Manoel Cordeiro chega aos 71 anos com baile e a mesma inquietação criativa que o acompanha desde menino. E, como não poderia deixar de ser, vai comemorar fazendo música, reunindo amigos e colocando todo mundo para dançar.
Com 59 anos de trajetória, o mestre da música amazônica comemora aniversário neste domingo, 8, na Casa Apoena, em Belém, cercado de artistas de diferentes gerações. O “Baile do Papai – Especial” começa às 16h.
A festa será uma edição especial do já conhecido “Baile do Papai”, que o guitarrista, compositor, multi-instrumentista e produtor musical costuma realizar em Belém e São Paulo, misturando guitarrada, lambada, brega, cúmbia, carimbó, zouk e outros ritmos que fazem parte de seu universo musical.
Estão confirmadas as participações do Clube da Guitarrada, Lambada Social Clube, Alba Mariah, Nayara Guedes, Aíla, Júlia Passos, Natália Matos e DJ Nat Esquema. Do Marajó, chega o irmão Stélio Cordeiro, vindo de Breves, acompanhado da cantora Vânia Gleice.
Aos 71 anos, dos quais 59 dedicados à música, Manoel tem muito a celebrar. Mas quem acompanha sua trajetória sabe que ele está longe de viver apenas das conquistas acumuladas. Sua produção segue intensa, entre discos, shows, encontros musicais, masterclasses e palestras pelo Brasil e no exterior. Com o projeto “MPB feita na Amazônia”, defende a diversidade e a riqueza da produção musical amazônica, aproximando suas matrizes tradicionais das experiências contemporâneas.
É também um artista que não perdeu a curiosidade pelo novo. Ao contrário, segue dialogando com músicos de diferentes gerações, experimentando sonoridades e defendendo a potência criativa da Amazônia.
“Chego aos 71 anos com o sentimento de já ter contribuído muito no trabalho de vários artistas, mas com a clareza de que ainda quero fazer muito mais. As múltiplas vertentes da música amazônica geram infinitas possibilidades que precisam ser exploradas o quanto possível”, diz o mestre.

Manoel Cordeiro inicia essa história no Marajó
Para compreender a dimensão musical de Manoel Cordeiro, é preciso voltar às suas origens. Nascido em Ponta de Pedras, no arquipélago do Marajó, e criado em Macapá, no Amapá, ele cresceu em uma família na qual a música fazia parte do cotidiano.
Neto do maestro Manoel Firmino, conhecido como “Mané Mestre”, Manoel é o mais velho dos seis filhos de Raimundo e Jubertina Cordeiro, comerciantes e também músicos. O pai dominava vários instrumentos; a mãe tocava cavaquinho e participava diretamente de sua formação musical.
“O papai tocava violão, banjo, bandolim, violino… tocava tudo! Ele ensinou o Adamor do Bandolim. E a minha mãe tocava cavaquinho e afinava o violão pra mim”, recorda.
A estreia artística aconteceu aos 12 anos, no programa Mini Gente, da Rádio Educadora, em Macapá. Aos 18, mudou-se para Belém disposto a seguir a carreira musical. A vida, entretanto, lhe reservou outros compromissos. Aprovado em concurso público, trabalhou durante dez anos como bancário. Nesse período, enfrentou a perda da mãe e assumiu responsabilidades na criação dos irmãos.
A música, porém, nunca deixou de ser seu caminho. Quando voltou a se dedicar integralmente a ela, encontrou um campo fértil para desenvolver uma carreira que atravessaria décadas e ajudaria a projetar a sonoridade amazônica para além de suas fronteiras.

Baile nas pistas e grandes palcos
A trajetória de Manoel Cordeiro se confunde com momentos importantes da indústria fonográfica produzida na Amazônia. Como guitarrista, compositor, arranjador e produtor, participou da construção de uma sonoridade que ganhou as rádios, as pistas de dança e o mercado nacional e internacional.
Estima-se que tenha produzido cerca de mil álbuns ao longo da carreira. Entre eles, estão trabalhos que marcaram diferentes momentos da música popular, como os sucessos de Beto Barbosa durante a explosão da lambada, os hits da banda Warilou — especialmente “Luz do Mundo”, parceria com Ronery — e “Tic Tic Tac”, da banda amazonense Carrapicho, que conquistou públicos em vários países.
Sua assinatura também aparece em produções de artistas de outras vertentes. É o caso de Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso, de Fafá de Belém, vencedor do Prêmio da Música Brasileira nas categorias Melhor Álbum, em 2016, e Melhor DVD, em 2017. Outro destaque é No Embalo do Pinduca, indicado ao Grammy Latino em 2017.
A circulação entre gêneros, artistas e gerações é uma das marcas. Manoel transita com desenvoltura entre a música de baile, a canção popular e as experimentações contemporâneas, sem perder a conexão com as matrizes musicais amazônicas.
Ao lado do filho Felipe Cordeiro, também ampliou sua presença em grandes eventos e palcos, com participações na Copa da Rússia, em 2018, no Rock in Rio, em 2019, no The Town e no Tiny Desk Brasil, ambos em 2025.
O reconhecimento institucional veio em 2025, quando sua obra musical foi declarada patrimônio cultural imaterial do estado do Pará, por meio da Lei nº 11.180. No mesmo ano, realizou a “Ocupação Manoel Cordeiro”, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com incentivo da Fundação Nacional de Artes (Funarte), e recebeu indicação ao Prêmio BTG Factual de Melhor Álbum por Estado de Espírito, trabalho em parceria com Beto Barreto, do BaianaSystem, e Pupilo, da Nação Zumbi.

Aos 71, novos caminhos para a música amazônica
Se o passado é de realizações, o presente de Manoel Cordeiro continua movimentado. Em 2026, participou do Ano Cultural Brasil-China, em Xangai, ao lado de Felipe Cordeiro, a convite do Ministério da Cultura. Uma oportunidade de levar a música produzida na Amazônia a outros públicos e reafirmar seu lugar na diversidade musical brasileira.
Também neste ano, lançou o quarto álbum solo, Te Dou um Norte, coproduzido com Gustavo Ruiz. O disco reúne participações de Patrícia Bastos, Keila Gentil, Lia Sophia, Emília Monteiro, Luiz Pardal, Fernando Catatau, Igor Capela e Lambada de Serpente.
O trabalho reafirma uma característica que acompanha Manoel desde os primeiros passos: a disposição para criar coletivamente, estabelecer conexões e descobrir novos caminhos para a música.
É esse artista, que ajudou a construir parte importante da memória sonora amazônica e continua atento ao que ainda pode surgir, que sobe ao palco da Casa Apoena neste domingo.
Depois de tantas décadas produzindo discos, formando parcerias e levando a música amazônica a outros territórios, Manoel Cordeiro celebra a vida exatamente onde essa história também se alimenta: no encontro entre músicos e público, com os ritmos que fazem todo mundo dançar.
Parabéns, Manoel Cordeiro, muita luz do mundo – céu e terra! Que a música siga te guiando. Para celebrar fizemos uma seleção de matérias publicadas no Holofote Virtual sobre e com o músico.
Manoel Cordeiro no Holofote Virtual
E tu, anota!
Baile do Papai – Especial | Aniversário de Manoel Cordeiro
Neste domingo, 8, a partir das 16h, na Casa Apoena – Rua São Boaventura, 171, Cidade Velha, Belém. Participações: Clube da Guitarrada, Lambada Social Clube, Alba Mariah, Nayara Guedes, Aíla, Júlia Passos, Natália Matos, DJ Nat Esquema, Stélio Cordeiro e Vânia Gleice. Ingressos: antecipados pelo Sympla, com primeiro lote anunciado a R$ 25.
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