Enquanto chovia lá fora, numa Belém úmida, neste início de ano, dentro da Escola de Teatro e Dança da UFPA o clima estava aquecido pelos últimos ensaios para a apresentação de “Ancestral – Sons da Floresta”, que abre, nesta quinta-feira, o XV Encontro Nacional e XV Colóquio Internacional do Corpo Freudiano, nesta quinta-feira, 5 de março, às 19h30, no Theatro da Paz.
O espetáculo reúne músicos e dançarinos que se sincronizam à projeção de imagens para evocar a ancestralidade amazônida, compondo uma obra interdisciplinar.
A professora Silvia Levy, diretora do Corpo Freudiano Belém e psicanalista com quarenta e cinco anos de carreira, explica que a escolha em abrir o encontro e o colóquio com arte foi intencional.
Ela conta que gostaria que esta edição superasse as dificuldades trazidas no pós-pandemia, período em que reunir pessoas se tornou um desafio. “Por isso, pensei que a abertura do XV Encontro precisaria ser algo que mobilizasse o público e dialogasse com o tema escolhido pela comissão: A ancestralidade em nós. Assim surgiu o convite para que a jornalista e diretora Luciana Medeiros criasse esse espetáculo para marcar esse início”.
A proposta, segundo ela, era criar uma abertura impactante, capaz de reunir a musicalidade da Amazônia em suas diferentes camadas, indo do erudito aos ritmos populares, dos tambores afro-indígenas aos sons da floresta, atravessando também a dança. A partir dessa ideia, formou-se o grupo de artistas que constrói a atmosfera ancestral que sustenta o espetáculo.
A jornalista e produtora diz que foi um desafio dirigir um espetáculo unindo diferentes núcleos criativos para construção de uma mesma narrativa. Ela explica que tudo partiu de um roteiro concebido a partir da ideia original da professora Silvia Levy, do Corpo Freudiano Belém.

“A partir dessa ideia estruturei um primeiro roteiro, tecendo as ideias principais do Corpo Freudiano em unir arte e psicanálise, tendo como fio condutor a música. A partir disso, sentimos necessidade de agregar o audiovisual e o corpo em cena, além da música ao vivo ou em trilha. O duo de piano se faz presente na abertura convidando-o ao mergulho que virá após subirmos as cortinas”, diz a diretora.
O piano assume a vertente erudita com o Duo Azulay, formado por Adriana e Humberto Azulay, pianistas especializados em música brasileira, com repertório que inclui compositores como Carlos Gomes, Waldemar Henrique e Altino Pimenta. Destacam-se pela execução do piano a quatro mãos.
Luciana Medeiros considera que o resultado é de um trabalho coletivo. “O roteiro foi ajustado nos ensaios, marcando entradas, transições e sobreposições entre as linguagens, ressaltando a expertise de cada um artista. Considero que essa é a ponta de lança para o sucesso do espetáculo. Esperamos proporcionar ao público uma noite imersiva, que atravesse o corpo, a música e as imagens”, conclui.

Ancestral em nós: sons, corpo e imagem
A música amazônica ganha força com o percussionista Márcio Jardim, que apresenta trechos de seu álbum Amazônia Ímpar (2021), nunca antes apresentado ao vivo, e com Albery Albuquerque, músico e pesquisador que incorpora à sua sonoridade os sons dos animais e da floresta. Ambas as obras serão coreografadas num espetáculo nos palcos paraenses.
“Esse ancestral em nós é traduzido na música com a vocalização dos animais e da floresta (de Albery Albuquerque) e com a ancestralidade dos tambores afro-indígenas da música do Márcio Jardim”, complementa o diretor musical Carlos Canhão Brito.
Ele diz que o maior desafio foi construir a obra do zero. “Inicialmente pensamos apenas como apresentação musical, mas a criação foi ganhando novas perspectivas. Surgiu a necessidade de integrar dança e visualidade para que o espetáculo dialogasse de forma mais profunda com o imaginário da ancestralidade amazônica”.
Isso se revela na direção cênica de Danilo Bracchi e na coreografia de Waldete Brito. As roupas trançadas remetem às redes, os cestos de palha evocam o cotidiano ribeirinho, e a movimentação coreográfica sugere o fluxo das águas, ora se afastando, ora se encontrando com força e fluidez, imagens que atravessam a imaginação da região Norte.
Ensaios e ajustes foram intensos, buscando a precisão necessária para uma apresentação à altura do Theatro da Paz. Larissa Chaves, do grupo Coreográfico Docente da UFPA, disse que a coreografia foi pensada para atingir o subconsciente do público.
“A gente parte de um lugar que não é uma Amazônia literal, é uma Amazônia encantada. E nessa encantaria, ela convida as pessoas a se colocarem no meio dos animais, da flora e da fauna de forma performática e metafórica. Então, esse subconsciente vem para captar o público e mergulhar nessas encantarias junto com a gente.”
Dessa forma, o subconsciente abordado pela psicanálise ganha materialidade no palco do Theatro da Paz. Além da música e da dança, o espetáculo contará com projeções de Nando Lima, do Estúdio Reator.

Conferências fecham a noite
Na mesma noite, o poeta, escritor e professor João de Jesus Paes Loureiro apresentará a conferência “O desfolhamento trágico”, abordando o imaginário e a linguística na Amazônia. Também participa o psicanalista Frédéric Vinot com a conferência “Antropoceno e Metamorfose do Real: Clínica Psicanalítica da Habitação Terrestre”, trazendo reflexões sobre arte, subjetividade e as transformações do habitar no mundo contemporâneo.
As escolas de psicanálise do Corpo Freudiano estão presentes em pelo menos vinte estados brasileiros e duas são internacionais. Esse encontro foi organizado pela primeira vez pelo psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge, no Rio de Janeiro, e, ao longo dos anos, ganhou força, passando a integrar as sessões de cada estado.
A programação vai até o dia 7 de março, com mesas e conferências online. As inscrições ainda podem ser feitas pelo site www.xvencontro.com.br. O objetivo, tanto do evento quanto desta abertura, é permitir que o conhecimento da psicanálise seja compartilhado, fortalecendo uma comunidade coesa de psicanalistas e pessoas interessadas no tema da ancestralidade.
E é assim que o Corpo Freudiano, em parceria com a Holofote Produções Artísticas, convida todas as pessoas ligadas ou não à psicanálise a conhecer esse conceito de ancestralidade e arte e a vivenciar as memórias ancestrais da Amazônia em forma de espetáculo.
Ancestral – Sons da Floresta
5 de março, às 19h
Theatro da Paz – Praça da República, s/n, Belém
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia)
Vendas na bilheteria do Theatro da Paz e pelo site ticketfacil.com.br
Classificação indicativa: 14 anos


