Os integrantes do Urban Sketchers resolveram celebrar o mês que valoriza o patrimônio cultural brasileiro. Levaram cadernos, lápis de cor e aquarela para desenhar a fachada do Palácio Lauro Sodré, no último domingo (2), na 62ª edição do Circular Campina Cidade Velha. Depois, a ideia era visitar o Museu de Arte de Belém…
Para decepção de artistas, moradores e turistas que saíram de suas casas para dar um rolê pelo patrimônio da cidade, o MABE estava fechado. Ao tomarem conehcimento da situação, os jovens artistas aderiram ao movimento O MABE Pede Socorro. Em defesa do patrimônio, os primeiros traços começaram a surgir ainda no início da manhã.
Espalhados pela Praça Dom Pedro II, artistas observavam atentamente colunas, janelas, sacadas e ornamentos do Palácio Lauro Sodré, um dos edifícios mais emblemáticos do Centro Histórico de Belém. Já o MABE, com um acervo de mais de 2 mil obras, permanecia inacessível.
“Eu já tinha combinado com meu namorado que a gente ia entrar depois”, contou a engenheira agrônoma Evilly, de 24 anos, que já conhecia o museu. “Foi uma visita muito especial. Achei que seria uma oportunidade de desenhar aqui fora e depois entrar para entender um pouco mais da cultura.”
A estudante de Arquitetura Camila Neiva, de 24 anos, também imaginava conhecer o espaço por dentro. “Eu não sabia que ele estava fechado. Achei que a gente ia fazer os desenhos lá dentro.”
Ao seu lado, a colega Brenda Rodrigues refletia sobre o impacto que o fechamento provoca justamente na relação das pessoas com o patrimônio. “Quanto mais a gente conhece um lugar, mais cria apreço por ele. Eu só estou sabendo dessa situação agora.”

Para o estudante de Engenharia Ambiental Eric Sérgio, de 23 anos, cada desenho também registra uma história. “Sempre gostei de desenhar desde criança. Para mim, desenhar é registrar esses momentos, prestar atenção nas pessoas, nos sons, no ambiente. Eu consigo contar histórias através do desenho.”
Quem já havia visitado o museu lamentou ainda mais o fechamento. O estudante de Odontologia Artur Brilha, de 20 anos, lembrou das esculturas, fotografias e detalhes arquitetônicos que conheceu em uma visita anterior. “É triste saber que ele está fechado. Hoje seria uma ótima oportunidade para outras pessoas conhecerem esse patrimônio.”
A psicóloga Eliene, frequentadora das atividades culturais realizadas no Centro Histórico, destacou que o acesso aos museus vai além da contemplação artística. “Assim como a gente viaja para conhecer a cultura de outras cidades, primeiro precisa conhecer a nossa. Tenho uma neta de dez anos e faço questão de levá-la para esses espaços. Como ela vai conhecer a nossa cultura se a gente não viver essa cultura?”
Entre os desenhistas, a arquiteta e urbanista aposentada Vera Lima, integrante do Urban Sketchers Belém, lembrou que o próprio edifício faz parte da memória da cidade. “É um absurdo. O MABE guarda um patrimônio da nossa cidade. Como arquitetura, ele é um prédio fantástico.”

Turistas encontram patrimônio fechado
A surpresa não ficou restrita aos participantes do Urban Sketchers. A estudante de Nutrição Maira, moradora de Ananindeua, contou que decidiu passar o domingo no Centro Histórico depois de acompanhar, pelas redes sociais, as imagens do prédio restaurado.
“Eu vim justamente para conhecer o museu. Vi que ele tinha ficado bonito depois da reforma, mas, infelizmente, está fechado.”
Poucos minutos depois, outra visitante se aproximava da movimentação. Vinda de São Paulo com o marido para conhecer o patrimônio histórico de Belém, Lígia Gonçalves incluiu o MABE no roteiro da viagem, mas encontrou apenas as portas fechadas. “A gente veio conhecer o museu e, para a nossa infelicidade, ele está fechado.”
Ao conversar com integrantes da mobilização, o casal conheceu a programação do Circular Campina Cidade Velha e decidiu seguir o roteiro por outros espaços históricos que permaneciam abertos naquele domingo.

Um debate que vai além do MABE
O fechamento do museu ocorreu após denúncias de artistas e funcionários do museu, provocando o surgimento do movimento O MABE Pede Socorro, criado por artistas, arquitetos, pesquisadores, museólogos, ex-diretores e profissionais da cultura para chamar atenção para a situação do Museu de Arte de Belém e defender medidas que garantam sua preservação e funcionamento.
Segundo integrantes do movimento, apesar de reuniões internas realizadas pela Prefeitura após o início das manifestações, ainda não foram apresentadas respostas ou medidas concretas capazes de enfrentar os problemas apontados pelos profissionais da área. A situação do Museu de Arte de Belém não é um caso isolado. O Museu Casa Francisco Bolonha, instalado no Palacete Bolonha, também está fechado.
Um relatório elaborado pelo museólogo João Polaro aponta a redução da equipe técnica, alterações na ocupação de espaços destinados às atividades museológicas, problemas de climatização, infiltrações e recomendações para a recomposição da estrutura administrativa e técnica da instituição.
Já o Cine Olympia, em obras de restauração, está com destino ainda incerto. Já foram dadas várias previsões de entrega; a última era para agosto, mas informações de fontes ouvidas pela reportagem indicam que a reabertura deverá ficar mesmo para 2027. O que ainda não se tem são informações sobre o modelo de gestão, a equipe técnica, a programação ou a sustentabilidade do espaço.

Desde o início da atual gestão, a Secretaria Municipal de Cultura passou por sucessivas trocas de comando. Depois de Cilene Sabino (que assumiu o Turismo) e Raphaela Segadilha, atualmente a pasta é dirigida por Michell Mendes Durans da Silva, advogado, bacharel em Direito pela Universidade da Amazônia (Unama), ex-secretário de Estado de Justiça, ex-secretário estadual de Administração Penitenciária e ex-vereador de Belém.
Sem retornos da prefeitura
A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Belém, para que se pronunciasse sobre a situação do Museu de Arte de Belém, do Museu Casa Francisco Bolonha e do Cine Olympia, mas não teve retorno.


