Foram dois dias de debates intensos e calorosos. Após cinco anos sem edições, este ano o 4º Fórum Circular – Patrimônio, Clima e Sustentabilidade voltou e reafirmou o papel do projeto como uma das mais consistentes experiências de articulação cultural e cidadã na Amazônia e em específico, Belém do Pará, onde surge há 12 anos.
Ao ocupar a Casa da Linguagem, no dias 30 e 31 de outubro, o evento antecipou-se a COP-30: ofereceu um espelho crítico de como a cidade vive e sente as mudanças climáticas, a desigualdade e o conflito entre preservação e desenvolvimento.
O Circular nasceu da prática de quem caminha, observa e produz cultura no centro histórico de Belém. Ao reunir pesquisadores, gestores públicos, empreendedores, artistas e moradores, o Fórum consolidou essa dimensão: o direito à cidade não se separa do direito ao clima e à memória.
“Este é o ano menos quente do resto da vida de vocês”, alertou o arquiteto Lucas Nassar, lembrando que a Unesco já considera as mudanças climáticas a maior ameaça ao patrimônio cultural mundial. No Fórum, essa ameaça ganhou rostos e endereços.
A pauta climática, tão frequentemente reduzida a gráficos globais, encontrou nas mesas do evento sua tradução local — o calor extremo que ameaça o patrimônio, as enchentes que degradam moradias, a especulação que empurra comunidades para fora dos bairros centrais.’

Cultura como ferramenta de resistência
Se a crise climática é real, o Fórum mostrou que a cultura é um modo de enfrentá-la. O Circular, que há mais de uma década ocupa ruas e praças de Belém, entende a cultura como política pública e como exercício de cidadania: um dispositivo de escuta e criação coletiva.
Do cinema indígena exibido na mostra Amazônia e Clima às falas de realizadoras como Ângela Gomes e Auda Piani, emergiu a ideia de que filmar, narrar, cozinhar ou dançar são também formas de resistência e memória.
Ao provocar o público com a pergunta “sustentabilidade pra quem?”, Auda Piani sintetizou o tom do encontro: não há sustentabilidade possível sem olhar para os corpos e territórios mais vulneráveis.
O Fórum também expôs as conexões entre emergência climática e injustiça social. Pesquisadoras como Brenda Brito (Imazon) e Eliane Moreira (MPPA) lembraram que o impacto do calor, das enchentes e do lixo é desproporcionalmente sentido pelas populações pobres e negras — como no caso do aterro de Marituba, exemplo contundente de racismo ambiental.
“Todo mundo vai sofrer, ninguém vai sofrer sozinho”, disse Brenda, parafraseando Marília Mendonça e desmontando a falsa ideia de que o colapso climático é democrático.

Arte e museus entre o ativismo e o capital
Em uma das mesas mais provocativas, Arthur Nogueira, Lívia Condurú e Miguel Chikaoka discutiram os dilemas éticos da produção cultural em tempos de patrocínios ambíguos. Entre a necessidade de financiar a arte e a responsabilidade de não silenciar diante dos passivos ambientais, surgiu a pergunta que ecoa em toda a cena contemporânea: como seguir criando sem se afastar da crítica?
A fala de Chikaoka trouxe uma chave simbólica: reconectar-se ao chão, ao território sensível, é também um ato político. “A escola precisa ser modificada a partir daquilo que nós somos. Há uma potência pedagógica nessa condição”, disse o fotógrafo.
Outro ponto alto foi a mesa sobre museus e cidade, que devolveu a essas instituições sua função social e transformadora. Do Museu Goeldi, que estuda há décadas os impactos do clima em Caxiuanã, ao recém-criado Museu do Cicloativismo, o debate revelou uma virada conceitual: museus como fóruns críticos, espaços de diálogo e construção de consciência ambiental.
“Museus não são supérfluos; são espaços de ampliação de visão de mundo”, afirmou a curadora Dayseane Ferraz.

O 4º Fórum Circular foi encontro e plataforma cidadã de pensamento climático e cultural. Durante a realização da quarta edição do Fórum Circular, marcaram presença as representações de instituições como a Universidade Federal do Pará, Museu Emílio Goeldi, Prefeitura de Belém, Governo do Pará, além de entidades independentes de pesquisa e da iniciativa privada.
Na Praça do Carmo, a Lambada Social Club encerrou a programação lembrando que dançar também é uma forma de existir politicamente. A festa popular foi o gesto final de um fórum que reafirmou o essencial: sem cultura, não há clima possível; sem cidadania, não há futuro sustentável.
Patrocínio das Lojas Renner e apoio da UFPA e da Fundação Cultural do Pará, o evento mostrou que a força transformadora não vem apenas de governos e corporações, mas da sociedade civil organizada, que fala, propõe e age.
Para ler mais sobre as discussões do fórum, acesse o site do projetocircular.org


