Um homem frio e introspectivo, que não consegue dormir nem comer, e nem mesmo mostrar seus sentimentos à única pessoa que poderia se interessar por alguém tão estranho e misterioso. Eu fui uma das pessoas que, lá atrás, ao assistir ao curta, disse ao Roger Elarrat que aquela história pedia um longa. Não fui a única, ele ouviu isso de muita gente.
O enredo de “Juliana contra o Jambeiro do Mal Pelo Coração de João Batista”, do diretor Roger Elarrat, ainda é o mesmo que conhecemos no curta lançado há 20 anos, mas o roteiro passou por uma longa reescrita para chegar ao filme que vimos nesta semana, dentro da programação do 17º Amazônia Fidoc.
Vem prêmios aí ao cinema paraense, faço a aposta. A sessão especial do filme, no Cinema Alexandrino Moreira, foi também de celebração para o audiovisual paraense, reunindo realizadores, elenco e público em torno de um projeto que sintetiza mais de uma década de persistência criativa e amadurecimento da cena local.
Entre memórias pessoais e conquistas recentes, Roger Elarrat destacou que a cena ao longo dos anos. avançou como nunca “Vinte anos se passaram e a nossa cena só cresceu”, disse, emocionado, ao lembrar que sua própria trajetória se entrelaça com esse desenvolvimento.
Durante a fala, o diretor compartilhou o longo percurso de desenvolvimento do filme, revelando que a ideia nunca deixou de acompanhá-lo. “Essa história nunca realmente sumiu dentro de mim… todas as outras ideias vinham, mas ela continuava ali”, afirmou.

Processo de escrita não foi linear
Roger contou que a retomada do projeto aconteceu quando surgiram novas possibilidades de financiamento: “Quando a gente começou a ter edital de desenvolvimento de roteiro, eu pude ganhar um edital pra escrever esse roteiro de novo”.
No total foram oito anos de construção, atravessados por pausas, retomadas e descobertas. “A gente passou oito anos escrevendo esse filme… às vezes parava, depois voltava, ficava mais alguns meses”, contou.
Parte desse percurso se deu em encontros informais entre ele o roteirista Guaracy Britto Jr., que ajudaram a dar o tom da narrativa: “Eu ia pro jardim da casa do Guaraci, sentava lá, ele colocava umas músicas malucas (risos)… e a gente ia encontrando caminhos”.
Um dos momentos decisivos, segundo Elarrat, foi a definição do eixo temático da história, construída em diálogo com Guaracy. “Eu disse que o filme precisava de um tema… transformar a Juliana, que era fotógrafa, em uma profissional do som. É um filme sobre oralidade, sobre comunicabilidade. E o Guaracy trouxe uma das ideias mais bonitas: ela quer gravar o canto do Uirapuru”, relembrou.
A imagem tornou-se central na narrativa e também um ponto de tensão no processo: “Teve um momento que ele quis desistir, mas eu dizia: não vamos desistir da ideia do Uirapuru”.

Personagens ganharam novas tonalidades
A construção dos personagens também exigiu tempo e aprofundamento. “A gente ficou muito tempo buscando entender quem são esses personagens… quem é o nosso João Batista”, disse.
O protagonista foi pensado como uma figura mítica, quase épica: “Eu imaginava ele como um grande herói amazônico… um elfo negro do Amazonas, alguém que não tem medo de nada”.
Além da criação, o diretor destacou a dimensão da produção, que cresceu significativamente ao longo do processo. “Eu achava que seria uma equipe pequena, mas quando vi já era três vezes maior… a gente precisou de uma estrutura de bastidor muito maior”, contou.
O longa mobilizou dezenas de profissionais, múltiplas locações e um planejamento complexo: “Na minha cabeça eram 44 locações… depois virou mais… foi um processo muito grande de organização, de equipe, de preparação de elenco”.

Essa estrutura, embora invisível na tela, foi fundamental para dar escala ao projeto. “A gente vê uma cena com muitos figurantes e parece simples, mas por trás disso tem uma logística enorme”, pontuou, agradecendo a sua produção, ressaltando que essa obra que surge como expressão de um movimento coletivo.
De trajetórias mais longas, o ator Cláudio Barros integra o projeto atuando também na preparação do elenco, que conta ainda com Alberto Silva Neto, Astreia Lucena, Adriana Cruz, Marilea Aguiar, Natal Silva, Dario Jaime Souza entre outros e outras. E também um conjunto de intérpretes que participaram de um processo extenso de testes e preparação antes das filmagens.
A criação visual do filme contou com a condução do diretor de arte Boris Knez, junto a uma equipe responsável por dar forma aos ambientes e à atmosfera de Santa Cruz das Águas e outras locações.
E para arcar com tudo isso, a equipe de produção foi ampliada em relação aos projetos anteriores do diretor, que destacou a atuação de Bianca d’Aquino, Felipe Brown e P.A., responsáveis pelo planejamento, organização e logística de uma filmagem que envolveu dezenas de profissionais e múltiplas locações.

“O filme conseguiu ser realizado por um edital da Lei Paulo Gustavo… foi selecionado em primeiro lugar entre seis longas”, destacou, situando o projeto dentro de um novo momento do audiovisual paraense. “Temos já um resultado desse movimento de longas de ficção feitos aqui, sobre a nossa cultura, por nós mesmos”.
Ao olhar para a plateia, formada em grande parte pela própria equipe, o diretor reforçou esse vínculo cultural: “hoje, metade das pessoas nesta plateia aqui é da equipe no filme… equipe de figurino, maquiagem, produção, elenco… é a nossa cena. Estou muito feliz por estar junto pra celebrar esse momento de entrega de um trabalho que foi feito coletivamente”, disse.
Encerrando a apresentação, antes que a luz se apagasse, o diretor ainda fez um apelo ao público: “Fiquem até o final, que tem cena pós-crédito”. O comentário arrancou risos, pontuando o clima daquela noite, numa mistura de entusiasmo e expectativa de que maiores incentivos apoiem uma cena que tem maturidade, linguagem e, sobretudo, se reconhece.

