Cena musical perde Edvaldo Souza, o Azul, criador do MúsicaParaense.Org

A música paraense perdeu nesta madrugada um de seus mais persistentes articuladores.  Edvaldo Pinto Pereira de Souza, o Azul, partiu de repente nesta madrugada.

Produtor, pesquisador, curador e criador do MúsicaParaense.Org, passou boa parte da vida ouvindo, reunindo, produzindo e fazendo circular a música paraense.

Azul era parceiro e um amigo que conhecia a cena por dentro, seus artistas, discos, histórias e caminhos. E fez desse conhecimento um trabalho de memória que hoje pertence à própria história da música feita no Pará.

O Holofote presta sua homenagem a Edvaldo Souza e conta um pouco dessa trajetória.

Criado por ele em 1998, o MúsicaParaense.Org nasceu do seu interesse pela música autoral produzida no Pará e cresceu até se transformar em acervo, banco de dados e fonte de pesquisa.

Azul mergulhou na memória e no presente, ia mapeando a música paraense enquanto ela acontecia. São mais de 5 mil títulos digitalizados, atravessando diferentes gêneros e períodos, com presença importante da produção das décadas de 1970 e 1980 e do rock paraense dos anos 1990 e 2000.

Era uma época muito diferente da atual. Não havia streaming organizando catálogos, redes sociais entregando lançamentos ou plataformas nas quais fosse possível procurar imediatamente um artista. Muito do que se produzia aqui circulava precariamente, desaparecia com o fim de uma tiragem, ficava guardado em LPs, fitas, CDs, arquivos pessoais.

Musica Paraense.org faz 25 anos
Uma das noites da Mostra MúsicaParaense.Org, em 2023

Acervo e mapeamento da Música Paraense

Azul foi juntando as coisas, pesquisando, reunindo. Catalogou discos, digitalizou obras, reuniu informações e disponibilizou aquilo que podia ser disponibilizado. No início foi uma forma de fazer a música daqui chegar aos amigos e a pessoas de fora do Pará passou a ser procurado por estudiosos e pesquisadores interessados em carimbó, lambada, brega, rock e outras vertentes da produção musical paraense.

O MúsicaParaense.Org tornou-se endereço na internet e ferramenta de memória, mas a trajetória de seu criador nesta cadeia produtiva foi alem. Azul produzia artistas, elaborava e executava projetos, fazia curadoria, articulava músicos e profissionais, pensava circulação e intercâmbio.

À frente da Realizador Cultural, trabalhou com projetos financiados por mecanismos municipais, estaduais e nacionais de incentivo à cultura.

Sua trajetória registra trabalhos com artistas como Joãozinho Gomes, Pio Lobato, Everton MC, Sônia Nascimento, Antônio de Oliveira, Bruno BO, Guitarrada das Manas, Afonso Cappelo, Felipe Cordeiro, Ney Conceição, Ramon Rivera, Dayse Addario, Ziza Padilha & Zarabatana Jazz Band entre outros.

Música paraense em festa
Nos 25 anos do MúsicaParaense.Org. Fotos: Carol Cardias

Música, paixão e produção

Azul sempre falou da necessidade de intercâmbio entre músicos, produtores, agentes, bookers e profissionais da cadeia musical amazônica. Não pensava na música de forma isolada, ele queria fazer tudo circular.

No projeto “Clássico dos Clássicos”, por exemplo, ele dividiu com Ney Conceição a curadoria de um repertório que retomava compositores e canções guardados na memória afetiva de diferentes gerações.

Em 2012, ele esteve nos bastidores da produção do DVD Mestre Vieira 50 Anos de Guitarrada, gravado no Theatro da Paz. Essa  aproximação nos levou a outros trabalhos

Em 2023, quando o MúsicaParaense.Org completou 25 anos, ele me convidou para divulgar a mostra que celebrou essa história, reunindo apresentações e diferentes vertentes da música feita no Pará.

Com Taca Nunes e Edson, na Casa Apoena em noote dos 25 anos. Fotos: Carol Cardia

Música e museologia

Nos últimos anos, foi muito interessante ver também seu movimento, junto com esse interesse pela memória, ganhar uma nova dimensão. Azul estudou Museologia na Universidade Federal do Pará e levou para a universidade questões que, de alguma maneira, já atravessavam sua prática havia décadas: acervo, preservação, patrimônio, cultura popular.

Impossível medir agora tudo o que passou por suas mãos e mente. Foram mais de duas décadas dizendo, por meio do seu trabalho, que a música produzida no Pará precisava ser ouvida, conhecida, registrada e preservada.

Diante de sua partida tão inesperada, o MúsicaParaense.Org ganha novo significado. Azul guardou parte da memória da música paraense. E agora essa memória guarda também a passagem dele por aqui. É seu legado.

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