Cena cultural e política: amigos, artistas e alunos se despedem de Zélia Amador de Deus, aos 74 anos

Como iniciar para falar de Zélia Amador de Deus? De qual grande começo devo partir? Escrever sobre alguém de real grandeza diante de uma despedida para a eternidade, nunca será tarefa fácil.

Atriz, diretora de teatro, professora, pesquisadora e ativista, Zélia atravessou mais de cinco décadas da vida cultural, acadêmica e política do Pará. A notícia de sua partida comoveu toda a comunidade acadêmica, artística e do ativismo político antirracista.

Fui sua aluna no final dos anos 1980, no curso de comunicação, em disciplina optativa (para outros, pois para mim era quase uma obrigação e principalmente um desejo a ser realizado: estar diante dela). A  reencontrei no inicio dos anos 1990, na Escola de Teatro e Dança da UFPA, que ainda tinha apenas o curso técnico, e estava em momento de mudança fundamental.

Naquele início de década a Escola de Teatro e Dança da UFPA passou por uma grande reestruturação administrativa e acadêmica, integrando-se ao recém-criado Núcleo de Artes (NUAR) em 1991, período em que Zélia Amador de Deus era diretora do Centro de Letras e Artes e, em seguida, vice-reitora da UFPA, como veremos mais andiate.

Uma de suas lutas foi pelo ensino e formação nas artes cênicas. E isso tem raiz profunda.  Antes da professora, da pesquisadora e da militante que o Pará aprenderia a conhecer, havia a atriz. Ainda jovem, Zélia foi Catirina em O Coronel de Macambira, trabalho que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival Nacional de Teatro de Estudantes, em Goiânia. Nos anos 1970, em plena ditadura militar, esteve entre os artistas que fundaram o Cena Aberta, um dos grupos que marcaram o teatro paraense naquele período.

O teatro nunca seria apenas uma passagem em sua vida. Zélia dizia que foi também ali que aprendeu a ouvir. “O teatro me ajudou muito a ser uma pessoa que consegue dialogar, entender a razão do outro”, contou, anos depois, ao falar sobre a experiência como diretora.

Zélia, no baile dos artistas
Zélia recebe homenagens no Baile do Artistas, em 2024: Rainha! Foto: Luciana Medeiros

A UFPA: território fundamental

Zélia entrou na Universidade como estudante de Letras e da formação de atores e voltou, em 1978, como professora. Ensinou História da Arte, Estética e História e Teoria do Teatro. Foi diretora do Centro de Letras e Artes, vice-reitora entre 1993 e 1997 e coordenadora do Núcleo de Artes, que está na origem do atual Instituto de Ciências da Arte (ICA).

Mas sua presença na Universidade foi muito além dos cargos. Zélia participou diretamente das mudanças que levaram para dentro da UFPA as políticas de ações afirmativas e ampliaram o acesso de estudantes negros, indígenas, quilombolas e de outros grupos historicamente afastados do ensino superior.

Foi também dentro da UFPA que Zélia ajudou a colocar outra cena nas ruas de Belém. Em 1993, participou da criação do Auto do Círio. O cortejo nasceu do encontro entre teatro de rua, cultura popular e a celebração do Círio de Nazaré, ocupando o Centro Histórico e aproximando a produção artística da Universidade da cidade. Mais de três décadas depois, o Auto permanece como uma das mais longevas experiências de extensão cultural da UFPA.

Há poucas semanas, no dia 18 de agosto, essa história ganhou uma imagem concreta. Zélia esteve no Campus Guamá para o plantio de um baobá em sua homenagem. “Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós”, disse naquele dia.

Durante a homenagem, o reitor Gilmar Pereira da Silva falou menos da gestora e mais da pessoa que conheceu. “Zélia é uma referência, um símbolo, uma entidade. Mas nunca deixou de cultivar as relações humanas, a amizade e o cuidado com as pessoas”, afirmou. Para ele, Zélia ajudou a fazer “uma verdadeira revolução dentro da Universidade”.

Essa transformação também se construiu fora do campus. Zélia esteve entre os fundadores do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), no início dos anos 1980, e tornou-se uma das principais vozes do movimento negro na Amazônia. Em 2001, participou da representação brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo, realizada pela ONU em Durban, na África do Sul.

Zélia e o Baobá na UFPA
Um Baobá chamado Zélia. Foto: Heloísa Torres – Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

Manifestações dentro e fora do Pará

A ministra Anielle Franco lembrou, nas redes sociais, dos encontros que teve com Zélia e a definiu como “uma mulher gigante”, que fez da educação, da cultura e da luta antirracista instrumentos de transformação.

Djamila Ribeiro trouxe uma lembrança mais íntima. As duas haviam se encontrado em Belém há cerca de duas semanas. Nas redes sociais, a escritora recordou o último café da manhã juntas: “Levei flores da cor de Nanã, sua Orixá, tomei sua bênção. Sem saber, foi nossa despedida”.

Também nas redes, Gaby Amarantos resumiu sua despedida em poucas palavras: “Obrigada por tudo professora, seus ensinamentos ficam conosco pra sempre!”.

A historiadora Janira Sodré chamou Zélia de “insurgente” e destacou uma dimensão que atravessou sua atuação nacional: a contribuição para colocar as mulheres da Amazônia Negra no centro do pensamento sobre o país. “Será sempre bem lembrada por sua tenacidade e alegria”, afirmou.

Em Belém, a antropóloga e professora da UFPA Jane Beltrão escolheu falar da amiga. Recordou o bom humor, o acolhimento e uma relação de décadas. “Queria em lugar de pronunciar palavras juntar muitas flores de ipê roxo para te oferecer à filha de Nanã”, escreveu em sua despedida.

A alegria como característica de vida. Foto: divulgação/ reprodução da Internet

O cineasta e jornalista Ismael Machado, diretor do documentário Amador, Zélia, lembrou uma resposta que recebeu quando a convidou para ser personagem do filme. Zélia disse que se sentiria honrada, mas não tinha certeza se a personagem “renderia”. Para Ismael, a resposta dizia muito sobre ela. O filme acabaria aproximando os dois e transformando uma relação inicialmente profissional em amizade.

Em 2020, Zélia tornou-se a primeira mulher negra a receber o título de Professora Emérita da UFPA. Quase cinco décadas separavam aquela homenagem da jovem que chegara à Universidade para estudar Letras e fazer teatro.

Agora há também um baobá crescendo no campus. Reverenciado em diferentes culturas africanas como “Árvore da Vida”, o baobá carrega sentidos de ancestralidade, sabedoria, força e resistência. Em tradições africanas, é também associado à ligação entre o mundo material e o espiritual. Evoé, Zélia. Gratidão!

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