Isa Jinkings começa pelas próprias lembranças. Volta à infância, à mãe, ao pai, aos irmãos, à escola. Recorda perdas, mudanças, os anos de estudo e o início da vida adulta. Antes de chegar a Antonio Raimundo Jinkings, o homem que dá nome ao livro, parece precisar refazer o caminho que a levou até ele.
“Meu Antônio” se organiza a partir de memórias pessoais e documentação de uma trajetória pública. Isa rememora sua a vida com Antônio, desde o namoro iniciado nos anos 1940, passando pelo casamento e pela construção da família, até uma relação que durou mais de quatro décadas.
Publicado pela Boitempo, o livro será lançado neste domingo (6), às 17h, com tarde de autógrafos na Casa do Saulo, no Salão das Pedras da Casa das Onze Janelas, em Belém.
Numa segunda parte, é Raimundo Jinkings quem retorna pela própria palavra. A edição reúne escritos jornalísticos nos quais ele reflete sobre o cenário político de seu tempo, a atuação como líder bancário e sua militância no PCB.
E em seguida, voltamos a ele, sob o olhar do amigos e economista Roberto Corrêa, que escreve sobre sua atuação sindical, enquanto a professora, escritora e intelectual Amarílis Tupiassú se detém especialmente no livreiro e no homem dedicado à leitura e à circulação do conhecimento.
O livro também tem apresentação de Ivana Jinkings, da Boitempo, prefácio de José Paulo Netto e orelha de Marcelo Rubens. Reúne ainda depoimentos dos filhos, camaradas e amigos, além de fotografias de Leila Jinkings e outros autores. A capa é de Maikon Nery.

Memórias e trajetória
Isa Jinkings tinha 16 anos quando conheceu Antônio Raimundo Jinkings, em Belém, em 1949. Casaram-se quatro anos depois, em 2 de maio de 1953. Entre uma data e outra, o namoro cresceu numa cidade sacudida pelas disputas políticas, enquanto o jovem bancário maranhense que havia chegado ao Pará começava a se envolver cada vez mais com o movimento sindical e a militância.
Professora e militante socialista, ela escreve sobre o companheiro de mais de quatro décadas sem separar o homem da vida pública daquele com quem constituiu família. A política já estava presente quando os dois se conheceram.
O Pará entrava nos anos 1950 marcado pelo confronto entre baratistas e antibaratistas, polarização que mobilizava a vida pública paraense em torno da liderança de Magalhães Barata. Jinkings, instalado em Belém desde 1945 e funcionário do então Banco de Crédito da Amazônia, logo estaria no meio desse ambiente.
Participou da organização do PSB no Pará e tornou-se secretário-geral do diretório estadual em 1951. Atuou nas lutas dos bancários e, no ano seguinte, participou da organização do I Congresso Regional Norte de Defesa do Petróleo, ligado à campanha “O Petróleo é Nosso”. Também escrevia para publicações como Folha do Norte, Flash e Estado do Pará.
Em 1953, ano do casamento com Isa, participou da Marcha da Fome, mobilização contra a carestia reprimida pelas autoridades, e foi preso e processado pelo DOPS. É nesse ponto que a memória particular permite enxergar o período por outro ângulo.

A livraria Jinkings
Quando os filhos começaram a estudar, Isa sempre procurava acompanhar o que aprendiam e buscava os títulos indicados pelos professores. Passou a frequentar livrarias, conhecer publicações e manter contato com editoras. Isa recorda um ambiente em que livros circulavam entre professores, estudantes e universidades.
Na época, os lançamentos editoriais eram acontecimentos. Aos poucos, aquela aproximação deixou de ser apenas uma necessidade relacionada à educação dos filhos.
Em 1965, Isa e Raimundo fundaram a Livraria Jinkings. E o momento não poderia ser politicamente mais delicado. O golpe militar havia ocorrido no ano anterior e Jinkings, atingido pela repressão por sua atuação política e sindical, teve os direitos políticos cassados.
A livraria, no entanto, seguiu trajetória e tornando-se um lugar referencial para comprar livros e durante décadas, também foi ponto de encontro de estudantes, professores, intelectuais, artistas e militantes, uma referência para a circulação de pensamento e cultura e também espaço de resistência em uma cidade que atravessava os anos mais duros da ditadura militar.

Marcelo Rubens Paiva chama atenção, na orelha, para uma imagem que ajuda a dimensionar a história contada por Isa: a política brasileira avançava porta adentro enquanto a família crescia entre livros, almoços, dificuldades financeiras e conversas que atravessavam a madrugada. “A resistência também acontecia ali. Dentro de casa”, escreve.
Isa não tenta separar o homem de atuação pública daquele que conheceu dentro de casa. Ao contrário: aproxima os dois. Recupera o militante, o sindicalista, o comunista e o livreiro a partir do companheiro com quem dividiu filhos, contas, livros, projetos, perseguições, amizades e uma vida inteira. Antes de ser Raimundo Jinkings para a história, nas páginas de Isa ele volta a ser Antônio.
Anota!
Lançamento de Meu Antônio, de Isa Jinkings. Neste domingo, 6 de setembro, às 17h, com tarde de autógrafos na Casa do Saulo – Salão das Pedras, Casa das Onze Janelas, Rua Siqueira Mendes, s/n, Cidade Velha, Belém. O livro estará disponível a partir de 8 de setembro de 2026.
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Fotos da galeria: Leila Jinkings (1a, 2a e 5a fotos) / Acervo da família (3a e 4a fotos)

