intensa, às vezes conflituosa, com a mãe.
“É muito libertador poder contar uma história como a minha, que é também a de muitos brasis. É uma forma de humanizar os povos indígenas, sem folclore, sem caricatura. Somos múltiplos, como qualquer outro povo.”, diz Zahy.
A realização do espetáculo tem o apoio do Programa Petrobras Cultural, que aposta na cultura como motor de transformação social e identidade. A produção é da Sarau Cultura Brasileira, responsável também por montagens como Elza, Viva o Povo Brasileiro e Nossa História com Chico Buarque. Azira’i ainda conta com fomento da Bolsa Funarte de Teatro Myriam Muniz (2023).
Neste momento em que o Brasil vive a criação do Ministério dos Povos Originários, Azira’i se torna ainda mais urgente, um chamado coletivo à escuta, à empatia e à reparação.
Serviço
Azira’i – Um musical de memórias
Theatro da Paz – Belém (PA)
Terça-feira, 21 de outubro, às 20h
Quarta-feira, 22 de outubro, às 20h
Classificação: 12 anos
Duração: 90 minutos


