No escuro calculado de duas salas, a Amazônia ganha pulso. A exposição “Amazônia”, de Sebastião Salgado, em cartaz no Museu das Amazônias, no Porto Futuro 2, em Belém, vai além da travessia fotográfica que consagrou o projeto.
A mostra convida o público a um mergulho sensorial por meio de duas projeções que operam como câmaras de escuta e de visão: “Retratos” e “Planeta Amazônia”. Não são apêndices da mostra; são seus nervos.
Com curadoria de Lélia Wanick Salgado, a exposição se estende até dia 8 de fevereiro de 2026 e reúne sete anos de expedições e experiências humanas numa região cuja engenhosidade social e potência natural desafiam o olhar apressado.
As projeções, instaladas em salas escuras, ampliam o diálogo entre imagem, som e território, oferecendo ao visitante uma experiência de tempo expandido — aquela em que a floresta não é cenário, mas presença.
Em “Retratos” (18’08”), a câmera de Salgado se detém nos povos da floresta. Fotografias em preto e branco surgem primeiro como presenças individuais, depois em duplas e grupos, compondo um mosaico de identidades e ancestralidades.
Os rostos não pedem legenda: sustentam o tempo com a dignidade de quem carrega histórias milenares.

A trilha sonora, especialmente composta por Rodolfo Stroeter a partir de sons concretos da floresta, cria um chão acústico para essas imagens. Instrumentos acústicos, vozes, o farfalhar das árvores, o canto dos pássaros, o rumor das águas que descem das montanhas — tudo se organiza como um organismo vivo.
A interpretação reúne Marlui Miranda, Rodolfo Stroeter, Lelo Nazário, Teco Cardoso, Ricardo Mosca, Noa Stroeter e Bugge Wesseltoft. O resultado não ilustra as imagens; dialoga com elas, como se cada rosto também emitisse som.
Os números que atravessam esse silêncio são contundentes. Quando os navegadores lusitanos chegaram ao Brasil, em 1500, estima-se que cerca de cinco milhões de indígenas habitavam a Amazônia. Hoje, são aproximadamente 370 mil pessoas, distribuídas em 188 povos e cerca de 150 idiomas. Em “Retratos”, essas estatísticas se transformam em presença concreta — e irrecusável.
“Planeta Amazônia” (19’54”) propõe um deslocamento decisivo: a Amazônia deixa de ser recorte geográfico para se afirmar como organismo planetário.
Paisagens florestais, montanhas, chuvas torrenciais, arquipélagos, cachoeiras e os chamados rios voadores — correntes de umidade que atravessam o céu — se articulam ao som do poema sinfônico Erosão – Origem do Rio Amazonas, de Heitor Villa-Lobos.
Interpretada pela Orquestra Sinfônica da Rádio Eslovaca, sob regência de Roberto Duarte, a obra confere monumentalidade à narrativa visual. A música não descreve a floresta; ela a convoca. Cada acorde parece acompanhar o ciclo da água que, na Amazônia, não depende da evaporação dos oceanos.
Ali, cada árvore atua como um aerador natural, lançando centenas de litros de água por dia na atmosfera e criando rios aéreos mais volumosos que o próprio Amazonas. É essa engenharia invisível — biomassa em movimento — que o vídeo torna sensível.
A imersão sonora e visual constrói uma percepção ampliada do ecossistema e de sua fragilidade. A floresta, que se estende por nove países sul-americanos e tem cerca de 60% de sua área em território brasileiro, surge como sistema vital em disputa, pressionado por conflitos ambientais e sociais que ameaçam sua sobrevivência.
Entre o visível e o essencial
Ao integrar fotografia, música e projeção, “Retratos” e “Planeta Amazônia” aprofundam a experiência do público e reposicionam a exposição no debate contemporâneo sobre preservação ambiental e valorização dos povos indígenas. Não se trata apenas de ver a Amazônia, mas de escutá-la — e, nesse gesto, reconhecer sua centralidade para o equilíbrio do planeta.
As projeções reafirmam o sentido do projeto de Sebastião Salgado: transformar o olhar em compromisso. Ao sair das salas escuras, o visitante leva consigo não apenas imagens, mas a constatação de que a floresta respira — e de que esse fôlego é também o nosso.
Serviço
Exposição: Amazônia — Sebastião Salgado
Local: Museu das Amazônias
Endereço: Armazém 4A, Complexo do Porto Futuro II, Belém (PA).
Funcionamento: De quinta a terça-feira, das 10h às 18h (última entrada às 17h). Fechado às quartas-feiras para manutenção.
Entrada: gratuita. Em cartaz até 8 fevereiro de 2026


