A cultura cinematográfica no interior do pará ocorria nos cinemas de rua, que eram centros de convivência, cultura e lazer. No interior do Pará, eles enfrentaram desafios próprios para manter a circulação de filmes em uma região distante dos grandes circuitos comerciais.
O Cine Argus foi o primeiro e mais tradicional cinema de rua de Castnhal no Pará, fundado em 1938 e consolidado na década de 1940 por Manoel Carneiro Pinto Filho, o “Duca do Cinema”. O local funcionou por cerca de 60 anos como o principal polo cultural, de lazer e de encontros da cidade antes de encerrar suas atividades nos anos 1990.
É essa história que o sociólogo, jornalista e professor aposentado José Queiroz Carneiro reúne em “O Cine Argus de Castanhal e a Exibição Cinematográfica no Interior do Pará”, livro que será lançado em Belém no próximo dia 4 de agosto, às 17h30, na Casa das Artes.
Obra reúne mais de duas décadas de pesquisa e preserva a memória da exibição cinematográfica em Castanhal e em diversas cidades do Pará. Em entrevista ao Holofote Notícias, Amílcar Carneiro, irmão do autor José Queiroz Carneiro e um dos colaboradores da pesquisa, compartilhou os bastidores da construção da obra e refletiu sobre a importância de preservar essa memória.
“Nós vivíamos o cinema. Moramos no cinema durante boa parte da infância, trabalhávamos nele e acompanhávamos diariamente as dificuldades da exibição cinematográfica. Meu irmão sempre dizia que o Cine Argus merecia um filme. Aos poucos percebemos que aquela história também merecia um livro.”
Entre outras passagens, revela como funcionava a distribuição de filmes para cidades do interior, os desafios enfrentados pelos exibidores e a criação de circuitos alternativos que garantiam o acesso da população às grandes produções nacionais e internacionais.

- Sala de exibição – Castanhal-Pa
Uma história cinematográfica
Embora o Cine Argus seja o ponto de partida da narrativa, o livro amplia sua perspectiva para compreender um sistema de exibição que movimentou dezenas de municípios paraenses durante boa parte do século XX.
Amílcar conta que poucas descobertas surpreenderam a família durante a pesquisa, justamente porque todos cresceram acompanhando os bastidores da atividade. As dificuldades para conseguir filmes, negociar com distribuidoras e manter os cinemas funcionando faziam parte das conversas diárias dentro de casa.
Uma revelação, entretanto, chamou a atenção dos pesquisadores. Eles descobriram que, ainda no início da década de 1950, um exibidor de Bragança tentou romper a dependência do circuito de Luiz Severiano Ribeiro trazendo filmes diretamente de Recife, aproveitando a ligação aérea existente entre o Nordeste e Belém.
A experiência não prosperou por causa dos custos da operação, mas ajudou a explicar a estratégia adotada posteriormente pelo pai da família Carneiro. “Castanhal sozinha não dava conta. Era preciso formar um circuito com outras cidades para tornar economicamente viável a distribuição dos filmes.”
Para Amílcar, compreender essa logística ajuda a explicar por que a exibição cinematográfica no interior possuía características próprias e diferentes das grandes capitais brasileiras.

Argus era mais que um cinema
As lembranças reunidas no livro mostram que o Cine Argus extrapolava a função de sala de exibição.
O prédio permanecia aberto praticamente durante todo o dia e funcionava como um verdadeiro centro de convivência de Castanhal. Além do cinema, abrigava o escritório da família, um serviço de alto-falantes com programação diária e um auditório utilizado por diferentes segmentos da comunidade.
Católicos, evangélicos, partidos políticos e diversas entidades utilizavam o espaço para reuniões, palestras e eventos. Segundo Amílcar Carneiro, essa convivência fez do Cine Argus um dos principais símbolos da cidade.
“Depois da igreja e da estação ferroviária, o Cine Argus era o terceiro ponto mais importante de Castanhal. Meu pai não fazia distinção de religião ou partido. Gostava de servir à comunidade.”
O cinema se transformou, portanto, como o Cine Olympia, em Belém, em um patrimônio afetivo para diferentes gerações de castanhalenses, mantendo viva uma memória que ultrapassa a experiência de assistir a um filme.

Memória cinematográfica
Ao falar sobre o desaparecimento dos antigos cinemas de rua, Amílcar faz uma correção importante. “Não foram alguns cinemas. Foram todos.”
Na avaliação dele, um dos maiores méritos da obra é preencher uma lacuna na pesquisa sobre a história da exibição cinematográfica no interior do Pará. Segundo conta, estudantes e pesquisadores procuram constantemente a família em busca de informações para trabalhos acadêmicos, justamente pela escassez de registros sobre esse período.
“O Cine Argus de Castanhal e a Exibição Cinematográfica no Interior do Pará” nasce, portanto, como um documento histórico, preservando informações que corriam o risco de se perder com o tempo e oferecendo novas possibilidades de pesquisa sobre a circulação do cinema na Amazônia.
“Acredito que esse livro vai preencher essa lacuna. Hoje muitos jovens nem sabem o que era uma película cinematográfica. Quando mostro uma durante minhas palestras, toda a atenção deles se volta para aquilo.”
Embora assinado por José Queiroz Carneiro, o autor faz questão de destacar que o livro é fruto de uma construção coletiva. Além da colaboração dos irmãos, a pesquisa reuniu depoimentos de antigos exibidores, documentos e fotografias preservados ao longo de décadas, compondo um amplo retrato da exibição cinematográfica no interior paraense.
A expectativa da família é que a publicação se torne uma referência para pesquisadores, estudantes, historiadores e apaixonados pelo cinema, estimulando novos estudos sobre um tema ainda pouco explorado na historiografia brasileira.
Serviço
Lançamento do livro: O Cine Argus de Castanhal e a Exibição Cinematográfica no Interior do Pará
Autor: José Queiroz Carneiro
Data: 4 de agosto de 2026
Horário: 17h30
Local: Casa das Artes (Rua Dom Alberto Gaudêncio Ramos, 236, Nazaré, Belém – ao lado da Basílica de Nazaré)
Editora: Paka-Tatu
Valor: R$ 120.
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