Exposição Amazônia: a arte e o real das comunidades indígenas pelas lentes de Sebastião Salgado

A exposição “Amazônia”, de Sebastião Salgado, recebeu uma visita ilustre no último sábado, 15, reunindo cinema, fotografia, imersões e impressões sobre como as mudanças climáticas que afetam comunidades indígenas no Brasil e no mundo.

A programação, no Museu das Amazônias, teve início com um bate papo que reuniu representantes da comunidade Ashaninka,  entre eles Teyãko Piyãko, que na abertura entoou uma composição à capela que fala sobre temas de saudade e alegrias.

Durante a visita guiada na exposição, o líder indígena acreano, contou que o fotógrafo Sebastião Salgado montou um estúdio na aldeia Ashaninka para registrar as obras que hoje correm o mundo e impressionam pela beleza e fidelidade ao modo de vivência dos povos originários retratados.

Foto: Luciana Medeiros/Holofote Virtual

“Que bom que temos a palavra da arte e da ciência em consonância ao que já praticamos e alertamos há muito tempo. Não podemos guardar informação, ela tem que ir para a juventude em todos os cantos do mundo, levar a voz da aldeia como um movimento global para proteger a nossa casa, o nosso planeta.”, enfatizou o líder acreano.

Francisco Piyãko explica que, mesmo demarcadas, as terras indígenas e outros sítios sagrados ainda sofrem ameaças de estradas madeireiras, mineradoras, agronegócio e outras tentativas de invasão. Para isso, foi criada a Comissão Fronteiriça, que reúne 14 etnias e elabora Mapas Temáticos para conter o avanço das ameaças externas.

Durante a visita na exposição, Piyãko respondeu que a maioria das fotos são de parentes, com destaque para a foto registrada que tem como cenário uma grande samaumeira e que reúne esposa, filhos, primos e netos juntos com aquela que é considerada árvore da vida amazônica.

Antônio Nóbrega, cientista ambiental. Foto: Luciana Medeiros

De acordo com o cientista Antônio Nobre, que também participou da programação no Museu das Amazônias, a mudança climática afeta diretamente as comunidades indígenas quando temos secas prolongadas, e consequentemente não se tem água e a floresta começa a secar.

“Os rios secam e não se pode pescar, pois não tem como usar a canoa para locomoção e as caças, antes disponíveis, morrem. Aquecimento com bolhas de calor afeta a saúde, prejudica as plantas e com pouca vegetação, menos nuvens, pouca chuva. É um círculo vicioso. Uma catástrofe. Daí, a importância dos indígenas manterem a floresta em pé”, avisa.

Nobre lembra que o alerta sobre o desastre climático vem sendo divulgado, segundo dados da comunidade científica, há pelo menos 200 anos, e sobre a importância da arte como elemento transformador para o bem estar ambiental da sociedade, o cientista defende a necessidade de explorar outros graus de cognição, ir além da compreensão do mundo pelo intelecto.

Para o cientista, existe outra dimensão que denomina de cognição amorosa, a qual toca o coração e desperta emoções. Não é um discurso religioso e sim um fato cientifico a constatação que toda a compreensão epidérmica, emocional e anímica está relacionada com o coração e não com o intelecto.

“E é aí que entra a arte, a poesia, a literatura, pela possibilidade de acessar impressões criativas, sensoriais. Na fotografia de Sebastião Salgado, o que está por trás desse olhar, tem vivência, tem drama. Salgado captou o emocional com toda a sensibilidade que lhe é peculiar”, ensina.

Visita mediada pelos indígenas. Foto: Luciana Medeiros/Holofote Virtual

Ashaninka

A etnia Ashaninka é um dos maiores povos indígenas da Amazônia sul-ocidental. Eles vivem principalmente no Peru e oeste do Brasil, especialmente no Acre, onde praticam agricultura de subsistência cultivando mandioca, milho, banana e outros produtos, além de caça e pesca.

A vestimenta tradicional é chamada kushma, feita de algodão tingido com corantes naturais, usada tanto por homens quanto por mulheres. É feita de algodão cultivado, fiado e tingido artesanalmente, possuindo um grande valor cultural. A espiritualidade é centrada na relação com a floresta. Nos dias atuais sofrem com os impactos de exploração florestal, tráfico de drogas e ameaças territoriais vindas de países estrangeiros.

Além da comunidade Ashaninka, as lentes de Sebastião Salgado revelam outras tribos amazônicas como Yanomami, Yawanawa Suruwahá, Awá-Guajá, entre outras.

“Amazônia” documentou a rotina, os costumes e o modo de viver desses povos numa vivência sensorial em mais de 200 fotografias e sete vídeos com depoimentos de lideranças indígenas, com trilha original de Maurice Jarre elaborada a partir dos sons da floresta.

A exposição tem patrocínio Global Master da Zurich Seguros, patrocínio Master do BNDES e do Fundo Amazônia e patrocínio Ouro do Itaú. A produção é da Maré Produções. O projeto conta com apoio institucional da Ernst & Young e do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), além de parceria institucional do Museu das Amazônias, do Museu Goeldi e do Governo do Pará.

A realização é do Ministério do Turismo e Esporte, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Serviço

Exposição: Amazônia – Sebastião Salgado
Local: Museu das Amazônias. Endereço: Armazém 4A, Complexo do Porto Futuro II
Funcionamento: quinta a terça-feira, das 10h às 18h (última entrada às 17h). Fechado às quartas-feiras para manutenção. Entrada gratuita até 8 de fevereiro de 2026.

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