O Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA) celebrou de 8 a 10 de dezembro, uma década de atividades ocupando três territórios da Amazônia Atlântica — Bragança, Augusto Corrêa e Ajuruteua. Criado para fortalecer práticas audiovisuais comunitárias, o festival chegou aos 10 anos ampliando redes internacionais e reafirmando o cinema político, educativo e de memória.
Desde sua primeira edição, o FICCA se organiza como processo e não como evento pontual. Oficinas, exibições, cineclubismo e formação audiovisual percorrem escolas públicas, feiras, quilombos, comunidades rurais e praças ao longo de todo o ano.
“O Festival Internacional de Cinema do Caeté opera fora dos padrões de mercado. O festival não acontece apenas em três dias, mas o ano inteiro, com exibições, oficinas, formação de público e circulação em territórios da Amazônia Atlântica”, destaca o coordenador Francisco Weyl.
Para Weyl, ocupar diferentes localidades do Caeté nesses dez anos significa consolidar uma prática audiovisual comprometida com autonomia e permanência. Segundo ele, a circulação pelas comunidades não é um deslocamento externo, mas a construção conjunta de espaços de criação:
“É trabalho feito com quem está no território, sem glamour e sem tutela. Cada local onde passamos, de Augusto Corrêa a Icoaraci, mostra que o cinema só faz sentido quando devolve narrativa e dignidade a quem nunca teve acesso aos meios de produção audiovisual”, aponta.
Travessia internacional e impacto na edição comemorativa
O festival percorreu Portugal e Cabo Verde antes de retornar ao Pará. Em Porto, realizou oficinas e produções coletivas; em Cabo Verde, reforçou vínculos com cineastas e pesquisadores africanos.
Weyl revela que a circulação internacional reforçou a identidade crítica do festival, e que a ida ao Atlântico não foi para vitrine. Foi para coproduzir, debater e enfrentar as disputas narrativas entre projetos culturais comunitários e iniciativas patrocinadas por corporações. Essas colaborações fortalecem a rede afro-luso-amazônica do festival, que volta à Amazônia trazendo diálogos e parcerias estabelecidas,
Cinema como prática coletiva
Uma das marcas do FICCA é produzir filmes com as comunidades. Nos últimos quatro anos, oficinas em escolas públicas de Augusto Corrêa resultaram em obras como “O Fantasma do 7º Ano”, “Exercitando Karuana” e “Nas águas do Tijoca o Patal conta a sua história”.
Há também produções feitas em Portugal e novos filmes sobre mestres populares da região. Nesse contexto, o processo é mais importante que o produto e o resultado não é só filme. É formação crítica, autonomia narrativa e pertencimento.
O festival mantém cineclubes permanentes em escolas da região e parcerias com bibliotecas e coletivos culturais de Belém, Ananindeua, Primavera e Quatipuru.
A programação de 2025 reuniu convidados que já atuam junto ao festival — pesquisadores portugueses e cabo-verdianos, educadores, artistas populares e realizadores paraenses. O coordenador explica que a escolha não é comercial, mas histórica:
“Convidamos quem compartilhou saberes e esteve no chão conosco, filmando, montando e ensinando. O festival opera com critérios anticoloniais e comunitários, avaliando urgência narrativa, relevância social e vínculo com o território, e não padrões comerciais de mercado”, assinala.

Educação audiovisual como eixo estruturante
Em dez anos, o FICCA formou centenas de participantes e contribuiu para o surgimento de mostras, festivais e novas produções no Caeté. Nesta edição, está sendo lançada a revista Kynema, voltada à pesquisa e reflexão audiovisual. Weyl ressalta que o desenvolvimento regional passa pela educação audiovisual:
“Queremos consolidar um arquivo comunitário, fortalecer cineclubes e estruturar uma incubadora de projetos em parceria com professores e artistas locais.” O coordenador e cineasta também alerta para a necessidade de financiamento público legítimo, afirmando que sem isso o audiovisual “vira propaganda corporativa, não educação”.
O FICCA 2025 prestou homenagem ao professor e pesquisador José Ribamar Gomes Oliveira, que faria a conferência de abertura e faleceu antes da realização do evento. Para Weyl, a homenagem reafirma o compromisso do festival com a memória intelectual da região:
“Ribamar era referência na pesquisa sobre cinema em Bragança. Sua ausência vira responsabilidade: proteger a memória de quem construiu pensamento e prática cineclubista no Caeté.”

O filme “Alma das Ruas”, codirigido por Weyl e Christovam Pamplona Neto, integra a homenagem. Ao longo da década, o FICCA observa transformações em jovens, professores e artistas que passaram pelas oficinas. Muitos ingressaram em produções audiovisuais, criaram projetos próprios ou incorporaram o cinema à prática profissional.
A programação reuniu convidados de diferentes regiões do Brasil e de outros países de língua portuguesa, fortalecendo pontes culturais entre Amazônia, África e Europa. Entre as presenças internacionais, destacam-se o pesquisador e realizador Luís Costa e Cláudia Sá (Portugal), ligados à Livraria Gato Vadio, e Júlio Silvão, da Fundação Servir Cinema, de Cabo Verde.]
Do cenário nacional, participam nomes como André Queiróz (UFF), Denis Bezerra (UFPA), Henrique Brito (ALB-Pará), José Carlos Barroso (IGHB), Manoel Ramos, Roberta Mártires, Rosilene Cordeiro, Cuité Marambaia, Mateus Moura, Buscapé Blues e diversos pesquisadores, artistas, mestres da cultura popular e produtores culturais paraenses e brasileiros.
A cineasta Rosilene Cordeiro já participou em diferentes funções no FICCA: jurada, oficineira, homenageada, palestrantes, apoio, realizadora. Atualmente, Rosilene assina a coordenação de linguagens artísticas, ao lado de Marcelo Rodrigues.
“É uma alegria pessoal, um legado político-social bem expressivo acompanhar os desdobramentos desse festival em uma década de produção de diferentes ângulos e sob vários aspectos de significação cultural. É muito gratificante fazer parte desta história”, diz.
Para saber mais sobre o festival, acesse o site: https://www.ficca.net.br/


