A mesa posta, neste último domingo, 29, foi mais um território de memória, partilha e reconhecimento percorrido pelo projeto encampado pela pesquisadora e produtora cultural Auda Piani .
A entrega do livro “Elas fazem o pirão render, quando a farinha é pouca” marcou o encerramento de um percurso construído em rede, reunindo mulheres de diferentes territórios amazônicos em torno da cultura alimentar e dos saberes tradicionais.
Resultado de um processo de escuta, convivência e troca, a publicação nasce da experiência conduzida por Auda Piani em comunidades do Pará, atravessando municípios do Marajó, Cotijuba, Quatipurú e Ananindeua, até chegar à culminância em Icoaraci.
O livro se estrutura como um documento escrito, por Auda e ilustrado por Werne Souza, sobre modos de vida, afetos e estratégias coletivas de existência. Durante a apresentação, a própria autora destacou o caráter compartilhado da obra.
“Hoje eu estou apresentando o resultado desse trabalho que nós fizemos juntas, caminhamos juntas. Vocês sabem o quanto foi árduo cada momento e o quanto foi de beleza, de troca e de descoberta. Isso tudo resultou em muita coisa, e eu resolvi escrever sobre tudo isso”, afirmou.

O projeto do livro contou também com o artista visual Werne Souza, responsável pelas ilustrações, destacou o papel da memória e do olhar na construção do livro. “O meu processo de criação vai muito pelo desenho e também pela memória. Nos lugares em que não estive, trabalhei a partir das fotografias que ela me enviava. E onde estive, foi um momento de observar essas mulheres, suas histórias, essa diversidade toda”, disse.
Entre as participantes, a emoção do reencontro com a própria história registrada no livro marcou o tom das falas. Para uma das mulheres envolvidas no projeto, o momento foi de reconhecimento e pertencimento.
“Foi muito importante pra gente ter participado. Ver o livro pronto, ver tudo que foi vivido ali, registrado, resgatando o que já aconteceu na nossa comunidade, é muito importante”, afirmou Midian, de Cotijuba.
Outra participante destacou o impacto simbólico da experiência coletiva. “Foi um dia muito especial, muito marcante mesmo”, disse Kátia Piani, de Ponta de Pedras, sintetizando o sentimento que atravessou o encontro.

Do verso popular à mesa que importa
O livro revela a inversão necessária do ditado popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”, no projeto de Auda, fazer o pirão render é partilhar. É transformar a escassez em sustento coletivo, fortalecendo saberes.
Ao longo das páginas, relatos, memórias afetivas, receitas e ilustrações se entrelaçam como um caderno de campo sensível, onde a cozinha deixa de ser apenas espaço doméstico e se afirma como lugar de resistência cultural. São as mulheres que sustentam essa rede: cozinham, cultivam, ensinam e reinventam práticas, articulando alimento, identidade e território.
Realizado com recursos do edital PNAB-Pa de Circulação em Cultura Alimentar e apoio da Secretaria de Agricultura de Salvaterra, o projeto percorreu diferentes territórios fortalecendo redes de mulheres e incentivando a geração de renda. A circulação construiu um campo de trocas onde memória e prática caminham juntas.
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