Se Mestre Vieira estivesse vivo, hoje, 29 de outubro, ele completaria 91 anos de uma vida dedicada à invenção de um som que transformou a guitarra elétrica em identidade amazônica.
Em Barcarena, onde nasceu Joaquim de Lima Vieira, a data foi decretada Dia Municipal da Guitarrada, mas hoje por lá, não há festa, apenas lembrança. O tradicional Sarau do Mestre, que reúne artistas, bandas e manifestações culturais da cidade, foi transferido para o sábado, dia 1º, quando os filhos do músico manterão viva a tradição de celebrar seu aniversário, agora em torno do legado.
Foram 83 anos de uma existência inteiramente dedicada à criação. Vieira transformou a guitarra em símbolo regional e a fez protagonista de um gênero que o mundo ainda aprende a reconhecer: a Guitarrada.
Nos anos 1960, quando o Pará ainda era um território distante das grandes gravadoras, ele ousou misturar carimbó, merengue, cúmbia e jovem guarda com o choro, inaugurando uma sonoridade moderna e popular. Em 1978, lançou o histórico “Lambadas das Quebradas”, marco fundador de uma estética que uniu o ancestral e o elétrico.
Mestre Vieira foi um homem do seu tempo e também do futuro. Antecipou a mistura sonora que viria a caracterizar a música paraense contemporânea, influenciando gerações inteiras de guitarristas: Aldo Sena, Pio Lobato, Félix Robatto e tantos outros que seguem recriando esse som em novas linguagens.

A tradição também se mantém viva com Os Dinâmicos, banda na ativa e com disco novo que acaba de ser lançado, e que reúne três músicos diretamente ligados à sua história, responsáveis por manter acesa a chama da invenção.
Ritmo, gênero e memória, a guitarrada é o som de uma Amazônia que dança, resiste e cria. Vieira traduziu o território amazônico em melodia, e o legado que deixou é praticado nas escolas de música, nos festivais, nos discos digitais e nas guitarras que ganham os palcos de Belém e do mundo. O que ele inventou se tornou patrimônio cultural.
Mestre Vieira faleceu aos 83 anos, no dia 2 de fevereiro de 2018, em Barcarena, sua cidade natal, o mesmo lugar onde aprendeu os primeiros acordes e onde a Guitarrada nasceu. Foi, como definiu o sociólogo Hermano Vianna, um dos criadores de uma “escola de guitarra popular brasileira”, com origem e sotaque amazônicos.
Desde pequeno, a música já o acompanhava: aos cinco anos, tocava banjo, cavaquinho e bandolim, este último o consagrou aos 14 anos como Melhor Solista do Pará, pela Rádio Clube. Nos anos seguintes, integrou grupos de choro e samba com irmãos e primos, até se apaixonar pela guitarra no fim dos anos 1960, criando um estilo próprio e inconfundível.

A invenção é lendária: sem energia elétrica em Barcarena, Vieira improvisou um amplificador a partir de um rádio de pilha e bateria de caminhão, e com ele percorreu os municípios vizinhos apresentando sua “Lambada”, nome original do gênero que mais tarde seria rebatizado como Guitarrada.
Em 1974, gravou o clássico “Lambada das Quebradas”, lançado quatro anos depois pela gravadora Continental. O disco vendeu 100 mil cópias, abrindo caminho para um segundo LP que ultrapassou as 300 mil unidades e levou o músico a duas turnês pelo Ceará, no início dos anos 1980. E para quem não sabe, além do instrumental, que já nos remete a região, suas letras também narram o cotidiano ribeirinho, os costumes, as lendas e o humor de uma Amazônia viva, como em “Lambada da Baleia”, inspirada no encalhe de uma baleia em Barcarena.
Canções como “Lambada do Curupira” e “Lambada do Fantasma” também traduzem o imaginário popular e o diálogo entre tradição e modernidade que marcam sua obra. Foi esse universo que inspirou, décadas depois, a série de animação “Os Dinâmicos”, lançada em 2018 e exibida por TVs públicas, universitárias e comunitárias em todo o Brasil.

Com 13 episódios de cinco minutos, a série é inspirada em músicas do Vieira e Seu Conjunto, transformando o mestre e seus músicos em super-heróis amazônicos que vivem aventuras entre lendas e guitarras mágicas.
A série vem circulando de forma presencial em mostras e em breve e voltará a ser exibida pela TV Brasil. O songbook Mestre Vieira também está disponível para quem quiser levar pra casa e a outra novidade é que vem aí o aguardado Coisa Maravilha, a Invenção da Guitarrada, um longa metragem documental feito com Mestre Vieira em 2011, com gravações também em 2019, após seu falecimento.
Todos esses projetos que realizei, e não os fiz sozinha, guardam sua memória, sua voz e seu legado. A saudade bate forte, me faz rir das lembranças, emociona. Em 2008 quando conversei com ele pela primeira vez, eu tive a certeza de que algo precisava ser feito.
Da mesma forma que ele me disse que um dia saiu de um cinema disposto a aprender a tocar guitarra, eu voltei de Barcarena para Belém, sabendo que eu precisava gravar um DVD, lançar um songbook e devolver às telas essa história. A série veio por conta.
E assim, sigo na missão de difundir sua obra e fazê-la chegar às crianças, aos idosos e aos jovens. Na próxima segunda-feira, 3, o Baile da Guitarrada Lab Música, projeto mais novo que desenvolvo com Os Dinâmicos, chega a Castanhal exatamente com esse objetivo. Mas isso já é outra matéria. Acompanhem!


