Com as mulheres da comunidade Pau Furado. Foto: Ettiene Angelim

Elas Fazem o Pirão Render na Feira “Sou Sabor Marajoara” em Salvaterra

Por alguns dias, as comunidades do Pau Furado e Santa Luzia, em Salvaterra, foram tomadas pela cheiro de leite fresco no fogo, carnes temperadas, coleta da mandioca e farinha quente sendo mexida no tacho.

Poderia ser apenas a rotina de uma cozinha tradicional, na roça marajoara, mas fomos um pouco além, reunindo mulheres e compartilhando saberes, experimentando técnicas e construindo junto. O resultado dessas vivências será celebrado neste sábado (2), na Feira “Sou Sabor Marajoara”, das 10h às 17h, na Taberna Marajó.

A ação marca a conclusão da primeira etapa do projeto “Elas Fazem o Pirão Render – Quando a Farinha é Pouca”, coordenado pela pesquisadora e produtora cultural Auda Piani, com apoio do edital PNAB-PA de Circulação em Cultura Alimentar.

Para Auda Piani, começar o projeto pelo Marajó não foi um acaso. “Tem a ver com a minha ancestralidade marajoara. Essa experiência com a comunidade do Pau Furado é anterior, e agora esse retorno só nos enriqueceu, porque a cada vez que voltamos, descobrimos novos saberes e fortalecemos essas trocas”, disse ela, nascida no interior de Ponta de Pedras, que aliás, será a próxima parada.

Na feira deste sábado, o público terá oportunidade de experimentar sabores que traduzem a essência da culinária marajoara: queijo do Marajó, bolinho de farinha, linguiça caseira, preparados nas oficinas e vivências.

E também haverá pratos como a maniçoba com côco e um de caramujo, receitas trazidas por Maria José Alcântara Carneiro, liderança do Quilombo Pau Furado. O cardápio de forma geral mistura referências quilombolas, indígenas, afro e de fazenda, revelando a diversidade cultural do território.

Coleta da maniva para a maniçoba, com toque especial do côco seco. Foto: Ettiene Angelim

Oficinas e vivências da cozinha

As oficinas no Pau Furado foram guiadas por Tia Rai, cozinheira com longa trajetória em fazendas, convidada especialmente por Auda para compartilhar seus saberes sobre a feitura do queijo e da linguiça, trazendo de volta práticas que já estavam se perdendo e que acabaram sendo foco das rodas de conversas que se formaram ao longo de três dias.

“São memórias e vivências que minha avó fazia e que a gente já não tinha mais como prática. Esse projeto trouxe de volta essa cultura da culinária marajoara que tanta gente consome, mas que a gente não vinha mais vivenciando. Agora vamos continuar, praticar e gerar renda com isso”, destacou Maria José.

Para ela, o impacto do projeto vai além da essência da cozinha: “A produção da linguiça junto com a produção do queijo vai fortalecer a economia do quilombo. Vai aumentar a geração de renda das famílias”, disse.

Maria José também lembra que Pau Furado mantém e quer viva não só a produção artesanal, mas tradições como o Círio de Nossa Senhora da Batalha, que ocorrerá no domingo da próxima semana. A casa de saberes da comunidade também será beneficiada.

Rodas de conversa e almoços, na casa de maria José, no Pau Furado. Foto: Holofote Virtual/ Luciana Medeiros

“É o primeiro Museu Quilombola do Pará”, diz Maria José. A renda adquirida na venda dos produtos será 100% revertida em melhorias de suas instalações.

O aprendizado nas oficinas e vivências inspirou também Claudiane de Jesus, que viveu pela primeira vez o processo de fazer queijo. “Eu pensei que fosse muito difícil, mas aprendi passo a passo e agora quero levar esse conhecimento para minha família. Quem sabe a gente se junta com as mulheres daqui para produzir e vender no quilombo e até fora dele?”.

Marlete Santos Leal, gestora da Escola Municipal Benedito Tomaz Carneiro, disse que se identificou de imediato com o projeto. “Quando vi o título do projeto, me emocionei. Ele traz uma memória afetiva da nossa vivência, de quando nossos pais e mães precisaram se reinventar para garantir o alimento. Enquanto escola, queremos ajudar a dar continuidade, para que não fique apenas aqui, mas gere organização e renda para as mulheres do quilombo”, disse.

Tia Rai em ação, na feitura do queijo do Marajó – Foto: Ettiene Angelim

Tia Rai, guardiã de memórias e saberes

Em meio as feituras, e entre uma conversa e outra vamos conhecendo um pouco melhor a história de Tia Rai. Em suas memórias, nos contou, o dia começava muito cedo, antes do sol clarear por completo os campos.

“A gente saía de manhã, com a garrafa d’água e o rango na mão e só voltava de noite”, lembra, descrevendo a rotina que marcou sua infância e juventude. Filha de administrador de fazenda, ela cresceu em meio a boiadas e plantações.

Foi nesse cenário que, aos 25 anos, casou-se e seu esposo que também cresceu na fazenda, tornou-se motorista e operador de grandes máquinas. “Naquele tempo, pra namorar, tinha que pedir permissão ao pai e à mãe”, conta, com um riso que mistura lembrança e espanto com os costumes de outra época.

Búfalos, o boi marajoara. Foto: Ettiene Angelim

A cozinha, para Tia Rai, sempre foi território. “Cozinhava para os peões, boiadeiros, trabalhadores de campo. Eram 20, 30 homens por vez”, conta. E não era tarefa pequena: alimentar dezenas de trabalhadores exigia não só técnica, mas também uma resistência ao calor do fogão.

Com o tempo, a cozinheira que começou alimentando vaqueiros e boiadeiros expandiu horizontes somando às vivências do campo um repertório que atravessa o rústico e o urbano. De tudo isso, ela traz receitas, mas também carrega consigo a sabedoria de quem entende a cozinhar é espaço de partilha, afeto e resistência.

Tia Rai tem orgulho de seus filhos, netos e fala de sua trajetória com naturalidade, como se cada episódio fosse mais um tempero na panela de histórias que dão sabor a sua vida. “Foi assim que me criei. É vida dura, mas é vida boa”, resume.

Celebração do encontro. Foto: Ettiene Angelim

Caminhos que seguem

Após Salvaterra, o projeto levará suas ações para uma comunidade do interior de Ponta de Pedras e seguirá à Cotijuba, Quatipuru e Ananindeua, culminando em Icoaraci (Belém). Em cada local, a proposta é fortalecer redes de mulheres, incentivar a geração de renda e construir memórias coletivas em torno da culinária e da identidade cultural marajoara.

Serviço

Feira “Sou Sabor Marajoara”, do projeto “Elas Fazem o Pirão Render, Quando a Farinha é Pouca”. Neste sábado, 2 de agosto, das 10h às 17h, na Taberna Marajó – Rodovia PA 154, Arena Cimarron, próximo à 13ª Rua, bairro Marabá – Salvaterra/PA – Mais informações: @projetoentrepanelas

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