É arquitetura e muito mais para ver, sentir e se inspirar. A Casa Liv abre apostando na diversidade de projetos e em experiências que vão da gastronomia às artes visuais. A visitação pública começou nesta quarta-feira, 21 de outubro, e segue até 22 de dezembro.
Uma suíte revisita memórias de família, um gabinete é dedicado à contemplação da arte, um quarto que também funciona como loja e o reencontro com a antiga Taberna São Jorge, lugar que marcou a vida cultural e boêmia de Belém.
Na terça, 20, antes de abrir ao público, estivemos na Casa Liv, que recebeu jornalistas e convidados para apresentar o projeto e abrir o espaço para uma visitação inaugural.
Instalada na antiga sede da construtora Leal Moreira, na esquina da Rua João Balbi com a avenida Visconde de Souza Franco, a mostra reúne tendências da arquitetura, ocupando mais de dois mil metros quadrados, envolvendo 50 profissionais em mais de 40 ambientes.
O percurso nos revelou que, para além das tendências de decoração e das soluções de mercado, há projetos interessados em estabelecer relações da arquitetura com a memória, a identidade e as diferentes maneiras de habitar os espaços.

Idealizador da Casa Liv, André Moreira destacou a importância de retomar um evento desse porte em Belém, após um intervalo de mais de uma década sem uma grande mostra de arquitetura e decoração. A proposta, explicou, é movimentar o setor, dar visibilidade aos profissionais e criar oportunidades de negócios.
“É decoração e arquitetura. É arte, é música, mas acima de tudo é networking. É um grande negócio”, afirmou.
A gestora Ana Paula Guedes ressaltou o trabalho coletivo que mobilizou profissionais, fornecedores, patrocinadores e equipes de produção desde fevereiro. A expectativa, de acordo com os organizadoras, é que a Casa Liv funcione também como espaço de encontros, com uma programação capaz de estimular o público a retornar ao longo da temporada.

Diferentes maneiras de pensar os espaços
A diversidade aparece tanto nas propostas de uso quanto nas linguagens escolhidas pelos participantes. Há ambientes residenciais, espaços comerciais, intervenções artísticas, paisagismo e experiências gastronômicas.
Entre os projetos estão o Studio Negroni 91, do Estúdio Bohho, com a participação dos arquitetos Luiz Rabelo e Yuri Rebello e a Casa das Ilhas, de Maíra Cavalca, inspirada nas referências do morar amazônico, entre outras propostas distintas, que ajudam a revelar a variedade de experiências reunidas na mostra.
A presença das artes visuais, por exemplo, atravessa vários ambientes, seja por meio de obras incorporadas aos projetos, seja em espaços concebidos especialmente para a contemplação e a convivência.

Arquitetura, Taberna São Jorge e boemia
Entre as experiências da Casa Liv, uma delas tem sabor de reencontro. A fotógrafa Walda Marques revive a Taberna São Jorge, que abriu em 2005, na Cidade Velha, e se tornou um dos lugares de encontro da cena artística e cultural de Belém.
A antiga taberna começou com uma proposta modesta, mas ganhou uma dimensão que surpreendeu até sua criadora.
“A gente abriu numa proposta de fazer uma lanchonete. E, de repente, quando eu vi, ela era uma coisa superconhecida no Brasil”, contou Walda, emocionada com o convite para revisitar essa história.
A releitura do espaço na Casa Liv tem projeto do designer Ugo Garcia e direção de arte de Walda. O balcão, as cores e a atmosfera recuperam referências do antigo estabelecimento, agora reinterpretadas por alguém que também conheceu a Taberna como frequentador, “ainda criança”, conta Walda.
A fotografia, naturalmente, não ficou de fora. Walda contou que a ideia de incorporar uma exposição surgiu durante a concepção do projeto.
A experiência recupera a memória de uma época que encontrou naquele espaço um lugar de convivência, circulação de artistas e encontros entre diferentes gerações.
Perguntei pra Walda sobre a possibilidade de a Taberna São Jorge voltar definitivamente à cidade, e ganhei um spoiler. “Vai voltar. Eu tô querendo, ué”, disse Walda.

O que guardam os espaços
Na suíte Herança Viva, a arquiteta Thaís Dias propõe um encontro entre referências clássicas e escolhas contemporâneas. O ambiente reúne cores, estampas e objetos que remetem às lembranças de família e às experiências acumuladas ao longo da vida.
“Eu trouxe todas as premissas do clássico, mas um clássico revisitado, com algumas pitadas mais contemporâneas”, explicou.
Thaís quis também contrariar a tendência de ambientes excessivamente neutros e mostrar que diferentes cores e estampas podem conviver de maneira harmoniosa.
A arte ocupa um lugar importante no projeto. A arquiteta convidou Paulo Morelli, o Paulinho, para realizar a curadoria das obras, incluindo desenhos da nova safra criativa do artista plástico Simões; e trabalhos de outros artistas.
A escolha reforça o conceito de herança que atravessa o ambiente: não apenas aquilo que recebemos materialmente, mas também referências estéticas, afetivas e culturais que permanecem conosco.

“A Casa Liv é um momento pra gente poder mostrar o nosso trabalho, mostrar as nossas raízes, nossas origens. É um palco pra gente poder fazer tudo isso”, afirmou Thaís.
A relação entre arte, memória e arquitetura também aparece no Gabinete do Colecionador, ambiente apresentado pela arquiteta Thaís Toscano.
Concebido como um lugar de reflexão e contemplação, o gabinete reúne obras de arte numa composição que sugere histórias.
Durante a visita, a conversa também levantou umas questão: a arquitetura e decoração ainda são serviços restritos a quem pode pagar por ele?
Para Thaís Toscano, iniciativas como a Casa Liv ajudam a ampliar a visibilidade do trabalho dos profissionais, mas a qualidade de um projeto não deveria ser medida apenas pelo investimento financeiro.
“Eu acho que a arquitetura não pode estar vinculada a dinheiro. A boa arquitetura é uma arquitetura de conteúdo, uma arquitetura que tenha um engajamento com o cliente”, afirmou.
Pertinente. Num evento que reúne projetos sofisticados e marcas do setor, interessa também aproximar a arquitetura do público e isso requer discutir como alcançar diferentes realidades e necessidades.

Em outro andar da mostra encontrei uma experiência que aproxima arquitetura e moda. A Suíte da Investidora, assinada pela arquiteta Ana Cláudia Peres, da Mais Arquitetura, e pela designer de interiores Verena Morais, incorpora uma operação comercial ao próprio ambiente.
A proposta parte da imagem de uma mulher contemporânea e empreendedora, traduzida em escolhas de mobiliário, cores e objetos que combinam elegância e funcionalidade.
A empresária Roberta Pereira, proprietária da loja My Rob, que funciona no espaço, contou que a arquitetura sempre esteve presente em suas escolhas profissionais, inclusive na maneira de apresentar e selecionar peças de vestuário.
“Eu sempre fui apaixonada por arquitetura desde o início da loja. Sempre pontuei o quanto gosto do design e da arquitetura e o quanto trago isso também para o meu dia a dia”, disse.

Arquitetura em movimento
A programação cultural é uma das apostas da Casa Liv. André Moreira apresentou o conceito de “experiência viva”, pensado para estimular o público a frequentar a mostra mais de uma vez e acompanhar atividades que acontecerão ao longo da temporada.
Na coletiva, foram anunciados que 107 eventos estão previstos, incluindo iniciativas dos profissionais e patrocinadores. A agenda deverá ter shows no Clube Secreto, dois leilões de arte e uma premiação para os projetos participantes.
Mas os organizadores preferiram guardar parte das novidades. A programação completa, com atrações e datas, será anunciada gradualmente nas redes sociais.
A gastronomia também integra a experiência, com operações criadas ou adaptadas para a mostra, entre elas, além da Taberna São Jorge, o restaurante Roya, o espaço Ver-o-Pesinho e o Bistrô Doçuras.
A dimensão comercial é evidente, mas o percurso pelos ambientes revela outras possibilidades. Foi esrimulante percorrer os ambientes e é claro que muita coisa deve ter passado despercebido numa primeira visita.
Numa Belém de intensa produção criativa, a arquitetura encontra aí uma oportunidade de dialogar com outras linguagens e públicos.

Anota!
Casa Liv — Mostra de arquitetura, design, arte e cultura
Local: Rua João Balbi, 167, esquina com a avenida Visconde de Souza Franco (Doca), Belém.
Visitação: de 21 de outubro a 22 de dezembro de 2026.
Horário divulgado pela organização: diariamente, das 17h às 22h, com funcionamento estendido das operações gastronômicas e do Clube Secreto de quinta a sábado, conforme programação.
Ingresso/passaporte: R$ 190, com acesso ilimitado durante a temporada. Valor promocional de R$ 95 mediante cadastro e cumprimento das condições divulgadas pela organização. Meia-entrada legal de R$ 95 para os públicos previstos em lei.
Informações e ingressos: www.portalliv.com/casaliv e Instagram @casaliv_.

