A conversa ainda não terminou e “A Última sessão de Freud” está de volta no Theatro da Paz

Um ano depois da primeira temporada na cidade, “A Última Sessão de Freud” retorna ao Theatro da Paz com Odilon Wagner e Marcello Airoldi, interpretando dois grandes personagens do século XX. A peça propõe algo cada vez mais difícil fora do palco: ouvir quem pensa diferente.

O espetáculo faz nova e curta temporada, nesta sexta-feira (21), sábado (22) e domingo (23), sob direção de Elias Andreato.

A dramaturgia parte de uma provocação: e se Sigmund Freud, um dos mais conhecidos críticos da religião, tivesse recebido em seu gabinete C.S. Lewis, o escritor e intelectual que deixou o ateísmo e se tornou um dos grandes defensores do cristianismo no século XX?

De um lado está Freud, vivido por Odilon Wagner, já aos 83 anos, doente e exilado em Londres depois de fugir da perseguição nazista. Do outro, o professor de Oxford C.S. Lewis, interpretado por Marcello Airoldi, ainda distante da fama mundial que alcançaria como autor de “As Crônicas de Nárnia”.

É 1939. A Inglaterra está entrando na Segunda Guerra Mundial. Enquanto os dois discutem a existência de Deus, a possibilidade de um bombardeio alemão sobre Londres paira do lado de fora.

A conversa rapidamente alcança o medo, a dor, a sexualidade, a morte, os afetos e as contradições daqueles dois homens. E aquilo que poderia virar uma palestra filosófica ganha humor, ironia, impaciência, silêncio e humanidade.

Fredu e C.S. Lews - a última sessão
Foto: João Caldas

Será que Freud explica?

“A Última Sessão de Freud” já ultrapassou 420 apresentações e 180 mil espectadores. Passou três vezes por diferentes cidades brasileiras e continua renovando temporadas. Os números explicam apenas uma parte dessa permanência.

ADurante 90 minutos, dois homens que enxergam o mundo de maneiras quase inconciliáveis permanecem no mesmo cômodo. Eles discordam. Provocam. Ironizam. Às vezes se irritam. Tentam desmontar o argumento do outro. Mas continuam conversando.

“Essa peça é um elogio ao diálogo, tão necessário em nossos tempos”, define Odilon Wagner. Depois de quatro anos interpretando Freud, o ator diz sair do palco cada vez mais convencido de que é possível conviver com quem pensa diferente.

Em tempos de conversas interrompidas pela primeira discordância, certezas alimentadas por algoritmos e opiniões cada vez mais confinadas entre semelhantes, talvez assistir novamente a Freud e Lewis tenha adquirido um significado que a própria montagem não precisava carregar quando estreou.

Não se trata de descobrir quem vence. Aliás, quem entrar no Theatro da Paz esperando sair com a resposta definitiva sobre Deus provavelmente escolheu a sessão errada. A graça está justamente na dúvida. A palavra continua no centro do palco. Elias Andreato construiu a encenação para que nada se sobreponha ao embate entre os personagens.

Foto: João Caldas

Ao redor dela, o cenário e os figurinos de Fábio Namatame recriam o gabinete londrino de Freud. É naquele espaço — cercado por livros, objetos, antiguidades e pela memória de uma vida inteira dedicada a investigar a mente humana — que Odilon Wagner compõe um Freud distante da caricatura do velho senhor de barba branca e charuto.

Há fragilidade naquele homem. Há doença, medo e proximidade da morte. Mas permanece também a inteligência feroz que fez dele um dos pensadores mais influentes do século XX. A Lewis cabe enfrentá-lo.

Marcello Airoldi faz isso sem transformar o escritor em simples contraponto religioso. Há humor e leveza na composição, mas também a firmeza de alguém disposto a sustentar suas convicções diante de um interlocutor nada fácil.

ANOTA!

A Última Sessão de Freud, de Mark St. Germain
Quando: 21, 22 e 23 de agosto de 2026
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde: Theatro da Paz – Praça da República, Belém
Ingressos: de R$ 30 a R$ 180
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
Patrocínio: Banpará

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