Casa dos Palhaços Trovadores

Casa dos Palhaços ganha cara nova e reabre em novembro para celebrar os 28 anos dos Trovadores

A Casa dos Palhaços está em requalificação. E quem passar pelo endereço, já vai notar diferença, embora a reabertura completa esteja prevista para novembro. Contemplada pelo edital de Manutenção de espaços Culturais, PNAB/Fundação cultural do Pará, em 2025, a companhia circense Os Palhaços Trovadores, referência na linguagem do clown, investiu no espaço que ocupa há 16 anos.

A pintura foi total na parte interna e externa, cujas paredes já estavam muito deterioradas. Foi feita a revisão total na parte elétrica do imóvel e trocadas duas centrais de ar [as antigas foram doadas para a República de Emaús]. O banheiro foi adaptado com acessibilidade.

“O dinheiro do edital cobriu quase toda a reforma, mas contamos também com a colaboração de muitos amigos. A grafitagem da fachada, assinada por Michele Cunha, foi renovada com apoio da loja Ache Arte que, graças a sensibilidade de sua proprietária Cristina Kahwage, vem ao longo dos anos contribuindo com o trabalho de muitos artistas”, ressalta Marton Maués, fundador e coordenador do grupo Os Palhaços Trovadores.

Cabe pouca gente nesta casa, quando se pensa em sala de espetáculo. Trinta, 40 pessoas, no máximo, ambiente intimista. Está situada na Travessa Piedade, a poucos passos da Praça da República e do Theatro da Paz, numa região de Belém cercada por alguns dos equipamentos culturais mais importantes da cidade. E é mais um deles. Não se deixe enganar pelo tamanho.

A casa fica enorme quando se fala em lugar de trabalho, criação, formação e encontro. A sede dos Palhaços Trovadores já recebeu artistas de outros estados e países, formou palhaços e palhaças, abrigou espetáculos, oficinas, cabarés, seminários e projetos que ajudaram a movimentar a cena da palhaçaria em Belém. E isso tudo com a casa pedindo clemência. Há alguns anos que uma reforma era bem vinda.

Espetáculo dos Palhaços Trovadores  “A Comédia da Esposa Calada que Falava Mais que Papagaio na Chuva”. (Foto: Luciana Medeiros – Fev. 2025)

Para manter a casa e o riso

Pela casa já passaram projetos como o Tem Gente na Casa, reunindo espetáculos convidados e o Palhaçadas de Quinta, que realizava um cabaré de palhaçaria na última quinta de cada mês. Atualmente algumas ações ocupam o espaço, como o grupo de mulheres cômicas As Preciosas Ridículas, que realiza formação em palhaçaria feminina e outras comicidades exclusivamente com mulheres cis e trans; e o coletivo Ver a Lona realiza um projeto de formação circense na casa.

“As Preciosas, aliás, realizam um grande encontro internacional, na casa, reunindo cômicas do Brasil e de outros países. Enfim, a Casa dos Palhaços não para e está pronta pra voltar com suas atividades em grande estilo”, celebra Marton Maués, fundador e coordenador do grupo.

Com tantos projetos e energia, pode-se até pensar que o jogo está ganho, mas será que manter uma sede cultural independente durante tanto tempo em Belém é uma tarefa simples e que só depende do amor pela arte?

“Não é nada fácil”, diz Marton. “Não contamos com nenhum apoio institucional. A Casa é mantida através do trabalho do grupo: todo cachê que o grupo recebe é dividido igualmente entre o elenco e também a Casa dos Palhaços. O mesmo se dá com os prêmios que recebemos de editais. Todo trabalho do grupo é realizamos de forma coletiva, os ganhos também”, destaca.

E essa coletividade não se restringe aos editais ou a outras fontes de premiações. “Fazemos uma administração compartilhada da Casa. No grupo, além de atores-palhaços, cada um tem outra função. E assim, seguimos, sempre trabalhando e forma cooperativa e colaborativa. Não há hierarquias e nem privilégios. Realizamos constantemente mutirões de limpeza do espaço, com participação de todos”, ressalta.

Fachada da Casa dos Palhaços Trovadores, antes da reforma
Fachada da Casa dos Palhaços Trovadores, antes da reforma. Foto: Luciana Medeiros

A Casa e Os Palhaços Trovadores

A Casa dos Palhaços foi inaugurada em 2010, quando os Trovadores completavam 12 anos. Agora ela é reinaugurada quando o grupo chega aos 28. Lembro que quando conversei Marton lá em 2010, tudo isso ainda era um projeto em construção, cedida em regime de comodato, pela Santa Casa da Misericórdia. Muito assertivo.

Hoje, a Casa dos Palhaços também se transformou numa referência na cidade. O grupo tem projetos de formação e fruição artística, focados principalmente na palhaçaria. Cuidando, portanto, da saúde das pessoas, por meio da arte. E muitas pessoas artistas passaram por lá, aprendendo a refletir com o riso provocado na plateia.

“Durante quase dez anos, coordenei no espaço o projeto O Clown Nosso de Cada, que realizava treinamento para artistas palhaços e palhaças e também fechava o ano com o Seminário de Palhaçaria. Em função deste seminário, muitos artistas e pesquisadores de outros estados e até de outros países visitaram Belém e a Casa dos Palhaços”, continua Maués.

Para reabrir a casa, está sendo pensada uma grande programação, unindo a celebração dos 28 anos do grupo a felicidade em receber o público novamente, agora com o espaço, de cara nova.

“Estamos pensando em abrir a Casa dos Palhaços no diz do nosso aniversário, que será dia 8 de novembro próximo. Já fizemos contato com a o Teatro Dadivoso com o espetáculo Ô de Casa, Posso Entrar Pra Cuidar, pois achamos que tem uma aura benfazeja, uma energia boa para se trazer pra dentro de uma casa. É um trabalho delicado, sensível, humano e muito emocionante”, dá o spoiler.

E Os Trovadores? “Também estamos pensando em nos apresentar. Porém, ainda não elaboramos completamente essa programação de reabertura da Casa dos Palhaços, nosso lugar no mundo, como bem disse Gaston Bachelar. Mas assim que essa programação estiver fechada, vamos divulgar amplamente para nossos seguidores”, avisa Marton.

“A Casa dos Palhaços é um espaço de acolhimento e afeto, que tocamos com muita luta e dentro das nossas possibilidades. Temos um maior carinho por essa Casa e vamos lutar sempre para que ela continue sendo esse espaço de referência principalmente na arte da palhaçaria  e comicidade”, diz o fundador, ator e diretor.

Para ele, não há outro caminho. “Vamos seguir criando novos espetáculos, apresentando nosso trabalho na casa e nos mais diversos lugares, visitando bairros e cidades do estado. Formando novos artistas. E sobretudo, pensando a palhaçaria diante dos novos desafios da sociedade contemporânea. Viva os palhaços, palhaças e palhaços do mundo!”, finaliza Marton.

Os Palhaços Trovadores em frente a uma igreja durante o Circular
Os Palhaços Trovadores em ação pela Campina. Foto; divulgação

Conheça o elenco do grupo Os Palhaços Trovadores

Marton Maués (Tilinho)

Marcelo Villela (Bumbo Tchelo)

Ricardo Torres (Chico)

Rosana Coral (Bromélia)

Alessandra Nogueira (Neguinha Baobá)

Cleice Maciel (Pipita)

Sônia Alão (Pirulita)

Os Palhaços Trovadores em apresentação em Belém. Foto: Luciana Medeiros

Sobre Os Palhaços Trovadores

Criados em Belém, em 1998, por iniciativa de Marton Maués, os Palhaços Trovadores foram pioneiros na cidade na pesquisa e no trabalho continuado com a linguagem do palhaço/clown. Desde o início, o grupo buscou uma poética própria, aproximando a palhaçaria de elementos da cultura popular paraense, trovas, canções, pastorinhas, boi-bumbá, quadrilhas, mitos e lendas; e fazendo também da rua e das praças espaços de criação e encontro com o público.

Essa mistura aparece nos primeiros espetáculos. “Sem peconha eu não trepo neste açaizeiro”, estreado em novembro de 1998, brincava com mitos e lendas amazônicos; no mês seguinte veio “O Singelo Auto de Jesus Cristinho”, inspirado nas pastorinhas. Em 1999, “O Boi do Romeu no Curral da Julieta” levou Shakespeare para dentro do universo do boi-bumbá. Vieram depois trabalhos como “O Hipocondríaco”, “Mão de Vaca” — ambos em diálogo com Molière — e “O Menor Espetáculo da Terra”, entre outras montagens.

A pesquisa desenvolvida pelo grupo acabou chegando também à universidade. Em 2012, Marton Maués defendeu na UFBA a tese de doutorado “Criação Pública – o desvelar da poética dos Palhaços Trovadores na montagem de O Mão de Vaca”, na qual chamou de “poética da recorrência” o modo como o grupo foi construindo seu teatro de palhaços, especialmente a partir da apropriação e reelaboração de elementos dos folguedos populares.

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