Como pensar o futuro das instituições culturais da Amazônia sem ouvir quem vive e tensiona esses espaços todos os dias?
Foi com esse espírito que, nesta terça-feira (5), mediei, a convite do Sesc-PA, a mesa “Reimaginando Instituições Culturais para um Futuro Sustentável”, parte da programação do Fórum Raízes do Amanhã – Diálogos do Sistema Comércio rumo à COP 30, que marcou a inauguração do novo Sesc Doca, em Belém.
O encontro reuniu quatro olhares potentes sobre cultura, memória e resistência. Abrimos com Rita Marize Farias de Melo, mestra em Criação Artística Contemporânea e gerente regional de Cultura do Sesc Pernambuco e Sue Anne Regina Ferreira da Costa, professora da UFPA e coordenadora de Comunicação e Extensão do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Também tive a honra de receber Janete Borges, contadora de histórias, fundadora do grupo Xamã e Prêmio Baobá 2025, e Ronaldo Silva, músico, pesquisador das matrizes culturais brasileiras e cofundador do Arraial do Pavulagem.
O debate foi também um exercício de escuta tão necessária à construção coletiva quando se fala sobre governança, pertencimento e cooperação.
“Não basta criar projetos, é preciso pensar seus desdobramentos. Sem continuidade, a cultura vira só evento”, afirmou logo de início Rita Marize Farias, ao falar sobre a importância de estratégias de longo prazo.
Ela compartilhou a experiência do Sesc em Arcoverde (PE), onde atuou como mediadora em um conflito entre grupos de samba de coco: “Conseguimos transformar rivalidades históricas em oito coletivos ativos que hoje movimentam hotéis, restaurantes e geram renda para toda a cidade.
Rita aponta que governança cultural exige artistas, instituições, sociedade civil e poder público “sentados à mesma mesa. Desenvolvimento só existe com envolvimento”, completou.
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Foto/Reprodução/Youtube
Descentralização, oralidade e cultura de rua
Para Sue Anne Ferreira, descentralizar práticas culturais não é uma tendência, mas parte da própria tradição amazônica.
“O Museu Goeldi sempre produziu ciência e cultura em parceria. Não existe Amazônia sem a multiplicidade de vozes que a compõem. Descentralizar é reconhecer que a diversidade é o que nos constitui”, disse.
Ela destacou projetos do museu que envolvem lideranças indígenas na definição das metodologias de pesquisa, transformando o fazer científico em um processo colaborativo: “É ciência feita com e não sobre os povos, e isso muda o alcance e o impacto das ações”, afirmou.
Janete Borges deu corpo à oralidade ao entoar cantigas africanas e evocar a memória de seus ancestrais marajoaras: “Contar histórias é um ato político. É honrar a voz dos que vieram antes de nós e garantir que a memória não seja silenciada”.
Ela relatou o trabalho junto aos Tenetehara-Tembé no projeto Plantando Histórias, que vem documentando narrativas de anciãos:
“Eles mesmos nos pedem ajuda para registrar suas histórias. Quando um ancião morre, parte da história morre com ele. Nossa luta é manter viva essa ponte entre gerações”.
Com a força de quem vive a cultura popular nas ruas, Ronaldo Silva provocou: “Não existe cultura sem relação com a natureza e sem formas de trabalho. Cultura popular não é enfeite, é resistência”. Ao falar do Arraial do Pavulagem, ele destacou o papel transformador da festa:
“O povo na rua é revelador. É ali que a cidade se encontra consigo mesma, que a gente ressignifica tradições e inventa o futuro”, afirmou, chamando atenção para a necessidade de políticas culturais consistentes que sustentem as matrizes populares.
Redes que protegem e projetam o futuro
À medida que as falas se desenvolviam, o tema também ia além. Falamos do papel das instituições diante dos desafios dos territórios e sobre pertencimento. Nossa mesa se debruçou sobre a potência das redes, do terreiro à universidade, do coletivo de rua ao museu, como instituição científica e cultural.
Discutir cultura a cem dias da COP 30 é entender que não há enfrentamento da crise climática sem envolver as pessoas, seus modos de vida e suas expressões culturais.
Entendemos que instituições culturais são espaços estratégicos para criar diálogos entre ciência, comunidades tradicionais e políticas públicas, fortalecendo práticas sustentáveis que partem dos territórios e que, reimaginar instituições, afinal, é reimaginar formas de coexistir.
Ao falar de pertencimento, oralidade e redes, os debatedores apontaram que a cultura é também ferramenta de transformação ambiental, pois mobiliza coletivos, educa para a preservação e engaja a sociedade na defesa da Amazônia — um aprendizado essencial no caminho para a conferência climática.
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Veropa Session – Foto: Holofote Virtual
Fórum Raízes do Amanhã e o novo Sesc Doca
O Sesc Doca está de cara e instalações novas e a inauguração oficial ocorreu junto à abertura do Fórum, por sua vez criado no contexto dos 100 dias que antecedem a realização da COP 30.
Enquanto os debates aconteciam nos auditórios, o público circulava por uma feirinha de produtores regionais e artesãos, com estandes de gastronomia e economia criativa.
O dia encerrou com a estreia da turnê do Veropa Sessions, dentro do projeto Sesc Amazônia das Artes, um dos mais relevantes projetos de circulação artística da região Norte do Brasil.
Composta por Dangle Freitas (baixo), Marcelo Cardoso (compositor e músico) e Rafael Guerreiro (compositor e músico), a banda, formada no final de 2021, é conhecida por sua fusão de guitarrada, brega, lambada, jazz e soul, misturando a cultura amazônica e paraense com influências latinas.
No palco, em Belém, eles mostram a sonoridade “Amazônia Afro‑Caribenha” que também chegará ao Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Te mete!
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No palco também teve cultura hip hop. Foto: Holofote Virtual
Programação continua nesta quarta
Palestras sobre “Soluções Inspiradas na Natureza” e mesas sobre ecologia política, negócios sustentáveis e educação climática. Oficinas e vivências, incluindo “Letramento para a COP30” e debates sobre negócios sustentáveis, conectando comunidades tradicionais e startups verdes.
À noite, te prepara porque tem aulão de brega com Lívia Paixão, seguido do show da DJ Nat Esquema e encerrando com Zé Miguel (AP), das 20h às 22h.
No mais, só quero finalizar dizendo que o Sistema Comércio está de parabéns ao entregar o novo Ssec Doca e por estar cada vez mais investindo em cultura e ampliando o acesso da população em geral às suas ações.
Acesse os detalhes e horários da programação desta quarta-feira, 6, ultimo dia do fórum: aqui



