Quadrinista, ilustrador, escritor e produtor da mostra Futebol – Exposição Nacional de Humor, que encerra neste domingo, 20, Leonardo Dressant fala ao Holofote Virtual sobre criação e os caminhos para fazer a produção de quadrinhos amazônica circular.
Ele costuma dizer que gosta de contar histórias. E assim, desenha a própria trajetória. Escreve, faz quadrinhos, ilustra, produz, edita, articula outros artistas e, quando é preciso, inventa estruturas para que o trabalho consiga sair de sua mesa e chegar ao público.
Foi também como produtor, à frente do Mapuá Estúdio, que Leonardo esteve por trás de Futebol – Exposição Nacional de Humor, em cartaz até este domingo, 20, no Centro Cultural Banco da Amazônia. A mostra reúne diferentes gerações do humor gráfico brasileiro e colocou novamente em circulação uma conversa que, por aqui, tem história: a do cartum, da charge, da caricatura e dos quadrinhos produzidos na Amazônia.
Mas chegar à exposição é também voltar um pouco na história de Leonardo. Nascido em Breves, no Marajó, ele carrega lembranças dos rios, igarapés, da floresta, dos causos e das histórias ouvidas na infância. Quando veio para Belém, encontrou outra Amazônia. Morando na Cidade Velha, perto do Ver-o-Peso, passou a frequentar quase diariamente a feira e a observar aquele movimento de gente, mercadorias, personagens e contradições.
“Vejo o Ver-o-Peso como um grande celeiro que reúne tudo o que vem da nossa região. Os personagens estão ali, naquele turbilhão de ideias e de pessoas.”
Entre o Marajó da infância e a Belém urbana, Leonardo foi encontrando o território de onde sairia boa parte de sua criação. Não exatamente uma Amazônia destinada a corresponder à imagem que esperam dela, mas aquela que ele conhece: ribeirinha e urbana, fantástica e cotidiana, atravessada por encantados, ônibus, mercados, humor, conflitos e gente.
“Existe uma ponte entre as experiências do Marajó, essa minha relação forte com a natureza e com o imaginário amazônico, e essa Belém urbana, contemporânea, cheia de contradições e dificuldades. É dessa mistura que nasce o meu trabalho.”

Quadrinhos e desenho como caminhos
Leonardo desenha desde criança, mas sua entrada profissional nesse universo não aconteceu por uma decisão programada. Houve, inclusive, um longo intervalo. O retorno veio em 2017, quando ainda estava na universidade e, depois de um problema de saúde, recebeu a recomendação de procurar uma atividade que lhe desse prazer.
Voltou ao desenho. Vieram caricaturas, tirinhas e charges. Começou a publicar nas redes sociais, experimentou trabalhos ligados às questões ambientais e viu personagens que haviam surgido quase como brincadeira começarem a encontrar leitores.
“No começo, não existia uma pretensão profissional. Eu via aquilo como uma grande brincadeira e ia deixando a água me levar, como um barco. Estava simplesmente desenhando porque aquilo estava me fazendo bem.”
A brincadeira cresceu. Vieram comentários, compartilhamentos, convites para eventos. Leonardo começou a observar quais personagens estabeleciam maior comunicação com o público e percebeu que havia ali a possibilidade de construir outra trajetória.
A mudança foi radical. Ele vinha da Ciência da Computação e chegou a cursar mestrado na área. Deixou esse caminho, fez formação em Produção Multimídia e hoje está no mestrado em Artes, pesquisando cosmologias, encantarias e o imaginário popular amazônico.
Quadrinista, ilustrador, escritor, artista gráfico? Ele próprio admite a dificuldade de caber em uma definição. Talvez porque o desenho seja menos um destino do que uma ferramenta.
“Posso tanto fazer uma tira de humor sobre dois urubus quanto escrever uma história de suspense sobre os seres encantados da Amazônia.”
É assim que trabalhos aparentemente distantes se encontram. De um lado, personagens como Pitiú e Xibé; de outro, narrativas que entram pelo suspense, pelo terror e pelo universo das visagens e encantarias. Algo permanece em ambos os lados: a história e o lugar de onde ela está sendo contada.
“A Amazônia possui um imaginário extremamente rico. Temos Matinta, Curupira, todos os encantados, aquelas histórias que passam de geração em geração. Procuro pegar esse material e colocá-lo em novas estruturas narrativas.”

Quando desenhar não basta
Há outra parte dessa trajetória que ajuda a entender por que Leonardo chegou à produção de uma exposição nacional. Produzir quadrinhos na Amazônia significa enfrentar um problema que começa depois que a obra está pronta: fazê-la circular.
Leonardo diz perceber hoje uma cena muito mais articulada. Artistas do Pará e de outros estados amazônicos passaram a se encontrar em feiras, eventos, publicações coletivas e iniciativas como o Circuito Amazônico de Quadrinhos.
As redes sociais também encurtaram distâncias e permitiram que autores independentes chegassem diretamente ao leitor. Mas uma distância continua difícil de vencer.
“O principal gargalo, com certeza, é a distribuição. Temos também o fator Amazônia: é difícil o deslocamento dos artistas daqui para outras regiões. Produzir uma HQ e fazer com que ela chegue ao leitor são coisas completamente diferentes.”
Foi dessa experiência concreta que nasceu o Mapuá Estúdio. Leonardo produzia, procurava editoras, participava de editais e esbarrava nas dificuldades conhecidas por quem tenta construir uma carreira independente. Criou, então, seu próprio selo editorial. Aos poucos, aquilo deixou de servir apenas à organização de sua obra e passou a envolver outros artistas e profissionais.
“Durante muito tempo, o artista brasileiro precisou lidar com muitas coisas ao mesmo tempo: ser autor, produtor, divulgador, vendedor, assessor e gestor da própria carreira.”
O Mapuá é, nesse sentido, também uma resposta prática a essa precariedade. Uma tentativa de construir estrutura onde ela não existia. E foi pelo Mapuá Estúdio, em parceria com J. Bosco, o curador, que Leonardo assumiu a produção de Futebol – Exposição Nacional de Humor, na qual também expões trabalhos.

Uma tradição que não desapareceu
Leo e J. Bosco chegam de experiências diferentes. Bosco traz uma trajetória profundamente ligada à charge, ao cartum e à imprensa. Leonardo vem também da HQ independente, das redes, das feiras e de uma geração que precisou encontrar outros meios para fazer o desenho circular.
“Houve muita troca. Sou muito fã do trabalho do Bosco. Ele é uma referência para cartunistas e chargistas não apenas na nossa região, mas no Brasil.”
A diferença de gerações, para Leonardo, não significa ruptura. Ele entende e todos sabemos que a imprensa já foi um espaço fundamental para chargistas, cartunistas e ilustradores. Com as transformações dos jornais e do mercado editorial, parte desse espaço diminuiu. E surgiram outras possibilidades: redes sociais, publicações independentes, feiras e contato direto entre artista e leitor.
“Mudou muito a forma de produzir e de chegar ao público, mas a essência continua sendo a mesma: observar a realidade e transformá-la em imagem.”
Futebol tocar numa história maior do que a exposição. Leonardo lembra do Salão Internacional de Humor da Amazônia, organizado por Biratan Porto, que durante anos colocou Belém no circuito do humor gráfico. Ele próprio frequentou aquelas exposições. Anos depois, estaria do outro lado, produzindo uma mostra que reúne artistas de diferentes gerações e regiões do país.
“Não vejo como uma simples tentativa de voltar ao passado, mas como uma oportunidade de mostrar que existe uma tradição e que ela pode continuar se reinventando.”

Quadrinhos com presença feminina
Leonardo também olha para quem está chegando. Uma escolha da programação de Futebol chama atenção: a sequência de oficinas ministradas por mulheres. Para ele, não foi uma decisão casual.
É uma mudança importante em uma linguagem que, durante muito tempo, foi produzida predominantemente a partir de um olhar masculino. “Vejo uma presença feminina cada vez mais forte nesse segmento, principalmente nos quadrinhos. Hoje temos coletivos formados só por mulheres nos quadrinhos paraenses.”
Ao todo foram oito oficinas realizadas, todas com vagas disputadas e preenchidas. Elas também foram convidadas para a roda de conversa que aconteceu semanas atrás, para discutir a produção de quadrinhos na Amazônia. Arrasaram. Leo ficou feliz!
Enquanto isso, seus projetos continuam se multiplicando. Há uma HQ autobiográfica sobre sua chegada a Belém; uma nova edição do Almanaque Arumix, reunindo artistas ligados ao coletivo Traço Norte; participação no projeto HQ Menu; um quadrinho sobre pistolagem; e Lingaíba: Resistência do Marajó, trabalho que retorna ao Mapuá e à resistência de seu povo durante o período colonial. Depois de tantos caminhos, ele parece voltar ao ponto de partida.
“Quero continuar experimentando sem perder aquilo que considero essencial no meu trabalho: minha própria identidade amazônica. Quero contar essas histórias e falar da minha região sob o meu próprio olhar.”
Talvez seja mesmo disso que se trata. Contar histórias. Mas poder escolher de onde se olha, como se conta, construindo os caminhos para que elas circulem.

Corre pra ver a exposição
Não ganhamos a Copa do Mundo. Em um ano atravessado pela expectativa do mundial, o campeonato foi um dos pontos de partida para a criação de Futebol – Exposição Nacional de Humor do Banco da Amazônia.
Pois é. A taça não veio. Mas, olhando agora para a exposição em seus dois últimos dias, percebo que ganhamos muito mais: a oportunidade de reencontrar uma tradição do humor gráfico brasileiro, colocar gerações diferentes lado a lado e perceber como o futebol continua rendendo muito além dos 90 minutos quando passa pelo traço de cartunistas, chargistas, caricaturistas e quadrinistas.
Futebol – Exposição Nacional de Humor entra na reta final no Centro Cultural Banco da Amazônia. Tem paixão, rivalidade, memória, crítica, ironia e aquele velho talento do humor de dizer, em um desenho, o que às vezes levaríamos parágrafos para explicar. Se você deixou para depois, chegou a hora. Corre pra ver.
Anota
Neste sábado, 19, e domingo, 20 de setembro
Das 10h às 14h
Entrada gratuita
Av. Presidente Vargas, 800 – Campina – Belém-Pa
Pode interessar também:
Entrevista com José Alberto Lovetro (Jal) sobre humor gráfico e o Salão da Amazônia

