O verão de Ricardo Smith traz uma chuva de sonoridades. É dessa Amazônia híbrida e múltipla, que não se encerra nas fronteiras do Pará nem cabe facilmente dentro de um único gênero musical, que nasce Verão, primeiro álbum do Ricardo Smith Quarteto, já disponível nas plataformas digitais.
Com sete faixas: Guajará, Feira, 82, Banguiê, Vazante, Vento de Chuva e Flor no Cabelo, o álbum reúne um repertório que o quarteto já vinha experimentando nos palcos antes de entrar em estúdio. Vento de Chuva foi a primeira música apresentada ao público como single, antecipando o trabalho que agora pode ser ouvido integralmente.
O título do disco carrega mais de um sentido. “Esse ‘verão’ tem múltiplos significados. Primeiro, que se trata do verão amazônico, que tem toró de pingo grosso”, explica Ricardo. Há ainda um jogo com a própria palavra: “O título também faz menção ao futuro do verbo ‘ver’”.
O nome acaba funcionando como uma boa chave para compreender um álbum que olha para a Amazônia sem tentar enquadrá-la em uma única sonoridade. O próprio Ricardo utiliza a expressão “violão amazônico” para definir seu instrumento, mas não como delimitação de gênero ou estilo.
“Essa definição vem de uma analogia com a própria região, é plural. Meu violão é marcado pelas mais diversas influências, é clássico, rock, jazz, carimbó etc. É tudo isso junto”, afirma Smith.

Caco (contrabaixo), Ricardo (violão e composições) e Canhão (bateria) – Foto: divulgação (montagem)A definição acompanha a própria trajetória do violonista e compositor, natural de Belém. Ricardo iniciou sua experiência musical ainda adolescente, passando tanto por grupos ligados às manifestações culturais tradicionais quanto por bandas de rock.
Depois estudou violão clássico no Conservatório Carlos Gomes e ingressou no curso superior de música. Ao longo da carreira, construiu uma produção marcada pelo encontro entre ritmos populares, especialmente do Norte brasileiro, o violão de formação clássica e a improvisação jazzística.
Essa pesquisa já aparecia em trabalhos anteriores. Em Jazz Tropical, por exemplo, Ricardo aproximava carimbó, lundu, baião, galope e toada da linguagem do jazz e da improvisação.
Em outro caminho, dividiu com José Maria Bezerra o projeto Dois Violões da Amazônia, cujo repertório autoral incorporou ritmos como marambiré, lundu, carimbó, toada e marabaixo ao universo dos dois violões. O duo lançou em 2018 o álbum Húmus. Em Verão, porém, essa trajetória ganha outra configuração: o centro do trabalho passa a ser a sonoridade construída por uma banda.

Verão em quarteto é banda
Embora leve seu nome, Ricardo faz questão de destacar que o quarteto não deve ser entendido como um violonista acompanhado por outros três instrumentistas.
“Apesar do nome, o quarteto é uma banda. Embora as composições partam do violão, a bateria, o baixo e a percussão não são apenas acompanhantes. A colaboração de todo o grupo é fundamental para a sonoridade final do trabalho”, explica.
Um exemplo dessa construção coletiva surgiu durante a elaboração dos arranjos, quando Carlos “Canhão” Brito precisou criar um padrão rítmico específico para uma das composições. É nesse encontro entre violão, contrabaixo, bateria e percussão que as músicas ganham a forma registrada no álbum.
O repertório, na verdade, antecede a gravação. “O quarteto tem um repertório relativamente grande e que já vem sendo apresentado há algum tempo. Precisávamos apenas definir a proposta do álbum e gravar. Os arranjos já estavam todos definidos”, conta Ricardo.

Verão ao vivo
Em abril de 2024, esse processo já podia ser visto pelo público em Belém. O Ricardo Smith Quarteto participou do projeto Ver o Som Instrumental, no Café com Arte, justamente utilizando as apresentações para experimentar ao vivo músicas que fariam parte de Verão, então ainda em fase de gravação.
Naquele momento, o grupo reunia Ricardo Smith no violão, Caco Darwich no contrabaixo acústico e elétrico, Carlos “Canhão” Brito na bateria e Cinara Pojuci na percussão, que participou das gravações do álbum e permanece nos créditos das faixas.
Atualmente, a percussão do quarteto é assumida por Tâmara Almeida, que integra a formação ao lado de Ricardo, Caco Darwich e Carlos “Canhão” Brito.
A formação com Tâmara já vinha circulando pelos palcos em 2025, quando o grupo se apresentou, por exemplo, no Marabá Jazz Festival. Para Ricardo, o formato de quarteto é o que diferencia Verão de experiências anteriores como Jazz Tropical, Violão Só e Dois Violões da Amazônia.
“Por ser um álbum do quarteto, Verão acaba potencializando todas as facetas dos trabalhos anteriores”, observa. Há músicas em que o improviso ganha maior espaço e outras de caráter mais camerístico, além de momentos dedicados ao violão solo.

Verão amazônico para além do Norte
A diversidade aparece também nas referências rítmicas que atravessam as sete faixas. Quando perguntado sobre as matrizes musicais do Norte presentes no disco, Ricardo prefere ampliar a geografia da pergunta. “Eu expandiria essas referências para além do Norte do Brasil, considerando a Amazônia como um todo”, afirma.
Nesse mapa musical aparecem toada, carimbó, marambiré e marabaixo, mas também cúmbia, porro e gêneros sincopados da América Central. “Essas referências raramente são explícitas, mas nós sabemos que elas estão lá”, explica.
Uma distinção importante para compreender Verão: O álbum não procura reproduzir ritmos amazônicos de maneira necessariamente reconhecível ou transformá-los em citações. Eles aparecem incorporados à linguagem musical construída pelo quarteto, misturados às muitas outras referências acumuladas por Ricardo e pelos demais integrantes.
Até os títulos das músicas ajudam a desenhar essa paisagem. Guajará, Feira, Banguiê, Vazante, Vento de Chuva e Flor no Cabelo, ao lado da enigmática 82, formam um vocabulário que remete a lugares, movimentos, imagens e experiências, sem que o disco precise se apresentar como um retrato literal da região.
Prêmio e gravação
A gravação de Verão foi viabilizada a partir da seleção do projeto “Verão – Ricardo Smith Quarteto” no edital O Som das Cidades 2, da Lei Paulo Gustavo no Pará. Para Ricardo, políticas de financiamento como essa têm importância ainda maior em trabalhos instrumentais que dependem da captação acústica dos instrumentos.
“Esse tipo de apoio é fundamental para se produzir música, principalmente nesse nicho, onde os instrumentos precisam ser gravados acusticamente, o que eleva consideravelmente a necessidade de recursos e, consequentemente, financeiros”, afirma Smith.
A produção foi dividida entre diferentes espaços. Bateria e percussão foram registradas por Thiago Albuquerque, no Studio Z. Ricardo e Caco gravaram violões e baixos em seus home studios. O próprio Ricardo participou diretamente da edição e da mixagem das faixas, compartilhando as decisões com os companheiros de banda. A fotografia utilizada na capa é de Fernando Sette.


