Cláudio Barros e a leitura dramatizada de Jogos Infantis de Haroldo Maranhão

A nova edição de Jogos Infantis, obra de Haroldo Maranhão foi lançada em julho de forma inusitada. Durante mais de uma hora, Cláudio Barros ocupou sozinho o palco para conduzir o público pelo universo do escritor.

Nada de cenários ou recursos espetaculares. Um ator, um desenho de luz e a força da leitura.

Haroldo Maranhão ergueu uma Belém feita de ruas, bondes, quintais, banhos de chuva, descobertas da infância, desejos, culpas, humor e irreverência. E Cláudio compreendeu exatamente isso. Sua leitura dramatizada atravessou os cinco contos escolhidos para a leitura. O lançamento ocorreu numa quinta-feira (02) de julho, no Teatro Estação Gasômetro.

Os meninos criados por Haroldo ganharam corpo diante da plateia sem que o ator abandonasse a condição de narrador. Em poucos segundos, transitava entre a ingenuidade infantil, a malícia, a comicidade e o espanto, conduzindo histórias que continuam provocando risos, desconforto e reflexão mais de quarenta anos depois de terem sido publicadas.

Confesso que, em determinado momento, pensei: “o Cláudio está roubando a cena do Haroldo”. Mas não. Na verdade, um potencializou o outro. A interpretação fazia a literatura crescer, enquanto a literatura sustentava cada gesto do ator.

Leitura dramática com Cláudio Barros
Foto: Luciana Medeiros

Jogos Infantis, lançado originalmente em 1982, permanece um livro desconcertante justamente porque não idealiza a infância. Haroldo observa seus personagens com humor, mas também com uma honestidade brutal. São meninos descobrindo o corpo, inventando fantasias, construindo amizades, enfrentando medos e tentando compreender um mundo adulto que ainda lhes escapa.

Entre um conto e outro aparecem bairros, bondes, praças, professores, cinemas, ruas, costumes e personagens reconhecíveis por quem conhece Belém. A cidade deixa de ser cenário para tornar-se personagem da narrativa.

É impossível ouvir aqueles textos sem enxergar uma Belém que já desapareceu fisicamente, mas continua inteira na literatura. E essa dimensão foi potencializada, brutalmente, no melhor sentido da palavra.

Em vários momentos, o público riu alto. Em outros, mergulhou num silêncio absoluto, daqueles em que ninguém sequer muda de posição na cadeira. Não havia constrangimento gratuito diante dos contos mais ousados. Havia literatura sendo respeitada como literatura, com suas ambiguidades e sua capacidade de provocar.

Leitura como política pública

Depois da apresentação, no palco o idealizador do projeto, o diretor da Editora Pública Dalcídio Jurandir, Moisés Alves, lembrou que a coleção nasceu para devolver circulação a autores fundamentais da literatura paraense.

“Infelizmente, as editoras privadas não têm interesse em publicar esses autores porque estão fora de catálogo. Nós, como política pública, entendemos que é importante recuperar essa memória e essa história.”

Segundo ele, o projeto já recolocou em circulação obras de autores como Dalcídio Jurandir, Benedicto Monteiro, Eneida de Moraes e agora Haroldo Maranhão, cuja produção continuará sendo republicada. Além de Jogos Infantis, a editora prepara novas edições de Miguel Miguel, Memorial do Fim e das entrevistas concedidas por Haroldo ao jornalista Elias Pinto.

O presidente da Imprensa Oficial do Estado, Haroldo Carneiro, destacou a criação da linha editorial da Editora Pública Dalcídio Jurandir como instrumento para valorizar escritores regionais e recuperar autores fora de catálogo.

“A gente pensou uma linha editorial que valorizasse escritores regionais, recuperasse autores fora de catálogo e fortalecesse a literatura produzida no Pará.”

Em um dos momentos mais emocionados da noite, o ex-presidente da Imprensa Oficial, Jorge Panzera, responsável pela implantação da editora, afirmou que Haroldo Maranhão permanece entre os autores mais completos da literatura produzida na Amazônia.

“Haroldo passeou por praticamente todos os gêneros literários. É um dos escritores mais completos da nossa literatura. Devolver esses livros aos leitores é devolver uma parte importante da nossa própria história.”

Mais literatura paraense

A diretora da Imprensa Oficial do Estado, Sandra Batista, destacou que a editora também publica novos autores por meio de editais regionalizados e pesquisas produzidas na Amazônia. Ao comentar a pouca presença de escritores amazônicos nas grandes vitrines nacionais, fez um alerta.

“É uma pena que, quando a gente entra no estande do MEC na Feira do Livro, não encontre autores amazônicos.”

Responsável pela revisão literária desta nova edição, o professor Paulo Maués emocionou-se ao falar da proximidade que mantém com a obra de Haroldo Maranhão. Depois de realizar um extenso trabalho de anotação para uma edição de Dalcídio Jurandir, definiu Jogos Infantis como “o trabalho do coração. Os textos continuam muito vivos.”

Maués lembrou ainda que a nova edição recebeu uma tarja alertando que a obra não é destinada ao público infantil, evitando interpretações equivocadas provocadas pelo título.

Haroldo Maranhão

Haroldo Maranhão (1927–2004) foi um dos mais importantes escritores paraenses do século XX. Jornalista, cronista, contista, romancista e editor, construiu uma obra marcada pela experimentação da linguagem, pelo humor, pela ironia e pela recriação da memória de Belém e da Amazônia. Entre seus livros mais conhecidos estão Jogos Infantis, Os Anões, Memorial do Fim e Miguel Miguel.

Considerado um dos grandes nomes da literatura brasileira produzida na Amazônia, sua obra segue influenciando novas gerações de escritores e pesquisadores e, nos últimos anos, vem sendo retomada por meio de reedições da Editora Pública Dalcídio Jurandir.

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Cláudio Barros – Solo de Marajó

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