Durante seis anos, entre 1986 e 1992, o fotógrafo Sebastião Salgado viajou pelo mundo registrando trabalhadores em diferentes tipos de atividades. A série se transformou em um dos seus grandes registros documentais, e virou livro ainda nos anos 1990, além de exposição. Agora, a mostra “Trabalhadores” chega a Belém, no Centro Cultural Banco da Amazônia (Av. Pres. Vargas, 800 – Campina), aberta à visitação a partir desta quarta-feira, 15 de abril, com entrada gratuita.
O recorte é composto de 149 imagens, com curadoria da esposa do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado. Dos enroladores de charutos em Cuba aos pescadores de atum na Sicília, dos garimpeiros de Serra Pelada a mulheres trabalhadoras tradicionais na Índia, de Ruanda a Dunquerque.
Diferentes tipos de trabalho estiveram sob o foco de Salgado. Ele chegou a descrever seu empenho nesse registro como um grande tributo ao esforço humano e também como um adeus ao mundo do trabalho manual. Esse perfil foi algo destacado por Lélia Salgado em uma mensagem enviada por vídeo, de Paris, onde mora e segue tocando a agência Amazonas Imagens após a morte do marido, em maio do ano passado.
“Fico muito feliz de mais uma vez apresentar essa exposição, e em Belém, que é uma cidade maravilhosa. ‘Trabalhadores’ fala do mundo do trabalho, de quando ele mudou de um trabalho manual para industrial, e espero que vocês compreendam essa exposição”, disse Lélia, parceira de trabalho fundamental ao longo da jornada de Sebastião Salgado como fotógrafo.
“Falar do Sebastião sem falar da Lélia é uma história incompleta. É o trabalho de uma dupla. A Lélia hoje está à frente do estúdio em Paris com uma demanda gigantesca, que se acentuou com a passagem do Sebastião. Não param de surgir convites para exposições no mundo inteiro”, destacou Álvaro Razuk, da Maré Produções, responsável pela produção das exposições de Salgado no Brasil há mais de 20 anos, e que assina também a produção de “Trabalhadores” em Belém.

A primeira cidade do Norte/Nordeste a receber a mostra
Antes de desembarcar por aqui, a exposição já passou por vários países, como Alemanha e Estados Unidos. No Brasil, já pôde ser vista no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Brasília, mas chega pela primeira vez a uma cidade do Norte e Nordeste, o que foi celebrado pelos representantes do Banco da Amazônia, patrocinador da exposição.
“Sebastião Salgado é um ícone mundial da fotografia e, nos dias de hoje, a gente poder falar sobre trabalho, no mote do trabalho digno, quando o assunto está na agenda de discussões do nosso país, é muito relevante”, destacou Ana Amélia Fadul, gerente cultural do Banco da Amazônia.
Para Razuk, as fotografias da mostra, feitas há mais de 35 anos, permanecem extremamente pertinentes nos dias de hoje, quando enfrentamos novas mudanças no mundo do trabalho. Além de registros de um momento histórico, continuam a inspirar novas e importantes reflexões:
“Muitos desses tipos de trabalho continuam existindo. Com toda tecnologia, o mundo ainda tem uma condição muito desigual. A gente vê isso no Brasil, cotidianamente, onde situações de trabalho análogo à escravidão ainda aparecem o tempo todo”, destaca o produtor, lembrando que um dos temas de “Trabalhadores”, o dos garimpeiros em Serra Pelada, tem tanto impacto que acabou gerando uma obra à parte. “E esperamos conseguir trazer essa exposição também ao Pará, é quase uma obrigação fazer isso.”
Álvaro Razuk ainda ressaltou que a exposição ganha outro sentido após a morte de Sebastião Salgado. “Este é um legado que ele deixou, é um relato jornalístico que pode ser lido de diversas formas. Ele se dizia um viajante, um jornalista e não um artista. Todo esse legado também serve como documento histórico”.

Programa educativo com oficinas e minicursos
“Trabalhadores” envolverá uma programação paralela de oficinas e minicursos, oferecidos de forma gratuita à população de Belém, que propõem diferentes abordagens sobre a fotografia documental e suas transformações no presente.
As atividades são gratuitas, mas têm vagas limitadas, e iniciam em maio, no próprio Centro Cultural Banco da Amazônia, com a seguinte agenda:
– 23 de maio (sábado), das 10h às 12h: Palestra “Trabalhadores hoje: o que a fotografia aprendeu com Salgado?”, com a pesquisadora Maíra C. Gamarra
– 13 de junho (sábado), das 10 às 12h e 13h às 16h: Minicurso “Horizontes da Fotografia Amazônica Contemporânea: Da Prática à Curadoria”, com a artista visual Evna Moura.
– 27 de julho (sábado), das 10h às 11h: Palestra “O Barroco e o trabalho na fotografia contemporânea”, com a curadora Rosely Nakagawa.
– 15 de agosto (sábado), das 10 às 12h e 13h às 16h: Oficina “Campo, corte e extracampo – Olhos de ver com Salgado”, com Miguel Chikaoka.

Programação gratuita e aberta ao público em geral
Presente ao lançamento da exposição à imprensa, a artista visual Evna Moura adiantou que o minicurso que irá conduzir vai ancorar a teoria à prática, a partir do acervo apresentado na exposição.
“O trabalho de Sebastião Salgado é longo e muito potente e estar fazendo parte disso é muito simbólico, porque sou de uma geração que cresceu vendo Sebastião Salgado e aprendendo como a fotografia pode ser uma ferramenta de muitas transformações e muitos diálogos. Fotógrafos como Sebastião e Claudia Andujar ajudaram a mudar as políticas do Brasil a partir dos seus trabalhos”.
Ana Amélia Fadul destacou ainda que a exposição se adequa ao propósito social do Centro Cultural Banco da Amazônia: “A política de cultura do Banco da Amazônia tem alguns pilares inegociáveis. O primeiro deles é fazer o letramento cultural da nossa população. Ou seja, essa e todas as exposições, para sempre, são gratuitas. Aqui é um local para as pessoas se apossarem e terem contato com obras tanto de artistas locais como de artistas como o Sebastião Salgado, um brasileiro, mas que é um fotógrafo mundial”.
Serviço
Exposição: “Trabalhadores”, de Sebastião Salgado.
Local: Galeria 1 do Centro Cultural Banco da Amazônia
Endereço: Av. Presidente Vargas, 800 – Campina, Belém (PA)
Visitação: 15 de abril a 16 de agosto de 2026
Horários: Terça a sexta, das 10h às 16h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 14h.
Entrada: Gratuita

